Esta obra esta digitalizada e pode ser redistribuda desde que
mantendo as INFORMAES deste documento, como autor, fotocopia,
etc.

Tenha em mente que esta obra foi digitalizada sem o consentimento
de Drauzio Varella, caso queira contribuir para o autor compre o Livro
Original.

Se este livro no estivesse digitalizado voc teria que Ter pego em
uma biblioteca ( Se tiver ) ou comprando o original, por este objetivo
que ele foi distribudo a voc.


Vamos comear a Digitalizar nossos Livros, a cada livro digitalizado 
 uma fonte de ajuda para muitos, Digitalizar um livro  fcil use pelo
mtodo de IMAGEM que fica muito mais fcil para quem vai digitalizar,
  o mtodo mais demorado e trabalhoso  o OCR que Digitaliza cada
       letra e aps voc tem que arrumar cada palavra errada.

Se todos ficssemos dizendo que "Os Scanners que temos disponveis
       por preos acessveis so muito lentos para Digitalizar"
NUNCA TERIAMOS UM LIVRO DIGITALIZADO E ISTO NO  VERDADE
     O que precisamos  TER MOTIVAO e FORA DE VONTADE

   Veja um exemplo: Nos sites ADULTOS esto disponveis diversas
imagens de mulheres e cenas imprprias para menores que na maioria
Foram Digitalizadas por SCANERS BARATOS e LENTOS, como podemos
   dizer que eles demoram para digitalizar se existe tantas fotos de
 revistas adultas brasileiras digitalizadas? Ser que foram as prprias
  revistas que cederam as imagens, que nem mesmo em seus SITES
                      OFICIAIS disponibilizam??
                              Creio que no.
   A Partir deste exemplo voc pode perceber que precisamos  de
           MOTIVAO, FORA DE VONTADE E INCENTIVO.

                                 FIM


                             Conhea:
                          http://elinks.up.to


                     Site Oficial Drauzio Varella
        http://www.drauziovarella.com.br/carandiru/index.html
         ESTAO CARANDIRU
            Drauzio Varella
COMPANHIA DAS LETRAS
Copyright C 1999 by Drauzio Varella
Projeto grfico e capa:
Hlio de Almeidia
sobre foto de Andr Brando

Pesquisa iconogrfica:
Silvana Jella

Preparao:
Denise Pegorim

Reviso:
Carmen S. da Costa
Ana Maria Barbosa
Eliana Antonioli
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao
(Cmara Brasileira do Livro, sip Brasil)
Varella, Drauzio, 1943 -
Estao Carandiru / Drauzio Varella. -
So Paulo -
Companhia das Letras, 1999. capital,
144 - Laranja, 148 - Sangue-bom, 152 - Tra
11-85-7164-897-2
1. Penitenciria do Estado (So Paulo)
2. Prisioneiros
99-1873 Cuidados mdicos - So Paulo (Estado) i. Titulo. ,
1)1)-365.66
Indice para catlogo
sistemtico:
1. Prisioneiros : Assistncia : Problemas sociais
365.66
1999

Todos os direitos desta edio reservados 
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                                      NDICE


Introduo - Pagina 9
Estao Carandiru - Pagina 13
Casaro - Pagina 18
Os pavilhes - Pagina 21
barraco - Pagina 36
Sol e lua - Pagina 44
Fim de semana - Pagina 51
Visitas ntimas - Pagina 60
baque - Pagina 64
No cinema - Pagina 70
Rita Cadillac - Pagina 76
Atropelo na Divinia - Pagina 79
Bem-vindo - Pagina 83
Impacto - Pagina 86
Biotnico Fontoura - Pagina 90
Leptospirose - Pagina 95
Anjos-demnios - Pagina 99
Os funcionrios - Pagina 105
rebanho - Pagina 117
Amarelo - Pagina 121
Tudo na colher - Pagina 129
Para derrubar a malandragem - Pagina 132
Na piolhagem - Pagina 136
cio - Pagina 141
Pena capital - Pagina 144
Laranja - Pagina 148
Sangue-bom - Pagina 152
Travestis - Pagina 155
Inocncia - Pagina 158
Ricardo - Pagina 160
Quebra-Cabea - Pagina 164
Santo - Pagina 173
Mulher, motel e gandaia - Pagina 176
Maria-Louca - Pagina 182
Miguel - Pagina 185
Um abrao - Pagina 191
Deusdete e Man - Pagina 198
Amor de me - Pagina 201
Edelso - Pagina 205
Lula - Pagina 209
Marg Suely - Pagina 213
Seu Chico - Pagina 217
Cozinha Geral - Pagina 219
Reencontro - Pagina 223
Z da Casa Verde - Pagina 226
Neguinho - Pagina 231
Manga - Pagina 237
Seu Jerermas - Pagina 243
Veronique, a Japonesa - Pagina 247
Nego-Preto - Pagina 252
Olho por olho - Pagina 258
Paixo arrebatadora - Pagina 260
Sem-Chance - Pagina 267
Seu Valdomiro - Pagina 270
filho prdigo - Pagina 275
Aprendiz de feiticeiro - Pagina 279
levante - Pagina 281
ataque - Pagina 286
rescaldo - Pagina 290
Crditos fotogrficos - Pagina 297
E mais contedo INEDITO DO SITE: Brbara No final do Livro.
                              INTRODUO
  Quando eu era pequeno, assistia eletrizado queles
filmes de cadeia em branco e preto. Os prisioneiros vestiam
uniforme e planejavam fugas de tirar o flego
na cadeira do cinema.
 Em 1989, vinte anos depois de formado mdico
cancerologista, fui gravar um vdeo sobre AIDs na enfermaria
da Penitenciria do Estado, construo projetada
pelo arquiteto Ramos de Azevedo nos anos 20, no complexo do
Carandiru, em So Paulo. Quando entrei e a porta pesada bateu
atrs de mim, senti um aperto na garganta
igual ao das matins do cine Rialto, no Brs.
 Nas semanas que se seguiram, as imagens do presdio
no me saram da cabea. Os presos na soleira das celas, o
carcereiro com a barba por fazer, um Pm
de metralhadora distrado na muralha, ecos na galeria mal
iluminada, o cheiro, a ginga da malandragem, tuberculose,
caquexia, solido e a figura calada do Dr. Getlio,
meu ex-aluno no cursinho, que cuidava dos pre-
SOS COM AIDS.
 Duas semanas depois, procurei o dr. Manoel Schechtman,
responsvel pelo departamento mdico do sistema prisional, e
me ofereci para fazer um trabalho voluntrio
de preveno  AIDs. Na conversa, o dr. Manoel me explicou que
a situao da epidemia na Penitenciria no era das piores se
comparada  dos 7200 presos da Casa
de Deteno, o maior presdio do pas, situado no mesmo
complexo, de frente para a movimentada avenida Cruzeiro do
Sul, vizinho do metr, a dez minutos da praa
da S, quilmetro zero de So Paulo.
 O trabalho comeou em 1989 e dura at hoje. Com o
apoio da Universidade Paulista/UNIP, uma instituio
particular de So Paulo, fizemos pesquisas epidemiolgicas
sobre a prevalncia do HIV, organizamos palestras, gravamos
vdeos, editamos a revista em quadrinhos O Vira Lata, um
Carlos Zfiro dos anos 90 escrito por Paulo
Garfunkel e desenhado por Libero Malavoglia, e atendi doentes.
Com os anos, ganhei confiana e pude andar com liberdade pela
cadeia. Ouvi histrias, fiz amizades
verdadeiras, aprendi medicina e muitas outras coisas. Na
convivncia, penetrei alguns mistrios da vida no crcere,
inacessveis se eu no fosse mdico.
 Neste livro, procuro mostrar que a perda da liberdade
e a restrio do espao fsico no conduzem  barbrie, ao
contrrio do que muitos pensam. Em cativeiro,
os homens, como os demais grandes primatas (orangotangos,
gorilas, chimpanzs e bonobos), criam novas regras de
comportamento com o objetivo de preservar a integridade
do grupo. Esse processo adaptativo  regido por um cdigo
penal no escrito, como na tradio anglo-saxnica, cujas leis
so aplicadas com extremo rigor:
- Entre ns, um crime jamais prescreve, doutor.
 Pagar a dvida assumida, nunca delatar o companheiro,
respeitar a visita alheia, no cobiar a mulher do prximo,
exercer a solidariedade e o altrusmo recproco,
conferem dignidade ao homem preso, O desrespeito  punido com
desprezo social, castigo fsico ou pena de morte:
 - No mundo do crime, a palavra empenhada tem mais
fora do que um exrcito.
 No  objetivo deste livro denunciar um sistema penal
antiquado, apontar solues para a criminalidade brasileira ou
defender direitos humanos de quem quer
que seja. Como nos velhos filmes, procuro abrir uma trilha
entre os personagens da cadeia: ladres, estelionatrios,
traficantes, estupradores, assassinos

10

e o pequeno grupo de funcionrios desarmados que toma
conta deles.
 A narrativa ser Interrompida pelos interlocutores,
para que o leitor possa apreciar-lhes a fluncia da linguagem,
as figuras de estilo e as grias que mais
tarde ganham as ruas.
 Por razes ticas, os casos descritos nem sempre se
passaram com os personagens a que foram atribudos. Como diz a
malandragem:
- Numa cadeia, ningum conhece a moradia da verdade.

11

                              ESTAO CARANDIRU
- Cadeia  um lugar povoado de maldade.
 Pego o metr no largo Santa Ceclia, na direo
Corinthians-Itaquera, e baldeio na S. Deso na estao
Carandiru e saio  direita, na frente do quartel
da Pm. Ao fundo, a perder de vista, a muralha cinzenta com os
postos de vigia. Vizinho do quartel abre-se um prtico
majestoso: CASA DE DETENO, EM letras pretas.
 O porto da rua leva a um ptio de estacionamento
lotado de carros. Por ele circulam advogados, mulheres com
sacolas e funcionrios corpulentos de cala
jeans que falam do trabalho, riem uns dos outros e mudam de
assunto quando um estranho se aproxima. H que cumpriment-los
com deciso; caso contrrio, d vontade
de gritar de dor quando a mo  esmagada no aperto.
 Trinta passos para dentro fica o predinho da
Administrao, fechado por um porto verde no qual se acha
recortado um portozinho para pedestres. Para entrar,
no  necessrio bater; bast aproximar a cabea da janela do
portozinho que por telepatia o rosto do porteiro aparece mal
iluminado, l dentro.
 A abertura obedece  velha rotina das cadeias, segundo
a qual uma porta s pode ser aberta quando a anterior e a se
guinte forem fechadas.  de boa educao
esperar sem inteis demonstraes de impacincia.
 Ouo a batida do destranque e caio na Ratoeira, um
trio gradeado com dois guichs rasgados  esquerda, para o
visitante

13

se identificar. De entre os guichs sai um corredor que d
acesso  sala do diretor-geral, ampla e cheia de luz. A mesa 
antiga. Na parede atrs dela, uma foto
do governador. Mais abaixo, um dos diretores, cadeeiro de
muitos anos, afixou uma placa de cobre: " mais fcil um
camelo passar pelo buraco de uma agulha do que
um rico entrar preso na Casa de Deteno".
 Retorno  Ratoeira, espero abrir o porto interno e
fico de frente para a muralha que circunda a cadeia, vigiada
por policiais militares armados com submetralhadoras.
 Passo para a Divinia, um ptio amplo em forma de
funil. Na parte estreita fica a sala de Revista Corporal,
parada obrigatria dos que entram, exceto mdicos,
diretores e advogados. Antes do acesso aos pavilhes, 
preciso entrar nesta sala e levantar os braos diante dos
revistadores, que se limitam a bater as mos na
cintura e na face lateral das coxas do revistado.
Revistar  outro ritual de cadeia.
 Engana-se, no entanto, quem julga pura encenao to
mecnica revista: volta e meia algum  flagrado com droga,
vai preso e cumpre pena nas dependncias
do coc (Centro de Observao Criminal).
 Uma vez, cinco presos do pavilho Cinco, armados de
facas, tomaram funcionrios como refns na Lavanderia, para
conseguir transferncia de presdio. A porta
da cadeia ficou cheia de polcia e reprteres com cmeras. Um
funcionrio aproveitou a confuso para entrar com um quilo e
meio de cocana. Foi pego na Revista.
Seu Jesus, diretor de Vigilncia, ex-lutador profissional de
luta livre, hoje pastor protestante, fez o que pde para
identificar o destinatrio da encomenda:
 -  melhor contar. Olha a tua situao, meu: de manh,
voc chega no trabalho como chefe de famlia, respeitado; 
tarde, sai daqui preso. Vai pegar cinco
ou seis anos l no coc.

Teus meninos, agora, so filhos de bandido. Tua esposa no 
mais senhora de um servidor pblico,  mulher de malandro.
 O apelo emocional foi de pouca valia para a
Vigilncia. O convvio, mestre persistente, havia ensinado ao
carcereiro-traficante o mandamento supremo da marginalidade:
- O Crime  silncio.
 Outro dia, um funcionrio do pavilho Oito,
atarracado, de bigode, quis entrar com um pacote de crack
amarrado  face interna das coxas. O revistador, que
andava meio desconfiado, descobriu. Surpreendido, o rapaz
atarracado saiu correndo para dentro da cadeia com o objetivo
de atingir o Oito, no fundo do complexo,
onde poderia contar com a ajuda dos proprietrios da droga
para se livrar do flagrante. No atingiu o intento; na
correria, foi derrubado pelos colegas.
 Do lado da Revista fica a Copa da diretoria,
construo recente executada pelos prprios presos. Um deles,
quando a obra estava no final, fez questo de
me mostrar o trabalho; com os olhos brilhando de orgulho,
apontava as tbuas do teto caprichosamente alinhadas por ele e
um companheiro estrbico que se perfilava
a seu lado, balanando vigorosamente a cabea em anuencia
completa s explicaes do marceneiro -chefe. No final,
apertei-lhes a mo em despedida. S ento escutei
a voz empostada do ajudante:
- Reeducando Xavier s suas ordens, doutor.
 A Divinia  cheia de movimento durante o dia. Tudo o
que entra ou sai da cadeia passa obrigatoriamente por ela. Sem
atravess-la, s pulando a muralha ou
cavando tnel. Caminhes descarregam comida, tijolos, madeira
e material para o trabalho nos Patronatos, alm de retirar
toneladas de lixo. Humanamente impossvel
revistar tudo o que entra. Paralisaria o presdio.
  na Divineia o ponto final dos cambures que trazem
os presos ou que os levam para fora: depoimentos no Frum,
reconhecimento nos distritos ou transferncia para outros
presdios - procedimento chamado de "bonde", na linguagem da
cadeia. Os que chegam descem algemados pela
porta de trs do camburo, ofuscados pela luz repentina. 
noite, com a Divinia escura, a cena de chegada na cadeia
provoca melancolia.
 A Deteno tem mais gente do que muita cidade. So
mais de 7 mil homens, o dobro ou o triplo do nmero previsto
nos anos 50, quando foram construdos os
primeiros pavilhes. Nas piores fases, o presdio chegou a
conter 9 mil pessoas.
 Como o trabalho de carga e descarga fica por conta dos
detentos,  na Divinia o meu primeiro contato com eles.
Faclimo reconhec-los, basta olhar para
a cala de cor bege, uniforme obrigatrio. Palet  proibido,
o cabelo tem que estar curto. No podem andar descalos, de
peito nu ou a barba por fazer. Camisa,
malha e bluso so livres. A camiseta  soberana. A alvinegra
do Esporte Club Corinthians Paulista  disparado a mais
popular, bate as do Palmeiras, So Paulo e
Santos somadas. Em poca de Copa, a da seleo tinge os
corredores de canrio, depois rareia e desaparece.
Camiseta-propaganda de poltico ningum usa, pega mal
no ambiente.
 Em minha direo vem um malandro desdentado, na ginga,
sandlia de dedo e uma T-shirt impecvel da New York
University:
- Chegando, doutor?
- Estou. Como foi o fim de semana?
- Suave.
 Na parte ampla do funil que  a Divinia, o ptio 
fechado por um paredo com figuras natalinas pintadas anos
atrs: um pastorzinho contra o cu estrelado,
montanhas com neve e trs ovelhinhas bondosas. Atrs delas,
erguem-se os andares superiores do pavilho Seis, central.

16

 Do lado esquerdo da Divinia, h um bosque com
macaquinhos nos galhos e um coreto intil. Entre as rvores,
um caminho asfaltado leva ao porto que conduz
aos pavilhes Dois, Cinco e Oito.
 Do lado oposto, vizinho  Copa da diretoria, h um
canteiro de flores e uma fontezinha assentada num receptculo
de caco de cermica, no qual um dia nadaram
peixinhos or namentais.
 A fonte  despojada: trs discos revestidos com
azulejos azuis, de dimetros crescentes do topo para baixo,
concntricos em torno de um eixo de concreto.
Do disco superior, escorre sobre os outros um minguado fio de
gua, exausto para a tarefa de projetar-se ao alto e na queda
oxigenar a gua em que viveram os peixinhos,
conforme a concepo original.  uma obra que no faz justia
 tradio brasileira no campo dos chafarizes.
 Deste lado, em posio simtrica  que d acesso ao
Dois, entre o jardim caipira e a fonte, fica o porto de
entrada para os pavilhes do lado direito da
cadeia: o da frente  o Quatro, depois vm o Sete e o Nove. No
ltimo andar do Quatro est situada a enfermaria, local de
muitas histrias contadas neste livro.


                                   O CASARO
 A Deteno  um presdio velho e malconservado. Os
pavilhes so prdios cinzentos de cinco andares (contado o
trreo como primeiro), quadrados, com um ptio
interno, central, e a rea externa com a quadra e o campinho
de futebol.
 As celas ficam de ambos os lados de um corredor -
universalmente chamado de "galeria" - que faz a volta completa
no andar, de modo que as de dentro, lado
1, tm janelas que do para o ptio interno e as outras para a
face externa do prdio, lado E.
 Paredes altas separam os pavilhes, e um caminho
asfalta do, amplo, conhecido como "Radial", por analogia a
movimentada avenida da zona leste da cidade,
faz a ligao entre eles.
 O porto de entrada dos pavilhes  guardado por um
funcionrio sem armas nem uniforme. Para diferencilos dos
presos, os carcereiros vestem cala escura
ou jeans.  proibido entrar no presdio com armas, exceo
feita ao temido peloto de Choque da Pm, nos dias de revista
geral.
 As celas so abertas pela manh e trancadas no final
da tarde. Durante o dia, os presos movimentam-se com liberdade
pelo ptio e pelos corredores. Cerca
de mil detentos possuem cartes de trnsito para circular
entre os pavilhes. So faxineiros, carregadores, carteiros,
estafetas, burocratas, gente que conta com
a confiana da administrao, alm daqueles que os conseguem
por meios ilcitos. Para os funcionarios, esse passa-passa
torna a cadeia incontrolvel, e, se cada
pavi-

18

lho pudesse ser isolado como unidade autnoma, ficaria mais
fcil vigiar.
 Por segurana, a entrada do pavilho  gradeada em
forma de uma gaiola constituda pela porta externa e pelas
internas, que bloqueiam o acesso  escada e
 galeria do trreo. O
mesmo sistema de gaiolas repete-se na entrada de todos os
andares. Com as gaiolas trancadas, quem vem pela galeria 
obri-

gado a abrir duas portas para ter acesso  escada do andar e,
ao atingir o trreo, outras duas, na gaiola de baixo, para
sair do pavilho. No h portas eltricas
como nos filmes: o abre e fecha  no brao.
 No folclore do Casaro h muitas menes s "ruas Dez"
palcos tradicionais de disputas violentas. Na verdade, rua Dez
nada mais  do que o trecho da galeria
oposto  gaiola de entrada do andar, do outro lado do
quadrado, longe da viso dos guardas, que, para atingi-la, so
obrigados a percorrer as galerias laterais,
onde ficam expostos  viso dos "olheiros" estrategicamente
dispostos nas duas esquinas da Dez, nos momentos mais agudos.
 No h briga de soco na rua Dez, paulada e facada 
que acertam diferenas sob o olhar excitado dos circunstantes.
O perdedor, quando sai vivo, desce para
a Carceragem e pede transferncia de pavilho, geralmente para
o Cinco. O adversrio melhora a posio no ranking. Outras
vezes, o condenado  morte  atrado para
l e esfaqueado por um grupo de composio varivel. Nessas
situaes, h quem aproveite para dar um golpe a mais mesmo em
algum que nenhum mal lhe causou.
 O velho Jeremias, de carapinha branca, sobrevivente de
quinze rebelies e pai de dezoito filhos com a mesma mulher,
no considera a valentia o ponto forte
dos agressores:
 - Tantos anos na cadeia, doutor, e nunca vi ningum
matar algum sozinho. Chega a juntar vinte, trinta, para meter

19

a bicuda naquele que vai morrer. Pode ser forte que for, no
tem defesa. A cadeia perversa a mente do sentenciado num tanto
tal, que o cara est levando os golpes
e muitos que no tm nada a ver com a fita pegam carona na
desgraa do alheio e soltam a faca tambm, s de maldade. Isso
aqui,  a maior covardia!
 No trreo dos pavilhes ficam os setores de apoio:
eletricidade, hidrulica, uma sala de atendimento mdico, a
Carceragem com os arquivos dos presos, a escolinha
e as igrejas. Em cima das mesas no h computadores, apenas
mquinas de escrever. Diante delas, sentam-se funcionrios
auxiliados por equipes de detentos encarregados
da burocracia. Na parede, invariavelmente, h um quadro-negro
com os dados numricos do pavilho. O fluxo de transferncias
e libertaes  intenso.
 A populao da Casa  mvel: cerca de 3 mil homens so
libertados ou transferidos anualmente. Construda para
albergar apenas presos  espera de julgamento,
a Deteno transformouse numa priso geral. Ao lado de ladres
primrios condenados a poucos meses, ali cumprem pena
criminosos condenados a mais de um sculo.

20

                                 OS PAVILHES
 Embora a arquitetura externa dos pavilhes seja
semelhante, suas divises internas e a geografia humana so
bem diferentes. Como vimos, quem vem da rua para
a Divinia fica de frente para o pavilho Seis, central. Da
entrada para o fundo,  esquerda, vm os pavilhes Dois, Cinco
e Oito.  direita, em posio simtrica,
o Quatro e depois o Sete e o Nove.

PAVILHO DOIS

  a entrada da cadeia. Vivem ali oitocentos presos que
cui dam da Administrao: Chefia, Carceragem, servio de som e
refeitrio dos funcionrios. Alm dos
setores de apoio, no trreo do Dois funcionam a alfaiataria, a
barbearia, a fotografia, a rouparia e a laborterapia, que
controla a remisso de pena  qual fazem
jus aqueles que trabalham (para cada trs dias trabalhados, o
detento ganha um de remisso da pena).
 Ao chegar na Casa, o preso desce do camburo na
Divinia e vai direto para o Controle Geral do Dois,
encarregado de registr-lo, fotograf-lo e distribu-lo
para os diferentes pavilhes.
  no ptio interno do pavilho Dois que acontece o
ritual de chegada: o detento  registrado, fica de cueca na
frente de todos e deposita a roupa na Rouparia.
Recebe a cala cqui, chamada de "cala jega". e corta o
cabelo modelo "tigela", primeiro e ltimo corte gratuito na
cadeia.

21

 O corte dos "triagens"  nico. Parece, de fato, que
colocaram uma tigela pequena no topo da cabea e passaram a
mquina zero da beirada para baixo. D ao
recm-chegado um ar tosco, especialmente no caso dos mais
velhos.
 Despersonalizado, o novato  recolhido na Triagem Um,
no trreo, uma cela de oito metros por quatro, lotada de
acordo com o nmero de detentos que a Casa
recebeu naquele dia. Dali, no dia seguinte, vai para a Triagem
Dois, no terceiro andar, aguardar a distribuio, que  feita
obrigatoriamente por um dos trs diretores:
o diretor-geral, o de Disciplina ou o de Vigilncia. Fechada
durante as 24 horas do dia, esta cela chega a albergar
sessenta, setenta e at oitenta homens, dependendo
do fluxo de entrada.
 Quando ocorrem rebelies nos distritos policiais,
podem chegar cinqenta ou mais presos de uma vez s. Numa
dessas, recentemente, duzentos detentos vieram
transferidos. Como se queixam os funcionrios, sempre cabe
mais gente:
- Isso aqui  pior do que corao de me.
Ou, numa viso mais prosaica:
- Aqui desemboca o esgoto da cidade.
 Na distribuio, o diretor rene grupos de dez a
quinze triagens que, respeitosamente, de mos para trs, ouvem
as normas da Casa:
 -Vocs esto chegando na Casa de Deteno de So Paulo
para pagar uma dvida com a sociedade. Aqui no  a casa da
vov e nem da titia,  o maior presdio
da Amrica Latina. Aqueles que forem humildes e respeitarem a
disciplina, podem contar com os funcionrios para ir embora do
jeito que a gente gosta: pela porta
da frente, com a famlia esperando. Agora, o que chega dizendo
que  do Crime, sangue nos olhos, que  com ele mesmo, esse,
se no sair no rabeco do Instituto Mdico
Legal, pode ter certeza que vamos fazer de tudo para

22

atrasar a vida dele. Gente assim, ns temos mania de esquecer
 aqui dentro.
 Cuidado especial  dedicado  segurana dos
recm-chegados. Seu Jesus, diretor de Vigilncia, tem uma
forma peculiar de abordar o problema:
 - Se algum dos senhores por acaso tem dificuldade de
relacionamento social num dos pavilhes, no faa cerimnia,
meu filho, pode abrir o corao comigo.
Deixa a gente ajudar agora, antes que seus inimigos o faam.
 A seguir, de um em um, para certificar-se do tipo de
crime que resultou na condenao e j prevendo a invarivel
negativa de autoria, pergunta srio:
- Qual foi o delito que dizem que o senhor cometeu?
 O critrio de distribuio no  rgido, mas obedece
s regras bsicas. Por exemplo, artigo 213 - estupro -
normalmente  encaminhado para o pavilho Cinco;
reincidentes, no Oito; primrios, Nove; e os rarssimos
universitrios vo morar nas celas individuais do pavilho
Quatro.
 Na Triagem, muitos pedem para ficar no prprio Dois.
Devido  disponibilidade de trabalho e, talvez, por situar-se
na frente do presdio, mais prximo da
Administrao, o pavilho tem fama de tranqilo:
- L  mais fcil correr atrs da liberdade.

PAVILHO QUATRO

 Fica do lado oposto, simtrico ao Dois. Contm menos
de quatrocentos presos, alojados em celas individuais, caso
nico na Deteno. Durante a triagem, quando
o recm-chegado pede para ser designado para o Quatro, o
diretor responde:

morar.

- No diga?... No Quatro, meu filho, at eu gostaria de

23

 A inteno original era a de que fosse um pavilho
exclusivo do Departamento de Sade. De fato, no trreo esto
os xadrezes dos presos com tuberculose e
no quinto andar funciona a enfermaria geral. No entanto, por
necessidade de proteo aos marcados para morrer, a direo
foi obrigada a criar um setor especial no
trreo, a "Masmorra", de segurana mxima
o pior lugar da cadeia.
 A Masmorra fica em frente  gaiola de entrada do
pavilho.  guardada por uma porta macia, ao lado da qual uma
placa avisa que  terminantemente proibida
a entrada de qualquer pessoa no autorizada. So oito celas de
um lado da galeria escura e seis do outro, midas e
superlotadas. O nmero de habitantes do setor
no  inferior a cinqenta, quatro ou cinco por xadrez, sem
sol, trancados o tempo todo para escapar do grito de guerra do
Crime:
- Vai morrer!
 Ambiente lgubre, infestado de sarna, muquirana e
baratas que sobem pelo esgoto. Durante a noite, ratos
cinzentos passeiam pela galeria deserta.
 A janela do xadrez  vedada por uma chapa de ferro
fenestrada, que impede a entrada de luz. Por falta de
ventilao, o cheiro de gente aglomerada  forte
e a fumaa de cigarro espalha uma bruma fantasmagrica no
interior da cela. Tomar banho exige contorcionismo circense
embaixo do cano na parede ou na torneira da
pia, com uma caneca.
 A Masmorra  habitada pelos que perderam a
possibilidade de conviver com os companheiros. No lhes resta
outro lugar na cadeia; nem nas alas de Seguro, como
o Amarelo do Cinco, por exemplo. Mofam trancados at que a
burocracia do Sistema decida transferi-los para outro
presdio.
 O nome "Masmorra" periodicamente chama a ateno da
imprensa e das organizaes de defesa dos direitos dos presos
e

24

obriga a Corregedora a inspecionar o local. Numa destas
visitas o diretor-geral, irritado com o juiz corregedor que o
culpava pela situao desumana em que viviam
os habitantes da ala, props-lhe com firmeza:
 - Doutor, vou abrir cela por cela e o senhor vai
perguntar quem aceita ser transferido daqui para qualquer
pavilho da Casa. Se eles estiverem de acordo,
transfiro todo mundo e fecho o setor na sua presena.
 Aps a abertura do segundo xadrez, o corregedor
entendeu que o desejo de cada um era mudar de presdio, s que
se recusavam a sair da Masmorra enquanto no
cantasse a transferncia, por se julgarem protegidos naquele
local.
 Em dia de sol, no ptio do Quatro, o visitante vai
encontrar muitos presos em precrias cadeiras de roda. Quase
sempre so ladres que perderam o movimento
das pernas em tiroteios, e cumprem pena no Quatro para cuidar
das sondas urinrias e das escaras que no cicatrizam. Alm
disso, podem utilizar o elevador do pavilho,
o nico que ainda funciona na cadeia. Os paraplgicos so
muito respeitados pelos companheiros, que costumam auxili-los
nas tarefas dirias.
 No segundo andar, h um trecho da galeria cujas celas
so identificadas com um carto afixado: "DM" , sigla que
identifica os "doentes mentais". O critrio
para lhes atribuir tal rtulo  incerto, uma vez que no
existe servio especializado em psiquiatria na Casa. Alguns
dos DMS j chegaram com distrbios srios de
comportamento, outros entraram em surtos psicticos na prpria
cadeia e avanaram sem motivo para esganar o companheiro,
tentaram suicdio, desenvolveram quadros
depressivos graves ou esgotaram o crebro no cachimbo de
crack.
 Genival, um dos habitantes do setor, diz que perdeu o
juzo por causa da viso de um senhor que ele matou num
assalto:

25

 - Quando a noite caa, a alma penada dele vinha me
assombrar, na escada, na galeria e at no xadrez trancado.
Tentei me suicidar duas vezes para escapar
da perseguio.
 Como nos manicmios do sculo xix, passam o tempo
reclusos em seus xadrezes. A medicao psiquitrica que
recebem  praticamente a mesma para todos.
 A situao desses presos s no  pior por causa da
dedicao comovente de um cearense de cabelo ondulado
convertido a pastor do Exrcito da Salvao, condenado
a doze anos por crimes que ele dizia fazer de tudo para
esquecer, que chefiou por muito tempo um grupo de auxiliares
encarregados da higiene, da medicao e de dar
comida na boca dos que no conseguiam se alimentar.
 A falta de mdicos especializados em distrbios
psiquitricos permite que a malandragem mau carter simule
quadros psicticos para se refugiar entre OS DMs
e escapar da vingana dos inimigos.
 Como diz Bigode, um homem de carter forte, antigo no
pavilho, chefe de uma quadrilha de piratas no porto de
Santos, cumprindo 213 anos:
 - Para se livrar da patifaria que aprontou, ele finge
que perdeu o juzo e vem parar no meio dos DMS, no Quatro. Ama
nh vai para a rua e ainda tira uma
que cumpriu pena na Deteno, que ele  do Crime, sangue bom.
 O castigo destes pode vir atravs da medicao
psiquitrica prescrita, que provoca impregnao e impe
dificuldade de coordenao motora, tremores, descontrole
dos esfincteres e outras alteraes neurolgicas.
 Por imperativos de segurana, discretamente a
diretoria manda para o Quatro alguns estupradores e
justiceiros, bandidos geralmente contratados por comerciantes
da periferia para matar ladres do bairro. Como o pavilho 
menos po-

26

puloso, mais tranqilo, os praticantes desses delitos tm mais
chance de escapar da ira coletiva. A presena oculta deles, no
entanto, cria um clima de desconfiana
em relao ao pessoal do Quatro:
- Ali, ningum sabe quem  e quem no .

PAVILHO CINCO

  o que est em pior estado de conservao. Fica do
lado oposto ao Quatro, vizinho do Dois. Tem escadas com
degraus desbeiados, fiao eltrica por fora
das paredes infiltradas pelos vazamentos, gua empoada e
lmpadas queimadas na galeria. Nas janelas, a malandragem
hasteia mastros para secar a roupa. Clima de
cortio.
  o pavilho mais abarrotado da cadeia. Movimento
intenso nos corredores. H momentos em que no se consegue
alojar um preso a mais sequer. Moram ali 1600
homens, o triplo do que o bom senso recomendaria para uma
cadeia inteira. Para tomar conta deles, a Deteno escala de
oito a dez funcionarios durante o dia e cinco
ou seis  noite, s vezes menos.
 No primeiro andar, alm da Carceragem, da enfermaria e
da sala de aula com uma biblioteca pobrezinha, fica a Isolada,
um conjunto de vinte celas que guardam
de quatro a dez homens espremidos em cada uma. So detentos
pegos em contravenes locais, como porte de arma, pinga,
trfico, desrespeito aos funcionrios ou plano
de fuga. Cumprem trinta dias nesse lugar abafado, escuro, com
ajanela coberta por uma chapa perfurada igual  da Masmorra.
Tranca dura, permanente. Os trinta dias
sem sol.
 Seu Luprcio, com mais de oitenta anos e dezenas de
entradas e sadas na Casa por fumar e vender maconha, diz que
isso no  nada:

27

 - Antigamente trancava tantos numa cela, que precisava
fazer rodzio para dormir. Metade ficava em p, quietinho para
no acordar os outros. Na troca de
turno  que aproveitava para urinar. Precisava comer pouco,
porque no podia evacuar o intestino no xadrez. S quarta e
sbado, quando destrancava por uma hora para
o banho e as necessidades. Castigo durava noventa dias, no
era essa moleza de trinta como agora.
 No segundo andar moram os presos integrantes da
Faxina, encarregados da limpeza geral e da distribuio das
refeies, alm dos que trabalham nos patronatos,
no judicirio e na entrega das sacolas de alimentos trazidas
durante a semana, para quem tem a felicidade de contar com
famlia.
 O terceiro andar  conhecido como o dos estupradores e
justiceiros, tambm chamados de "ps-de-pato" , embora nem
todos os seus ocupantes pertenam a essas
categorias. A experincia recomenda colocar os estupradores
junto com os justiceiros, para que os dois grupos se protejam
em caso de vingana da massa carcerria,
que no perdoa o estupro e odeia caadores de ladres.
 No quarto andar moram os que no conseguiram lugar
melhor, outros que foram expulsos dos pavilhes devido a mau
procedimento ou derrota em disputas pessoais,
alm de mais estupradores e justiceiros. Nesse andar, porm, o
que chama a ateno do visitante  a presena dos travestis,
com as mas do rosto infladas de silicone,
calas agarradas e andar rebolado. Durante o dia, alguns fazem
ponto na porta das celas.
 No ltimo andar,  direita, fica a ala da Assemblia
de Deus, o grupo evanglico de presena mais forte na Casa.
So inconfundveis: jamais calam tnis,
sempre de sapato, camisa de manga comprida abotoada no
colarinho e a Bblia preta

 desbotada. Moram na ala mais de quinhentas pessoas que
re-
 zam dia e noite sob a superviso de um enrgico
pastor-chefe
 e seus auxiliares.  uma igreja e um centro de
recuperao ao
 mesmo tempo.
 Vizinho dos crentes,  esquerda, ainda no
quinto andar,
 fica o Amarelo, um conjunto de segurana fechado 24
horas
 por dia. Vo para o Amarelo os que esto ameaados de
morte
 e alguns infelizes que, simplesmente, no tm onde
morar. Vi
 vem no Amarelo de quinhentos a seiscentos presos,
quase 10%
 da populao da Casa, pelo menos seis ou sete em cada
xadrez
 de trs metros por dois de largura.
 O Cinco  o pavilho dos sem-famlia, dos
sem-teto e
 dos "humildes" Embora homens respeitados cumpram pena
 nas suas dependncias, no conceito da malandragem  o
pa-
 vilho da ral. Vi ladro barbado chorar feito criana
ao ser
 transferido para l.
 Como na populao local misturam-se
justiceiros, estu
 pradores, delatores e presos que esto em dvida com
outros, os
 habitantes do Cinco, conscientes do perigo que correm,
preci-
 sam estar preparados para se defender. Podem passar
anos em
 paz, mas um dia a cadeia vira e eles acabam na ponta
de uma
 faca. Como diz a malandragem:
 -Aqui, quem tem mancada no Crime vive em
sobressalto.
 Por isso o Cinco, alm de tradicional produtor
de "maria-
louca" , a pinga destilada clandestinamente,  considerado o
pa-
vilho mais armado:
 - O Cinco  a fbrica de faca da cadeia.

PAVILHO SEIS

 Fica entre o Dois e o Quatro.  o nico em posio
central
no complexo. Tem cerca de trezentos presos.
 No trreo funcionou a Cozinha Geral at 1995, quando
ela foi desativada e a Casa passou a receber a comida dos
presos em quentinhas. As instalaes, no entanto,
ainda continuam no local: enormes panelas de presso com o
revestimento externo amassado, piso destrudo, azulejos
despregados e goteiras do teto.  noite, a Cozinha
abandonada parece cenrio de filme expressionista.
 No segundo andar h um auditrio enorme, no qual
chegamos a reunir mais de mil detentos em palestras sobre
preveno  AIDS. Nesse local funcionou um cinema,
at ser des trudo numa rebelio. Da em diante ficou apenas o
grande salo, com um palco de madeira elevado, na frente.
 No segundo e no terceiro andar do Seis funcionam as
salas destinadas  Administrao: Vigilncia, Disciplina,
Departamento de Esportes, Judicirio e diretoria
de Valorizao Humana.
 As celas comeam no quarto andar. Dois, trs, cinco,
at quinze prisioneiros em cada uma delas.
 No quinto andar, um setor chamado mps (Medida
Preventiva de Segurana) foi criado como alternativa 
superlotao do Amarelo; entretanto, devido ao impacto
desagregador do crack na ordem interna, inaugurado, o mps
lotou imediatamente.
 Quem visita o Seis encontra rodinhas de homens negros
falando uma lngua estranha. So nigerianos conversando no
dialeto nativo (embora quase todos falem
ingls e s vezes portugus, com sotaque forte). Fazem parte
da conexo nigeriana do trfico de cocana, detidos no pas e
aqui obrigados a cumprir pena.
 Caapa, um ladro que cumpre cinco anos no Seis, que
ganhou 20 mil dlares num assalto a banco, com os quais
comprou um mercadinho no bairro da Pedreira
e, assim, atendeu aos apelos da mulher para que abandonasse o
crime e que seis

30

meses depois, para no perder a moral, teve que perseguir e
matar os dois adolescentes que assaltaram o referido
estabelecimento, tem a respeito dos nigerianos uma
opinio que reflete a da maioria:
 - Se o senhor pergunta, eles respondem e no esticam o
assunto; se no pergunta, eles ficam na deles. Eles no so do
Crime, so aventureiros do trfico,
no ajudam e nem atrasam a vida do ladro, so humildes,
sangue bom. A gente enaltece a pessoa deles.

PAVILHO SETE

 Quem est na Divinia de frente para o pavilho Seis,
central, fica com o Sete  sua direita, vizinho do Quatro. Os
xadrezes do Sete contm de trs a seis
pessoas, no mximo, e a maioria dos presos trabalha.
 No trreo, como nos outros pavilhes, funcionam a
burocracia, os setores de manuteno e o Patronato, que
organiza o trabalho encomendado de fora: colocar
espirais em caderno, elsticos em pastas, construo de
miniaturas de barcos a vela (antiga tradio das cadeias
brasileiras), costurar bolas de futebol e outras
tarefas manuais.
 No segundo andar mora a Faxina, constituda por um
grupo de vinte a trinta presos, e nos outros andares os demais
habitantes, distribudos sem ordem aparente.
No quinto andar, esto os xadrezes reservados aos que cumprem
castigo.
 No ptio h uma quadra de esportes e dois campinhos de
futebol empoeirados, palcos de batalhas futebolsticas nas
quais os atletas no chegam propriamente
a primar pela tcnica, muito menos pela elegncia do
vesturio.
 O Sete foi construdo para ser um pavilho de trabalho
e assim permanece. A ocupao, as prticas esportivas e a
rela-

31

tiva ausncia de superlotao so responsveis pela fama de
calmo atribuda ao pavilho. De fato, muitas vezes passam-se
dois ou trs anos sem ocorrer uma nica
morte em suas dependncias. Por ser o pavilho mais prximo da
muralha, no entanto, o Sete  o local preferido para as fugas
subterrneas: - O Sete  a fbrica de
tnel da cadeia.

PAVILHO OITO

Fica atrs,  esquerda, e forma, com o Nove, o "fundo" do
presdio:

- O problemtico fundo.
 O pavilho  quadrado como os outros, porm enorme, as
galerias chegam a ter quase cem metros de comprimento. No
total, moram no Oito cerca de 1700 pessoas,
mais de seis vezes a populao da priso americana de
Alcatraz, desativada nos anos 60.
 No segundo andar ficam as celas dos faxineiros, de 150
a duzentos homens.
 Nos andares de cima, nos xadrezes que do para o ptio
interno, vivem em mdia seis pessoas. J os da fachada externa
do pavilho podem ser semicoletivos
e albergar dois ou trs homens, ou coletivos, com dez a doze.
No quinto andar h oito celas de Castigo, semelhantes s dos
outros pavilhes.
 No trreo, alm das sees burocrticas, funcionam uma
capela catlica, os templos da Assemblia de Deus, a Igreja
Universal, a Deus  Amor e o Centro de
Umbanda.
 No ptio do Oito, alm de uma quadra esportiva, est o
maior campo de futebol da cadeia. No cho batido so
disputados os campeonatos internos e as partidas
contra os times

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da rua que a convite enfrentam a seleo da cadeia. Nessas
ocasies, pobre daquele que desrespeitar um visitante.
 Os xadrezes do Oito, assim como os do Sete, do Cinco e
do Nove, tm proprietrios, prtica tradicional da Deteno
que ser explicada mais adiante. Por isso,
quem no tem de trezentos a quatrocentos reais para comprar a
cela de um companheiro vai morar nas "duchas" do Oito. Nestas,
anteriormente destinadas aos banhos
coletivos, moram de seis a dez pessoas num espao de trs
metros de comprimento por dois. H uma ducha no terceiro, no
quarto e no quinto andar.
 A principal caracterstica do Oito, no entanto, no
est na planta fsica ou na superlotao, mas na paisagem
humana. Vo para l os reincidentes no crime;
rus primrios so raros. A concentrao de presos
conhecedores das leis da cadeia estabelece regras de
comportamento bem definidas.
 Rolney, um ladro da zona sul que cumpriu doze anos no
pavilho e foi libertado, mas retornou porque ao surpreender a
mulher morando - na casa que era dele - com seu melhor amigo,
convidou o rival para uma cerveja no bar da favela e quando
este tentou consol-lo dizendo que a vida
era assim mesmo, matou-o com dois tiros para provar que no,
caracteriza o Oito da seguinte forma:
 - Aqui mora quem j passou pelo jardim-de-infncia da
cadeia. Entre ns no existem meias palavras. No pode
confundir a com b. Ou  ou no . Se no ,
morreu.
 Gersinho, portador do vrus da AIDs, dezenove anos,
assaltante primrio aceito no pavilho porque um ladro que o
viu nascer, e que talvez tenha sido namorado
de sua me, convidou-o para morar em seu xadrez, diz que
aprendeu muito com a convivncia:
 - No Oito, cada qual carrega sua cruz, calado. O
sofrimento dos anos de cadeia ensina o sentenciado a se
trancar na prpria solido.  uma escola de sbios.

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 O pavilho  para aqueles com nome feito no Crime.
Geralmente, o habitante do Oito  mais velho e no se envolve
em confuso. Olha, escuta e fica quieto.
No age, reage:
- Faz como a cascavel: s d o bote quando pisam nele.

PAVILHO NOVE

 Faz par com o Oito, no fundo. Chega a ter mais de 2
mil presos, a maioria condenada pela primeira vez. As
dimenses, a organizao dos setores de servio
e a distribuio dos xadrezes  a mesma do Oito. As
semelhanas param por a, entretanto.
 No Nove, existem duas celas de triagem com um nmero
de prisioneiros que pode chegar a trinta, dormindo no cho,
espremidos, tomando cuidado para no encostar
o rosto nos ps do companheiro.
 As Triagens ficam trancadas o tempo todo. Os presos s
descem para receber as visitas aos domingos ou s
quartas-feiras das oito s quinze, quando so liberados
para procurar xadrez, tarefa rdua para os novatos
desconhecidos, porque o direito de posse da moradia, como
dissemos,  dos ladres h muito tempo.
 Na reforma que o pavilho sofreu depois do massacre de
1992, os beliches de madeira varados de bala foram
substitudos por lajes de concreto. Por essa razo,
no Nove, quem no tem condies financeiras para comprar um
xadrez inteiro pode adquirir apenas o direito de exclusividade
da "pedra", ou cama.

 Assim que os triagens chegam, os outros sobem para ver
se entre eles h amigos ou inimigos. Nesse caso, o desafeto 
ameaado de morte e tem duas alternativas:
pedir refgio, desmoralizado, no Amarelo do Cinco, ou
enfrentar o desafio e as facas do inimigo e seus parceiros.
Como dizem os funcionrios:

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- O Nove  um pavilho de encontro.
 Embora a direo propositalmente mantenha alguns
presos mais experientes no Nove, a alta concentrao de jovens
impetuosos  responsvel pelas freqentes
confuses criadas no pavilho.
 Imediatamente depois do massacre de 1992, um faxineiro
do Oito condenado a 27 anos por assalto a um banco na XV de
Novembro, no centro de So Paulo, no
qual perdeu a vida o

gerente, fez a seguinte crtica aos companheiros do Nove:
 -  tudo cabea- de-bagre, doutor. No meio de uma ba
guna daquelas, deixar os funas ir embora e ficar s os
presos para dentro do pavilho  pedir para
a PM invadir. Um barato daqueles jamais teria se passado no
Oito.
 Majestade, assaltante dos anos 70 que cumpre pena h
vinte anos sem sair do Nove, diz que a diferena em relao ao
Oito  a seguinte:
 - Em nenhum dos dois pode pisar no ovo, s que no Oito
 voc mesmo que coloca o ovo. No Nove, so os outros, e ainda
espalham sabonete no cho para escorregar.

35

                                     O BARRACO
 A cela, xadrez ou barraco  a unidade funcional da
cadeia. Suas dimenses variam sem lgica aparente: algumas,
at espaosas, so individuais; em outras,
espremem-se sete, oito, vinte ou, como nas de Triagem,
sessenta homens.
 H muitos anos a direo da Casa perdeu o direito de
posse nos pavilhes maiores, como o Cinco, o Sete, o Oito e o
Nove. Nesses, cada xadrez tem dono e valor
de mercado. No pavilho Cinco, custam mais barato: de 150 a
200 reais; no Oito h um xadrez de luxo com azulejos de
primeira, cama de casal e espelhos que vale 2
mil.
 A origem da propriedade perde-se no passado, quando os
recursos da Casa comearam a minguar e a manuteno das celas
ficou por conta dos prprios detentos,
como explica Juscelino, um mineiro de sorriso encantador que
comprava maconha no serto de Pernambuco e voltava de
nibus-leito com a droga na mochila:
 - O companheiro gasta o dele no melhoramento do
barraco. Depois, a polcia vai querer colocar outro l para
morar de graa. Cad a justia?
 Na opinio do dr. Walter, que comeou ainda menino
como carcereiro, formou-se advogado e chegou a diretor-geral
do presdio, para resolver o problema seria
preciso transferir todos os detentos, fechar a cadeia e
comear de novo:
 - No meio da noite, o senhor manda o preso para um
xadrez. De manh, ele sai e diz que no fica de jeito nenhum;

sem explicar por qu. Pode insistir, ameaar, fazer o que
quiser que ele no volta; tem medo de morrer. H xadrez em que
o dono  libertado e deixa um inquilino
pagando aluguel ou um amigo morando de graa. Se o
proprietrio voltar para a Deteno, o outro tem que devolver
o imvel. Veja a que situao chegamos!
 No incio a diretoria chegava a expulsar os ocupantes
de uma cela e trancava-a por quinze dias. Quando resolvia
abri-la era intil: preso nenhum aceitava
morar nela.
 A situao  especialmente adversa para os que chegam
na cadeia sem amigos nem dinheiro. Valtrcio, um arrombador de
carros que, num dia de Copa, roubou
oito televisores no portamala dos automveis estacionados nas
imediaes do Frum e mais tarde foi  falncia num acerto com
a polcia, constatou com amargura:

 -  a situao do pas, doutor, ter que pagar para
morar na cadeia.
 A luz entra pelas barras da janela, a "ventaria",
ilumina o xadrez e bate na porta, na parede oposta. A porta da
cela  macia, metlica, equipada com uma
tranca que corre por fora, na qual  preso um cadeado forte. A
presena desse cadeado, porm, no garante segurana a quem
est trancado, pois no ambiente existem
exmios praticantes da arte de abrir, ou "michar", qualquer
tipo de fechadura. Por essa razo, alguns soldam uma ala de
metal na parte interna da porta, outra no
batente e prendem um cadeado entre elas, para se trancar por
dentro. A prtica  contra o regulamento e pode custar trinta
dias na Isolada.
 Uma noite, no pavilho Cinco, durante a distribuio
do segundo nmero do Vira Lata, perguntei atravs da janelinha
de uma cela s escuras quantos moravam
ali, para saber o nmero de gibis a entregar. Um negro forte
acordou, pulou da cama e avanou para a porta com uma faca
enorme na mo

36

esquerda (pela rapidez com que a sacou, ela s podia estar
escondida embaixo do travesseiro). At entender o que se
passava ele ficou ali, imvel, com olhos de terror,
a faca apontada na direo da porta.  pouco provvel que
confiasse na firmeza da tranca.
 Na parte central da porta, abre-se uma pequena janela
basculante, o "guich", fechado por uma cortininha interna
atravs da qual passam as entregas e efetuam-se
as duas contagens dirias, ritual rigorosssimo da cadeia. O
guich  suficientemente amplo para permitir a passagem da
cabea de um homem, expediente utilizado
para xeretar a galeria no horrio da tranca.
 Para garantir a privacidade do espao interno,
pendura-se no teto, um pouco atrs da porta, o "come quieto",
um lenol que vem quase at o cho.
 Ao contrrio das prises do cinema, em que as portas
so gradeadas para expor os prisioneiros  vigilncia
permanente, na Deteno, os homens trancados nas
celas no so vistos por quem passa na galeria. Se os
carcereiros querem saber o que acontece, devem se restringir
ao campo visual do guich ou abrir a cela. Quando
a situao  mais sria e decidem pela segunda opo, a boa
tcnica manda fazer os prisioneiros sarem pelados e colar as
mos  parede da galeria oposta ao xadrez.
 Toda cela tem um vaso sanitrio velho mas geralmente
limpo, o "boi", de formas variadas. Alguns so daqueles
antigos, do tipo francs, com um buraco e dois
apoios para os ps; outros so os clssicos vasos de loua
encravados num cone invertido de concreto. As privadas
terminam num buraco seco, por onde corre a descarga.
Por asseio, os presos jogam gua fervente depois que o ltimo
usou o banheiro,  noite. Os mais cuidadosos tapam o buraco da
privada com um saco plstico cheio de
areia, para evitar odores, baratas e os ratos do encanamento.
Para no

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manipular diretamente o saco, prendem-no a uma cordinha que
passa por uma roldana fixada  parede.
 Todas as celas tm uma pia e um chuveiro ou pelo menos
um cano com sada de gua na parede. Muitos gozam do conforto
de duchas eltricas, que podem ser vendidas
num momento de aperto ou aflio do corpo implorando cocana.
 No pavilho Oito, num xadrez coletivo de 27 homens, no
fundo, havia um banheiro com um cano quase encostado  parede,
atravs do qual escorria um fio de
gua. Apesar da ginstica a que eram obrigados, ai daquele que
no tomasse o banho dirio, mesmo no frio de junho. Os mais
velhos cuidavam de impor essa obrigao
aos novatos.

  grave a situao da parte hidrulica. Os vazamentos
fazem parte da rotina; infiltram paredes, inundam galerias, o
ptio interno e o interior das celas.
Alguns canos J foram to emendados que os consertos ficam
complicados.
 Os beliches so de alvenaria ou madeira, s vezes
engenhosamente colocados em cima da porta, junto s grades da
janela ou to prximos do teto que seus ocupantes
se esgueiram como cobras para entrar no exguo espao. A este
do o nome de "galhada".
 A privacidade no leito  obtida com cortinas coloridas
que correm em fios presos ao beliche de cima ou diretamente no
teto.

 - O cortinrio  de lei, devido que seno, tem gente
olhan do para mim o tempo todo. Sabe l o que  isso, doutor,
entra ano e sai ano, nenhum minuto o
senhor poder ficar na sua?  onde que muito companheiro de
mente fraca perde as faculdades e d cabo da prpria
existncia.
 Nos grandes xadrezes coletivos, como os de Triagem,
com sessenta, setenta pessoas, as camas so substitudas por
colchonetes de espuma de borracha, dispostos
lado a lado no cho. A

39

reduo do espao pode ser tal que os homens dormem
invertidos, os ps de um no rosto do companheiro:
 - Que no tem cabimento ficar dois malandros
esfregando o nariz um no outro.
 Os menos afortunados sequer tm acesso ao pequeno
conforto da espuma, pois os tais colchezinhos faltam ou so
vendidos para pagar dvidas, como  rotina
entre os craqueiros. Nesta situao, deitam-se sobre
cobertores ou pedaos de papelo, a sandlia de dedo como
travesseiro.
 Nas Triagens, com os homens chegando e saindo o tempo
todo, a prioridade na escolha do espao  estabelecida por
critrio temporal:
 - Quem por ltimo chega, ri o pescoo. No tem o que
perguntar, j vai se aninhando do lado do boi. S sai dali no
dia que entrar um mais recruta.
 A moblia  rstica; pequenos guarda-louas, cabides
para as roupas e prateleiras para os objetos pessoais, alm de
bancos toscamente construidos com a madeira
que aparece ningum sabe de onde.
 Num final de ano, a prefeitura de So Paulo instalou
um palco junto ao campo do pavilho Oito, para um show no qual
vrios conjuntos se apresentaram, inclusive
o Reunidos por Acaso, tradicional grupo de pagode da Casa.
Dois ou trs dias depois, quando os organizadores apareceram
para desmontar as instalaes, descobriram
que o palco havia desaparecido ou, como prefere dizer a
malandragem, tinha sido "passado na seda":
 -Tantas tbuas dando moleza, doutor, ns no maiores
gano; caiu do cu...
 Uma pea fundamental em qualquer xadrez  o fogareiro:
um tijolo com um sulco esculpido pelo qual serpenteia uma
resistncia eltrica ligada  fiao que
corre por fora da parede.

40

Muitos, ao receber as refeies, lavam os alimentos,
adicionam-lhes outros temperos e cozinham tudo de novo,
procedimento que leva o nome de "recorte".
 Demonstrar habilidades culinrias pode ser decisivo na
luta por uma vaga num xadrez decente. Em troca da moradia o
"barraqueiro", como  chamado o recortador,
cuida da alimentao de todos.
 A comida servida pela Casa  triste. Depois de alguns
dias, no h cristo que consiga digeri-la; a queixa  geral.
Os que no tm ganha-po na prpria
cadeia ou famlia para ajudar, sofrem. Riqussima em amido e
gordura, a dieta, entretanto, engorda. Obesidade aliada 
falta de exerccio fsico  um dos problemas
de sade da Deteno.
 As galerias so lavadas todo final de tarde pelos
"faxinas", um grupo de homens que constitui a espinha dorsal
da cadeia, como veremos mais tarde. Tudo 
limpo, ningum ousa jogar lixo nas reas internas.  raro ver
um xadrez sujo, e, quando acontece, seus ocupantes so
chamados de maloqueiros, com desdm.
 Na Copa de 94, assisti Brasil versus Estados Unidos
num xadrez com 25 presos, no pavilho Dois. No havia um cisco
de p nos mveis, o cho dava gosto de
olhar. Em sistema de rodzio, cada ocupante era responsvel
pela faxina diria: aps o caf da manh, ensaboar e escovar o
cho, jogar um tacho de gua fervente
nos dois sanitrios, tirar p dos mveis e bater os
tapetinhos; terminado o almoo, varrer bem varrido e gua
fervente nos bois; depois do jantar, gua e sabo,
lavar tudo de novo, enxugar e colocar os tachos no fogareiro
para a limpeza final, pelando, nas privadas.
 Sabi, ex-motorista da prefeitura que usava o carro
oficial para entregar cocana no centro da cidade, at que se
apaixonou por uma mocinha da repartio
e foi entregue  polcia pela esposa trada, explica o
sistema:
 - Passamos vrios anos neste lugar; tem que zelar como
se fosse nossa casa. Eu limpo hoje e s serei encarregado
daqui a 26 dias. No teria desculpa para
no fazer no maior capricho. Outra, tambm,  que no ia dar
certo. Querer bancar o esper tinho, entre ns, tudo malandro,
, nunca tem final feliz.
 As roupas molhadas so estendidas na prpria cela, em
cantos do corredor ou presas a um pau hasteado atravs da
janela. Muitos ganham a vida lavando para
fora.
 Uma vez, presenciei uma discusso na galeria do
pavilho Cinco porque os fregueses da Jaquelina, uma travesti
lavadeira e passadeira presa por aplicar o
golpe
do suador, segundo o qual seus clientes eram surpreendidos em
plena atividade sexual pelo amante dela armado de revlver,
descobriram que ela ensaboava as roupas
na gua da privada. Revoltados, xingaram-na de suja,
maloqueira e bab. Jaquelina, empertigada, com as mos na
cintura, garantia que o boi de seu xadrez era mais
limpinho do que a cama em que dormiam aqueles vagabundos sem
classe.
 Mulheres nuas decoram paredes, armrios e,
caracteristi camente, a face interna das portas. So
escandalosas, recortadas de revistas masculinas, trocadas
ou vendidas em pequenas bancas armadas na galeria, expostas ao
lado de pacotes de macarro, p de caf, latas de ervilha e
tnis usados. As mais populares so as
loiras, de quatro, fotografadas por trs, com o olhar
provocante voltado para o espectador. No h pudor em
mistur-las com imagens de santos, iemanjs, Nossa Senhora
Aparecida ou o piedoso Corao de Jesus, em coloridos painis
ecumnicos.
 Retratos de homem, jamais; s se for do pai, do irmo
ou de artista em cela de travesti. Aqueles que tm mulheres
ciumentas ou religiosas recolhem cuidadosamente
suas musas na vspera da visita, deixando solitrios os santos
nas paredes.

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 Nos xadrezes mais cuidados, o conjunto de cortininhas,
tapetes bordados, colchas de retalhos e imagens de santo
confere ao ambiente um jeito de casinha caipira.
 O xadrez  espao sagrado.  preciso muita confiana
para entrar sem convite na cela de um companheiro. Ainda
assim, como diz seu Jeremias, aquele senhor
pai de dezoito filhos com a mesma mulher, firme de carter,
cumprindo sete anos desta vez:
 - Sem o proprietrio estar l, voc no entra. Por
mais intimidade que teja ou no teja.  mancada grave! J vi
nego morrer por um po. O cara tinha muita
amizade com o outro, fumou maconha, ficou com larica e entrou
no xadrez enquanto o amigo estava no Frum. Tinha dois
pezinhos; comeu um. O outro voltou e disse
que tinha guardado o po para no ter que comer a janta fria.
Pronto: de madrugada, matou ele dormindo.
 Surpreendidos furtando, os "ratos de xadrez", como so
rotulados, apanham de pau e faca. Chegam na enfermaria dizendo
invariavelmente que caram da escada,
ensangentados, cabea rachada, o corpo marcado de verges e
facadas superficiais, especialmente na regio gltea, castigo
imposto quando se decide desmoralizar
o contraventor. Dessa forma, os ladres tornam explcito que
seu cdigo penal  implacvel quando as vtimas so eles
prprios.
 - Ladro que rouba ladro tem cem anos de perdo, s
que quando a gente pega  problema.

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                                   SOL E LUA
 O dia comea s cinco para a turma que serve o caf da
manh. Moram todos juntos, geralmente no segundo andar do
pavilho, e fazem parte da confraria da
Faxina, que  a espinha dorsal da cadeia, como foi dito.
 Carregam os pes e grandes vasilhames com caf em
carrinhos de ferro. Pelo guich das celas trancadas surgem
canecas e bules amassados,  medida que o grupo
passa. Os inimigos da aurora deixam a vasilha de caf no
guich da porta e penduram um saco plstico para receber o
pozinho com manteiga e evitar o suplcio de
sair da cama.
 Ainda no escuro, acendem-se as luzes dos barracos, em
silncio, para respeitar o sono alheio, como explica o
SemChance, um mulato franzino que ganhou o
apelido de tanto repetir essas palavras no final das frases:
 - Tem que ser na manha. Se acordar cedinho, todo mundo
dormindo, se for urinar no boi e der descarga ou fazer
qualquer zuadinha, o senhor tem que mudar de
xadrez. Acordar vagabundo,  sem chance.
 Perto das cinco da manh, os carcereiros do noturno
efetuam a contagem. Para tanto, obrigam a malandragem a pular
da cama e postar-se diante
 do guich, para ter certeza de que esto todos
presentes e vivos antes da entrega do planto. Segundo um dos
funcionrios que h anos exerce essa atividade:
- Nessa hora, cara feia ali  mato.

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 s oito comea o destranque. A partir das gaiolas dos
andares, sai um grupo de funcionrios pela direita e outro
pela esquerda da galeria. Com um molho de
chaves, o da frente abre os cadeados; o que vem atrs
retira-os e puxa a tranca. Sons metlicos reverberam pelo
corredor. Das celas, como formigas, os homens saem
silenciosos.
 Nos pavilhes de trabalho, eles rapidamente assumem
seus postos. Outros, como os costuradores de bola de futebol,
por exemplo, exercem suas atividades no
prprio xadrez. Muitas vezes me detive diante deles, admirando
a elegncia com que costuram. Trabalham sentados, os gomos da
bola presos entre os joelhos, e, a palma
das mos protegida por tiras de couro, passam as laadas com
movimentos rtmicos, precisos, para ca e para o outro lado,
at o ponto da amarra.  um bal manual.
 Embora a vagabundagem empedernida resista no leito, o
vaivm  infernal na galeria e na escada gasta pelo uso. Andam
invariavelmente depressa, sobem os degraus
de dois em dois; mal acabam de descer para o campo, voltam ao
xadrez e, de novo, para baixo. Parecem homens de negcios com
hora marcada.
 O corre-corre sossega l pelas nove, estranha hora de
servir, ou "pagar" , o almoo. Como no existem refeitrios
gerais nos pavilhes, novamente entra em
ao o grupo de faxinas. Com as portas abertas, agora o ritual
do servio  um pouco diferente daquele do caf: cada um deve
estar em seu xadrez, a galeria livre
para a passagem do carrinho com as pilhas de quentinhas ou,
quando ainda funcionava a Cozinha Geral, com tachos de arroz,
feijo e a mistura de carne com batata
e cenoura, o popular "picado" , A presena na galeria neste
momento delicado  interpretada como um atentado  higiene
alimentar e punida com severidade.

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 Uma vez, atendi um grando, estrbico, cabelo
escovinha, cheio de escoriaes. Alegava ter cado da cama,
mentira evidente pelas caractersticas dos ferimentos.
A verdadeira histria pouco depois eu ouvi do Pequeno, um
rapaz de lngua presa, de um metro e meio de altura, que deu
fim  vida de quatro Pms que, segundo ele,
mataram seus pais: enquanto os faxinas serviam o almoo, o
grando, distrado, saiu na galeria com a camisa aberta e uma
toalha no pescoo. Imediatamente, um dos
faxineiros virou-se para ele:
- Tu  bem folgado, simpatia.
 Foi a senha para os outros faxinas empurrarem o
grando para a rua Dez, baterem nele e voltarem ao trabalho,
como se nada tivesse acontecido.
 O velho Luprcio, maconheiro, convicto, conta que no
tempo em que havia respeito, nas refeies estendia-se um
cobertor Parahyba no cho do xadrez e sobre
ele colocavam-se os pratos. Ento, o que estava preso h mais
tempo naquela cela escolhia o seu; o mais novo era o ltimo a
se servir. As regras de comportamento
no horrio da comida eram rgidas:
 - Nessa hora no podia usar banheiro, escarrar, tossir
e muito menos chupar dente, que tomava paulada no ato.
 No perodo da manh se concentra o grosso das
atividades esportivas e de lazer: futebol, boxe, capoeira,
halterofilismo, msica e as aulas. A mais popular
 disparado o futebol. Nos jogos, quando a bola mal chutada
vai parar na canaleta da muralha, o PM que estiver passando
por ali dificilmente a devolve ao campo.
A explicao para o descaso - dada por um policial transferido
para essa funo aps a morte de um colega, seguida do
fuzilamento de quatro membros da quadrilha
que o matara -  vocacional:
- No entrei na Pm para ser gandula de vagabundo.
 Os campeonatos so organizados com regulamento que 
posto no papel, depois de discusses interminveis, pelo pes-

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soal da FIFA (Federao Interna de Futebol Amador), um grupo
unido de detentos experientes e respeitados, escolhidos por
eleio direta entre os times de futebol de
cada pavilho, comandados pelo diretor do Departamento de
Esportes, o funcionrio Waldemar Gonalves, que tem o hbito
de mascar cravos que ele guarda numa latinha
de pastilhas Valda.
 No meio de tantos jogadores  possvel montar uma
seleo geral de bom nvel tcnico, o que no evita resultados
desastrosos contra excelentes times de
vrzea convidados para enfrent-los. Essas derrotas
ocasionais, embora decepcionem a malandragem, jamais provocam
reaes desrespeitosas contra os visitantes.
 Seu Reinaldo Drumond, um funcionrio da portaria,
negro, forte como touro, uma vez props trazer um time do
bairro para enfrentar a seleo da cadeia e justificou
para o Waldemar:
 - Eu sei que eles vo perder, que o time da
malandragem  forte. Mas a minha inteno  fazer que quem
est se desviando l na Vila, pensando em entrar para
o Crime, venha ver aonde  que leva essa vida.
 Anos atrs, num dos campeonatos para seniores,
jogadores com mais de trinta anos, fui convidado a dar o
pontap inicial. Honrado pela escolha, que partiu
justamente dos mais velhos na cadeia, no s dei o referido
pontap como procurei assistir aos jogos. Na partida decisiva
o time do pavilho Oito venceu o do Dois,
por trs a um.
 No final, os atletas reuniram-se ao redor da mesinha
do representante daFIFA disposta na lateral, bem na metade do
campo, para as premiaes. Havia um
prmio especial para os jogadores que mais se destacaram no
time dos campees e vices. O Waldemar me passou uma medalha
pendurada numa fita azul e branca e anunciou
o nome do melhor jogador do time do Dois, o vice-campeo.
 Era o Gacho, um zagueiro com cara de amazonense, que
tinha chegado na periferia de So Paulo h vinte anos, como
assentador de azulejo. Foi bem no trabalho,
at fazer amizade com um ladro da vizinhana e, por causa
dele, meter-se numa briga em que perderam a vida dois
contendores. Como conseqncia, fugiu de casa, perdeu
o emprego, tudo o que tinha, e acabou scio do amigo ladro,
que no lhe faltou nessa hora. Depois de lhe pendurar a
medalha no pescoo, estendi a mo para cumpriment-lo.
Ele tremia de emoo, o olho mido apertado Para no trair o
sentimento, brilhando como o das crianas premiadas na escola
primria.
 Ao redor de duas, trs da tarde, j  servida a janta,
obedecendo ao mesmo ritual de faxinas, carrinhos, galerias
vazias e respeito obsessivo pela higiene.
Dessa hora em diante, quem tiver fome que se vire por conta
prpria.
 Os horrios esdrxulos das refeies justificam-se em
funo da contagem, que deve acontecer s cinco da tarde. Da
a importncia do recorte e a necessidade
dos "jumbos":
 - O jumbo  a sacolada que a famlia traz para ns na
visita ou deixa na portaria nos dias de semana. Ajuda muito,
embora que tem uns cabea-de-bagre que
passam o Jumbo na seda para pagar dvida de droga.
 s dezessete horas, todos so recolhidos a seus
andares e as gaiolas so fechadas. As celas permanecem abertas
at as sete e meia, exceto as daqueles cujas
atividades justifiquem a permanncia fora do xadrez, como os
faxinas e os enfermeiros, por exemplo.
 A tranca  outro dos rituais da cadeia: a galeria est
movimentada, cheia de luzes, feijo no fogo, as portas abertas
com as mulheres peladas voltadas para
o lado de fora, vozerio, pagode no radinho, entra-e-sai com
panelas e roupas. De repente, um funcionrio aparece na gaiola
do andar e bate seguida-

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mente um cadeado contra a grade ou um cano contra o cho:
pim, pim, pim, ritmado, sem parar. Corre cada um para o seu
xadrez; depressa, porque a tranca impe
respeito. Em pa
res os carcereiros comeam a fechar: o primeiro pendura o
cadeado na ala, o que vem atrs puxa a tranca e trava o
cadeado. Tudo rpido, ningum pode ficar de fora.
Vacilou, na primeira vez tem o nome anotado; na reincidncia,
so trinta dias de castigo na Isolada, inesquecveis. Os
funcionarios jus-
tificam o rigor:
 - Se no for enrgico vira baguna, doutor. Aqui 
tudo malandro, a maioria sem ocupao, a no ser ficar de olho
numa vantagem. Se der moleza uma noite,
na seguinte o senhor no tranca mais ningum.
 Fechadas as celas, nas galerias ouve-se o barulho de
pratos, falatrio, risadas, as vozes do Aqui e Agora e o
jornal Nacional. Depois, gradativamente, as
luzes se apagam e o silncio cai pesado. Mesmo os notvagos
que assistem filme at acabar a programao tomam cuidado com
o volume da Tv, porque sono de malandro
 sagrado.
 Sem a agitao do dia, sem o sobe-e-desce e o
entra-e-sai, a cadeia perde a face humana, transforma-se num
casaro ermo, galerias escuras e os altarezinhos
de Nossa Senhora Aparecida com vela acesa e vaso com flor de
plstico.
 Tarde da noite, andando por esses corredores
mal-assombrados, com o silncio quebrado por uma tosse
annima, o miado de um gato, a porta que bate ao longe,
entendi por que os suicdios acontecem de manh, depois de
noites de depresso ou pnico claustrofbico, espremidos entre
os outros, sem poder chorar:
- Homem que chora na cadeia no merece respeito.
 Seu Luprcio, criado num orfanato de Po, vendedor de
maconha no varejo que na mocidade foi massagista do So Pau-
lo, diz que perdeu a conta de quantos se enforcaram nas grades
das janelas, e acha que as noites ficaram mais calmas depois
que permitiram as visitas ntimas.
 - Antigamente era pior. O calado da noite era quebrado
por gritos que ecoavam pela cadeia inteira. Em seguida, o
pessoal comeava a bater caneca na grade.
j era: podia o funa vim buscar que algum tinha sido
estuprado.

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                                FIM DE SEMANA
 Sexta-feira, deu meio-dia a gua corre nos barracos,
alaga a galeria e desce a escada aos borbotes. Cheiro de
sabo forte, pagodes e sertanejos da periferia
misturam-se no corredor com a bateo de rodos e vassouras. A
malandragem estende a roupa naJanela, arrasta mveis e esconde
as mulheres peladas.
 Faxineiros com bota de borracha, sob o olhar do
companheiro encarregado da faxina do andar, empurram a
enxurrada escada abaixo, enquanto os que vm atrs
secam a galeria. Entre eles, gil, desloca-se o encarregado,
enrgico e educado, para impedir que sobre qualquer ilha sem
enxugar. Na escadaria, a cascata espumante
despenca at a gaiola do trreo e desemboca nas guas pretas
que outra coluna de faxinas vem puxando a rodo pela Radial, a
avenida que une os pavilhes. Tudo, como
diz o encarregado- geral do pavilho Sete:
 - Para as visitas encontrar ns num ambiente mais
adequado nos princpios de higiene e civilizao.
 As famlias madrugam na porta, mulheres na imensa
maioria. So namoradas, esposas, irms, tias e a inseparvel
me, dificil de abandonar o filho preso, por
mais crpula que ele seja. Em dez anos na cadeia, assisti a
tais demonstraes de amor materno que, confesso, encontrei
sabedoria no dito: amor, s de me.
 Uma senhora do Paran, de coque no cabelo e pernas
grossas de varizes, viajava seiscentos quilmetros de nibus a
cada quinze dias, religiosamente, para
visitar o filho condenado a 120 anos. Quatro anos antes, o
rapaz, a convite de um amigo

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traficante, tinha invadido uma casa cujos moradores ele sequer
conhecia e chacinou seis pessoas, acusadas de terem pedido
providncias  polcia para acabar com
a boca de crack de propriedade desse amigo, situada na frente
da casa delas. Num domingo, a senhora de coque implorou a um
guarda do presdio que cuidasse do menino
dela:
 - Eu sei que o meu filho fez coisa errada por causa
das companhias, mas quando olho para ele, no acredito que ele
tirou a vida daquela gente como dizem,
vejo ele pequeninho no colo, rindo no fundo dos meus olhos.
 Num sbado, no campo do Oito, conheci a me do Pirata,
uma senhora baixa e encorpada, na ponta dos ps e o dedo em
riste no nariz dele. Chefe de uma quadrilha
que abordava navios na barra de Santos, encarregado de prender
uma corda com gancho na murada por onde subiam com as
metralhadoras, o Pirata ouvia a descompostura
de cabea baixa, as mos entrecruzadas atrs, humilde como um
zagueiro diante do carto amarelo.
 As visitas carregam sacolas de plstico abarrotadas;
potinhos de plstico com pastis, maionese, macarronada,
calabresa frita e frango assado. No h a menor
preocupao com o colesterol: trazem s o que o preso gosta.
 Vm muitos bebs agasalhados, boa parte deles
concebida na prpria cadeia. Crianas maiores enfadadas pela
inatividade da espera completam o contingente
infantil.
  uma populao bem heterognea de gente pobre, que
passa horas em p: senhoras sofridas, crentes de trana, mes
de famlia, morenas de cala justa e loiras
oxigenadas que falam e gingam no ritmo da malandragem. Algumas
chegam tristes, com seus filhos. Outras trazem cadeiras de
armar e cumpri mentam a fila inteira.
 Como as mulheres sempre encontram assunto entre elas,
com o passar das horas a fila engrossa de rodinhas femininas

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enquanto o peloto de diabinhos corre, tropea, derruba
sorvete na roupa e toma belisces no meio delas.
 Est longe de ser desprezvel o sacrifcio dessas
pessoas. Uma vez, seu Mavi, diretor do pavilho Nove,
perguntou a um grupo de presos que se queixava da
comida:
 - Esto reclamando do qu? Comem sem trabalhar; boa ou
m, recebem assistncia mdica e remdio de graa, direito que
trabalhador no tem; quando aprontam
e um companheiro cisma de matar vocs, ns transferimos para o
Seguro. Quem tira cadeia  a famlia, que sai de casa no
escuro com a sacolada, pega trs condues
e ainda rene o dinheirinho ganho com suor para vocs gastarem
no crack.
 Quando o sol est alto, a horda de ambulantes ataca e
a nvoa de churrasquinho de gato embaa a calada. Vendem
lataria, bolacha, cocada de tabuleiro, raspadinha
de groselha, cachorro-quente recheado com pur de batata e
refrigerante de dois litros. Barracas expoem camisetas, tnis
usados, alugam palets para os homens poderem
entrar (exigncia que ultimamente caiu em desuso) ou vestidos
discretos para as mais ousadas, porque o ambiente exige
respeito.
 Em todos os cantos apregoam maos de cigarro, a moeda
oficial atrs das grades. O bsico  o Cominander, anunciado a
7 reais o pacote de dez. L dentro,
cada mao vale 50 centavos; Hollywood e Marlboro custam o
dobro. O valor do mao obedece  lei da oferta e da procura:
entrou muito cigarro, o preo cai; faltou,
sobe. Como a oferta flutua de acordo com a condio financeira
da famlia, que, por sua vez, reflete a situao econmica do
pas, nos perodos de crise nacional
as visitas levam menos cigarro e o preo do mao sobe.
 No plano Collor, no auge do congelamento, Xanto, um
ladro que ao visitar a tia-madrinha no Pari baleou tanto o
tio bbado que teve a infeliz idia de espanc-la
na frente dele,

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como os dois primos que tinham vindo em socorro do pai (atirou
no peito dos trs porque, como reconhece, no saber dar tiro
nas pernas dos outros  um de seus defeitos),
fez a seguinte anlise:
 - Isso jamais teria se sucedido entre ns. J
imaginou, uma mocinha chegar aqui e anunciar que a grana
nossa, ganhada na luta, tinha congelado? j era, doutor,
no sobrava nem o pensamento na mente dela.
Os pavilhes Dois, Cinco e Oito, do lado esquerdo de quem
entra, recebem os familiares aos domingos; os demais, aos s
bados. No ltimo final de semana de cada ms  autorizada a
visita em ambos os dias:  a "dobradinha".
 Os portes abrem s sete, quando a fila j est
enorme. obrigatrio passar pelas baias de Revista. A dos
homens  mais superficial; as mulheres so revistadas
por funcionrias que olham at dentro da calcinha e, quando
desconfiam, mandam que a revistada a tire e se agache, para
verificar se h corpo estranho na vagina.
Por mais tato que as revistadoras possam ter, o exame 
constrangedor, especialmente para senhoras recatadas.
 At as onze horas, a fila de entrada anda a toque de
caixa, para que todos possam estar fora antes das quatro,
horrio da contagem geral. Final de semana
comum, vm de 2 a 3 mil pessoas. Quando faz frio aparece menos
gente, e com chuva, menos ainda. Pscoa, Dia das Mes e Natal
 enorme a multido que se aglomera.
 Na tarde da segunda-feira que antecedeu o Natal de
1997, cheguei no presdio para ver os doentes e j havia uma
pequena fila com cobertores, cadeiras e camas
de armar. Eram mulheres e crianas que, terminada a visita da
vspera, no tinham voltado para casa: postaram-se ali,
dispostas a aguardar at o prximo final de
semana.

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 Nos dias que se seguiram, a fila cresceu; as mulheres
se revezando, comendo de marmita, usando banheiro nos bares da
vizinhana e trocando fralda de beb
ali mesmo, protegidas apenas por uma cobertura rstica de
amianto que a direo construiu sobre a calada nos ltimos
anos.
 Naquela semana, sexta-feira depois do expediente,
houve uma cervejada de Natal dos funcionrios num bar vizinho.
Mais de meia-noite, quando samos alegres,
a fila ia longe, bem para l do abrigo, passava pelo quartel
da Pm e chegava no metr.
 Uma mulata de sorriso franco, Zil, das primeiras na
ordem de chegada, disse que estava muito feliz porque o marido
fizera chegar a ela uma quentinha com
macarronada preparada por ele no xadrez, para inveja das
amigas na fila. Zil tinha uma escadinha de quatro filhas, das
quais apenas a mais velha havia sido concebida
com o pai em liberdade, seis anos antes. Naquele dia, para lhe
fazer companhia e ser apresentada a um parceiro do marido,
tinha chegado a Fran, uma vizinha do Taboo
da Serra, magrinha, tmida, que podia ter no mximo vinte
anos. Apesar de compactuar com as intenes, Zil
desaconselhava a pretenso da amiga:
 -  o que eu digo para a Fran: voc quer conhecer o
Roberval eu te levo, mas no desejo para ningum o cansao da
fila, a humilhao na Revista, sempre sozinha,
morta de saudade, as crianas perguntando quando o papai volta
para casa. S com muito amor no corao uma mulher suporta
essa vida.
 Ao lado, Fran, o rosto na penumbra projetada pelo
poste de luz, concordava com a cabea, mas pretendia passar a
noite ali decidida a conhecer o tal de Roberval,
um mulherengo de bigode, scio do marido de Zil no negcio de
assaltar carga.
 As visitas entram atravs de portinholas que abrem
diretamente na calada, depositam as sacolas diante do
funcion-
rio, que as examina, e depois so submetidas  revista
pessoal. Tarefa absurda revistar tanta gente; levaria dias
para ser executada com rigor.
 Essa dificuldade estratgica cria oportunidade para um
funcionrio articular-se com a visita e fazer vista grossa 
entrada de itens proibidos, procedimento
arriscado para quem traz e para os que deixam passar. Estes
so fiscalizados pelos prprios colegas, como explica um
deles:
 - Comigo foram contratados mais de duzentos fncio
nrios. Dez anos depois, sobraram cinco ou seis. Com esse
salrio baixo, alguns se contaminam com o crime
e viram pilan tras. S que a gente nunca sabe quem so. Tem
que desconfiar de todos, lamentavelmente.
 Mais tarde, fiquei sabendo que o desconfiado autor das
palavras acima, por sua vez, tambm despertava desconfiana
entre seus colegas. Como diz o dr. Walter,
diretor-geral:
 - A coisa mais difcil numa cadeia  identificar os
que esto envolvidos com os ladres.
 Os visitantes que fazem trfico de droga para o
interior do presdio correm risco. Quando pegos, so
encaminhados ao distrito mais prximo, onde  lavrado
o flagrante de trfico; inafianvel. Um domingo, cruzei com
uma mocinha de dezenove anos que saa chorando, presa ao
entrar com vinte gramas de cocana para o namorado.
Num outro dia, a diretoria substituiu inesperadamente um
funcionrio da porta e surpreendeu uma visita com 32 quilos de
maconha, em duas sacolas. A apreenso causou
problemas internos:
 - Deixou ns na maior secura. No desdobramento, subiu
o preo do crack.
 As mulheres que trazem droga, fazemno para tirar o
companheiro ou o filho de um apuro ou para que ele ganhe atrs
das grades o sustento da famlia.

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 Os funcionrios que fiscalizam a entrada parecem ces
farejadores movidos por percepes extra-sensoriais. Um deles,
um mulato grando com olhar de boi manso,
doze anos de portaria, utiliza a seguinte tcnica:
 - Revisto a sacolada, mas sem descuidar da fila.
Quando percebo algum fora da naturalidade, dou uma olhada
rpida nos olhos da pessoa, seguida de outra.
 medida que ela (digo ela porque quem traz bagulho  quase
sempre mulher) comea a chegar perto, meu olhar ganha
comprimento. No fim, quando ela pe a pacoteira
em cima da mesa, eu nem ligo, meu olhar est fixo dentro dos
olhos dela. Quem deve, no resiste, vacila.
 Outros estendem a mo para cumprimentar a visita e
sentir se est fria, trmula ou molhada de suor. Com o rabo do
olho, no deixam escapar um detalhe da
figura humana que se apresenta: a roupa, a ginga difcil de
disfarar, uma tatuagem, os modos e a giria:
 - Se a mulher se aproxima e diz: ", chef'o", j sei
que  mulher de ladro!
 O olfato  um aliado poderoso dos que guardam a sada:
o cheiro da cadeia entranha no homem preso. Difcil definir
que odor  esse. Parece mistura de vrios
outros: alho frito, pano de cho guardado, suor e um toque de
creolina. Embora no possa ser classificado como mau cheiro, 
desagradvel. Quente e pesado.  to
pegajoso que os carcereiros, ao abrir as celas de Castigo,
apinhadas, nunca se colocam diante da abertura:
 - No fica na frente da porta, doutor, esse bafo gruda
na roupa da gente de um jeito que nem lavando sai.
 Os dias de visita exigem ateno redobrada dos
guardas. Sair disfarado de visitante  estratgia tradicional
nos presdios. Uma vez, um detento trocou a
cala cqui por um jeans e

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saiu com um grupo de funcionrios. O guarda da porta ficou um
pouco atrapalhado - tanta gente trabalha na Casa...
- De que grupo voc ?
- Sou do grupo tal, vim de reforo.
- Pediu autorizao para o seu Raimundo?
- Lgico!
 - Ento, malandro, a casa caiu, que nem seu Raimundo
no tem!
 Outro preso, de estatura baixa, com o mesmo disfarce,
deu de cara com um funcionrio do tamanho de um guarda-roupa
de casal, que um dia eu ouvi atender o
telefone identificando-se modestamente: "Aqui  o prncipe
negro da Portaria".
Sua Alteza desconfiou da palidez do baixinho:
- Qual  o teu grupo?
- Grupo um.
- E o teu nmero?
- Nmero um.
- Tudo nmero um! Qual , voc  da Bralima, malandro? Esses
casos, que mais tarde viram folclricos, so punidos com
trinta dias de castigo na Isolada, mas no
causam revolta:
 - Se ele vem na moral, tudo bem,  direito dele. No
prejudicou ningum,  respeitado. A cara dele  fugir, a nossa
 no deixar. Vai para o Castigo, mas
sem dosar corretivo. Agora, se vem na forada, como um que me
agentou no porto com um revlver engatilhado na minha
cabea, mas acabou preso antes de chegar na
esquina, a  outra coisa. Lamentavelmente, foi ele mesmo que
pediu.
 Lidar com a fila exige habilidade no trato social. 
preciso pacincia com as pessoas nervosas, ajudar senhoras de
idade, as grvidas, e encarar com firmeza
as que apelam para a ignorncia. Muitos conhecem as lderes
naturais do grupo e, por intermdio delas, acalmam as outras
nos momentos de

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tenso.  tarefa para profissionais habilidosos, que sofrem o
impacto psicolgico do trabalho, como diz o funcionrio de
olhos mansos:
 - Meus colegas me acham tolerante. Para eles pode ser,
mas a famlia se queixa que eu mudei. Antes, eu era caseiro,
tranqilo, visitava minha madrinha todo
dia, conversava. Depois de doze horas nesse trabalho, chego em
casa com a cabea quente, janto quieto e vou dormir. Nem me
lembro da madrinha.

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                                VISITAS NTIMAS
 So nebulosas as origens das visitas ntimas. Contam
que comearam no incio dos anos 80, insidiosamente, com
alguns presos que improvisavam barracas nos
ptios dos pavilhes nos dias de visita. Outros, mercenrios,
juntavam dois bancos compridos, cobriam-nos com cobertores e
alugavam o espao interno para a intimidade
dos casais.
 Na poca, as autoridades fizeram vista grossa,
convencidas de que aqueles momentos de privacidade acalmavam a
violncia da semana. Quando surgiram as primeiras
queixas de menores engravidadas nesses encontros furtivos,
ficou evidente que a situao escaparia do controle. Incapazes
de acabar com o privilgio adquirido, decidiram,
ento, oficializar as visitas ntimas: as maiores de idade
podiam subir ao xadrez do companheiro, desde que previamente
registradas com identificao e foto. Desta
forma, no melhor estilo Pantalen e suas visitadoras,
personagens de Vargas Llosa, o sexo foi burocratizado na Casa
de Deteno de So Paulo e o sistema espalhou-se
pelo pas.
 Cada detento tem direito de inscrever uma nica
mulher. Esposa, amsia ou namorada, no h exigncia de laos
legais. No caso de rompimento, outra s pode
ser indicada depois de seis meses. Com jeitinho, porm, esse
perodo s vezes  substancialmente reduzido. Mais de 2 mil
mulheres fazem parte do programa.
 A rotina  caprichosa: aps a revista elas se dirigem
ao pavilho, onde os homens esperam de roupa passada, cabelo
pentea-

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do e perfume cheiroso. No trreo, numa mesinha, na porta que
d acesso  escada que conduz s celas, fica um funcionrio
com a caixa de fichas. Os casais fazem fila
diante da mesa, a mulher entrega a carteira de identidade, ele
confere a foto, prende o documento  ficha com um clipe e o
retm at a sada. Da porta para dentro
no h carcereiros, os presos administram a prpria visita.
 Nos pavilhes mais populosos, como o Cinco, o Oito e o
Nove, o ptio interno fica to cheio de gente que os presos
sem visita evitam descer para deixar espao,
e como no podem permanecer nas celas ocupadas pelos casais,
aguardam em p, no corredor. A galeria fica cheia de homens.
 Quem nunca entrou no presdio imagina que os mais
fortes tomem as mulheres dos mais fracos num corredor como
esse, cheio de malandros encostados na parede.
Ledo engano: o ambiente  mais respeitoso do que pensionato de
freira. Quando um casal passa, todos abaixam a cabea. No
basta desviar o olhar,  preciso curvar
o pescoo. Ningum ousa desobedecer a esta regra de
"procedimento", seja a mulher esposa, noiva ou prostituta.
 Uma vez, Gensio, um nordestino cicioso que esbanjou
nas boates da zona norte o dinheiro roubado em mais de cem
assaltos, reconheceu na galeria uma mulher
da qual havia sido cliente:

 - o companheiro vinha com o brao no ombro dela. Virei
de costas para a parede, para evitar que ela me visse e
deixasse transparecer. Olha que elegncia,
doutor!
 Num xadrez, caso um nico morador receba visita, todo
o tempo disponvel  dele; se houver vrios, o horrio 
dividido em partes iguais. No h necessidade
de bater na porta; a pontualidade  britnica. Nas celas
maiores, com vinte, trinta homens, em que no existe outra
possibilidade seno a do uso concomitante, eles
improvisam espaos privativos com cober-

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tores pendurados. Para acobertar as manifestaes mais
exaltadas do arroubo feminino, ligam os rdios bem alto.
 Os sem-visita podem alugar o xadrez para companheiros
mais afortunados:
- Que nada  de graa numa cadeia.
 Se houver disponibilidade econmica e um pouco de
conhecimento,  at possvel tirar visita em outro pavilho,
expediente utilizado para receber a esposa
no xadrez de origem, no sbado, e a namorada em outro pavilho
com visita aos domingos. O nmero de funcionrios 
insignificante para coibir a infidelidade.
 Por um desses mistrios da alma feminina, so muitos
os que arranjam namorada enquanto cumprem pena. Uma vez, o
juiz corregedor, de tanto analisar pedidos
envolvendo detentos e suas mulheres, queixou-se ao
diretorgeral:
- Doutor, o que o preso tem que ns no temos?
 Muitas moas vm visitar um parente e acabam
apresentadas ao amigo dele. Outras respondem a correios
amorosos de revistas femininas e so convidadas a conhecer
o missivista, invariavelmente um rapaz de bons princpios que
deu um mau passo e espera encontrar no amor de uma mulher a
fora para se regenerar.
 As visitantes sentem-se protegidas no ambiente. Ao
retirar os carcereiros do interior dos pavilhes, a direo
sabiamente entregou a administrao da visita
aos nicos capazes de garantir segurana total. O homem preso
tem pavor de perder a mulher amada.
 Sem-Chance, ladro escolado, fala da esperteza do
"Ricardo", nome atribudo ao amante da mulher de quem est na
cadeia:

 - Se na visita no tiver respeito, doutor, elas vo
ficar com medo de voltar, onde que uma conta para outra algum
fato las-
timvel sucedido e, daqui a pouco, entre elas: eu no vou mais
l! Se voc no vai, eu tambm no,  perigoso! Pronto, i ns
aqui no maior veneno e elas curtindo
l fora, que Ricardo  o que mais tem, pronto para dar o bote
traioeiro na fragilidade da mulher solitria.  sem chance.
  preciso saber proceder: jamais cobiar a mulher do
prximo e manter impecvel a ordem geral. No h falta
considerada pequena, qualquer deslize  gravssimo.
 Certa vez, um estelionatrio de bigodinho bateu na
esposa durante a visita e os gritos foram ouvidos nas celas
vizinhas. A sorte do agressor foi um funcionrio,
minutos depois, escutar trs rapazes no ptio organizando um
grupo para matar o arruaceiro assim que terminasse a visita, e
providenciar sua imediata transferncia
para o Amarelo, setor dos jurados de morte.
 A estratgia funcionou apenas em parte: nas primeiras
horas da manh seguinte, em pleno Seguro, o valento tomou
duas facadas. Em estado grave, foi levado
para o Hospital do Mandaqui, sofreu cirurgia, passou quatro
dias na UTI, perdeu oitenta centmetros de intestino e ganhou
uma colostomia, mas escapou com vida. A
malandragem se espantou:
- Deu a maior sorte!
 Embora participem do programa mulheres de todas as
idades, as jovens constituem maioria. Na sada, chama a
ateno o nmero de mocinhas com bebs. Muitas
saem de cabelos molhados, denunciadores do banho tomado no
xadrez.
                                    O BAQUE
 O trabalho no Carandiru comeou com um diagnstico da
epidemia. De maio a agosto de 1990, colhemos sangue de 2492
detentos e aplicamos um questionrio epidemiolgico
com perguntas sobre comportamento sexual e uso de drogas,
entre outras.
 Pela manh, ao abrir as celas, os funcionrios
convocavam de setenta a oitenta homens que iam escoltados para
o pavilho Quatro e aguardavam trancados na
gaiola do trreo, para evitar encontro com desaftos. Da
gaiola, em grupos de dez, eram encaminhados ao laboratrio
para tirar sangue e responder ao questionrio.
 O estudo foi realizado com o auxlio decisivo de seis
presos do pavilho Quatro, entre eles, os responsveis pela
coleta de sangue, ex-usuarios de cocana
injetvel para os quais no havia acesso venoso impossvel; na
falta de opo, puncionavam vasos invisveis no cotovelo. O
mais habilidoso, de cabelo crespo e olhos
rpidos, que ria fora de hora, preso por assaltos em parceria
com a mulher do melhor amigo, que quis mat-lo quando
descobriu a cumplicidade dos dois, justificou
com modstia o elogio que lhe fiz:
 Doutor, quem j injetou cocana no escuro, com agulha
sem ponta, lavada na chuva do telhado, colher sangue com esse
material descartvel que o senhor traz
 at covardia da parte nossa.
 Os resultados mostraram que 17,3% dos presos da
Deteno estavam infectados pelo Hiv. Entre eles foram
identificados

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dois fatores de risco significantes: uso de cocana injetvel
e nmero de parceiros sexuais no ano anterior a pesquisa. Ao
lado destes, estudamos um grupo de 82
travestis presos na Casa e constatamos que 78% eram portadores
do vrus. Dos que se achavam h mais de seis anos no presdio,
100% tinham o teste positivo.
 No trabalho com os travestis, encontramos o caso da
Sheila, condenada a trs anos e dois meses por ter comprado
eletrodomsticos para o casamento de um ex-namorado
(pelo qual ela, boba, ainda estava apaixonada) com o talo de
cheque roubado de um pastor protestante que a tinha contratado
na avenida. Seios enormes, blusa com
n acima do umbigo, Sheila confessava na presena de
testemunhas mais de mil parceiros sexuais na Casa de Deteno
no decorrer do ano anterior  pesquisa. Com eles
havia praticado sexo anal receptivo, desprotegido, a prtica
sexual associada ao mais alto risco de transmisso da AIDS.
Ela era Hiv-negativa, teste repetido e confirmado
no Laboratrio Bioqumico de So Paulo e no de Retrovirologia
da Cleveland Clinic dos Estados Unidos, demonstrando que
algumas pessoas no se infectam mesmo aps
inmeras exposies ao vrus.
 Quase ao mesmo tempo, um grupo da usi, conduziu estudo
semelhante com os detentos no dia em que chegavam para triagem
no pavilho Dois. Os resultados obtidos
foram muito prximos dos nossos, sugerindo que a grande
maioria das infeces acontecia na rua, antes da priso. Na
poca, a moda era cocana injetvel. Nos cantos
do presdio, os carcereiros achavam seringas e puniam os
donos. Quando o batalho de choque da PM revistava as celas,
ao lado das facas apreendidas empilhavam um
monte de seringas usadas.
 Chocolate, um ladro azarado do Jardim Bonfiglioli que
roubou, sem saber, a casa da namorada do tio traficante e
tomou uma surra de corrente pelo engano,
e depois assaltou uma

65

outra sem ter idia de que era do filho de um delegado, contou
assim uma visita do Choque:
 - Os homens entraram com cachorro e metralhadora.
Abriram a porta do xadrez e deram voz para a gente sair
pelado, colar as mos na parede da galeria e no
olhar direto na cara deles. Acharam uma grinfa ainda com
sangue dentro, debaixo da cama do Coa-Coa. Nem indagaram
pelo pai da criana, j saram dando paulada
em ns todos, com a pastor zada pegando dodo.
 A represso, contraditoriamente, favorecia a
disseminao de hepatite C AIDS, POIS estimulava o uso
comunitrio de seringas e agulhas, que podiam ser alugadas
ou vendidas j cheias de droga para usurios que as injetavam
em fraes proporcionais  quantia paga, sem qualquer cuidado,
a agulha passando direto da veia de
um para o brao do outro.
 Com caneta bic usada e havaiana velha, um ladro de
fala mansa, marido de uma mulher bonita da qual ele morria de
cimes, chamado Chico Ladeira, preso por
seguranas armados de metralhadora num assalto a um templo da
igreja Universal, ganhava bom dinheiro fabricando seringa:
 - Pego a bic e tiro a carga. Esquento uma agulha de
inJeo, que eu consigo por meios prprios de mim mesmo, e
encaixo na ponta da caneta, que com o calor
derrete o plsti co e gruda firme. O mbolo eu fao com uma
borrachinha redonda cortada da ala da havaiana, fincada na
ponta de um arame duro. Firmeza, dou garantia.
Se vazar pode devolver que eu troco.
 Muitos traziam nos braos o estigma da dependncia:
traJetos venosos esclerosados e cicatrizes de abscessos
bacterianos. Alm dos usurios ocasionais, havia
os chamados "baqueiros", subjugados pelo vcio, assustados nas
galerias, olhando para trs, para os lados e at para o teto
como se algo fosse lhes cair sobre

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a cabea, vtimas do delrio persecutrio que inferniza o
usurio crnico de cocana.
 Coa-Coa, que ganhou o apelido por causa de um amigo
que o surpreendeu na zona pedindo para a prostituta passar as
unhas em suas costas, descrevia assim
esse delrio:
 - Eu tomava baque na casa de um considerado meu que
vivia amigado com uma mulher feia como a fome. Quando ns
estava so, , o maior respeito! Era s injetar
farinha na veia que ele entrava numa que a gente tinha que
sair correndo, porque seno eu comia a mulher dele. Ns corria
at perder o flego, a o barato abaixava
e a gente raciocinava: pra que isso, parceiro? A, voltava
para casa, normal, na amizade, e tomava outro baque. A
parania retornava tudo de volta e a gente tinha
que correr de novo. Quando a farinha estava pela hora, ns
chegava to cansado que caa no cho, ridculo, sem fora.
 A situao era grave. Havia uma epidemia de cocaina
injetvel no presdio, reflexo da que se disseminava na
periferia de So Paulo e de outras cidades brasileiras.
 Uma vez assisti a um ritual de cocana injetvel, ou
"baque" , ao redor de uma mesinha, durante a gravao de um
video educativo, num armazm abandonado.
Eram quatro participantes: um jamaicano negro de rosto
comprido, recm-sado da cadeia, que dizia ter sido preso
injustamente ao visitar amigos colombianos de Medeln
num hotelzinho da rua Aurora; um filho de rabes envelhecido
precocemente; um magrelo de dentes estragados pai de dois
filhos, que assaltava bilheteria de metr;
e um nissei da mfia que explorava lenocnio nas boates da
Liberdade, o bairro oriental de So Paulo.
 Cada qual chegou com o pacotinho de cocana enrolada
em papel-manteiga e uma seringa pequena com agulha fina.,
dessas de insulina para diabtico, fundamental
para evitar marcas no braos. Colocaram trs copos de vidro no
centro da mesa:

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um vazio, outro cheio de gua da torneira e um terceiro com
gua fervida; entre eles, uma colher de sopa bem lavada.
 O jamaicano encheu um tero da seringuinha no copo com
gua fervida, enquanto o japons explorador de mulheres
derrubava uma dose de cocana na colher seca.
O jamaicano esva ziou a seringa na colher e com o protetor da
agulha dissolveu o p no lquido, elogiando a qualidade
daquela partida que se dilua facilmente.
 direita dele, o japons, mudo, apertava com fora os
msculos do brao, os olhos fixos nas veias expostas.
 Com a seringa, o aplicador aspirou o p diludo na
colher e introduziu a agulha bem devagar na pele do oriental
impassvel, at o sangue refluir vermelho.
Como parte do ritual que eu desconhecia, injetou apenas um
quarto do contedo da seringa e aspirou com o embolo um volume
de sangue igual ao do lquido injetado.
Em seguida, repetiu a operao de injetar e aspirar varias
vezes. O japons mantinha os olhos arregalados na seringa,
fascinado pelo entra e sai de sangue em seu
interior. A administrao durou dois ou trs minutos, aps os
quais o explorador de mulheres levantou-se e comeou a falar
incoercivelmente, enquanto o rabe de
rosto enrugado fazia saltarem as veias do antebrao.
 O procedimento repetiu-se idntico com os outros dois
participantes: diluio do p na colher, introduo lenta da
agulha, fluxo e refluxo de sangue, olhar
vidrado na seringa, agitao e monlogos concomitantes.
 Para minha surpresa, entretanto, o efeito da injeo
era ef
mero. O aplicador ainda estava com a agulha na vela do magri
nho de dentes estragados, o terceiro da roda, e o nissei
ansioso ' ia
garroteava o brao de novo. Enquanto este tomava o segundo
baque, era a vez do rabe ficar agitado, depois do banguela e
assim sucessivamente, num frenesi de intensidade crescente que
s terminou quando o ltimo gro de p foi consumido.

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 Completada a primeira rodada, antes de iniciar a
segunda oJamaicano lavou a seringa suja de sangue no copo com
gua da torneira e a esvaziou no copo inicialmente
vazio. Depois de repetir duas vezes a operao de limpeza, o
aplicador voltou a carregar a seringa no copo com gua fervida
para diluir a nova dose de p na colher.
No final, o copo inicialmente cheio de gua da torneira estava
quase seco e o outro, vazio no inicio, continha uma soluo
tinta de sangue venoso.
 Era a festa do Hiv. Embora cada um trouxesse a prpria
seringa, bastava algum na roda estar infectado para espalhar
o vrus na gua da lavagem das seringas
e, ainda, contaminar a colher que todos usavam. Talvez por
isso mais tarde eu tenha encontrado tantos ex-usuarios COM
AIDs que juravam nunca haver utilizado seringas
alheias.
 Quando acabou, os baqueiros continuavam falando sem
parar nem ouvir, a boca seca pelo efeito do alcalide tantas
vezes injetado. No final, enquanto recolhamos
o equipamento, vi o banguela pai de dois filhos pegar da mesa
o copo com a soluo sanguinolenta, subproduto da limpeza das
seringas, e lev-lo  boca sem abalar
os que estavam a seu lado.
- No bebe isso! - gritei.
 Ele no entendeu e comeou a tomar o lquido grosso de
sangue. At eu conseguir deter-lhe o brao, bebeu pelo menos
metade do copo:
- Olha o que voc est bebendo, cara, isso  sangue puro!
- Nossa! Nem percebi, pensei que era agua.

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                                   NO CINEMA
 Ento, vieram as palestras do cinema. A Casa tem um
enorme salo cimentado, no segundo andar do pavilho Seis,
para mais de mil ocupantes, onde antigamente
funcionou o cinema, destrudo numa rebelio. Ali ns reunamos
trezentos ou quatrocentos presos, montvamos um telo com
equipamento de som, passvamos vdeos educativos
sobre AiDs e eu respondia as perguntas da platia.
 O trabalho de montagem ficava por conta de dois
funcionrios da UNIP, o Roberto e o Lus, ajudados por uma
equipe de detentos coordenada pelo Gerson do pavilho
Oito. Com o passar do tempo, Roberto e Lus ganharam
popularidade na Casa, o primeiro apelidado de Pc pela
malandragem devido  semelhana fisica com o personagem
trgico de Alagoas.
 Deslocar tantos homens do pavilho de origem para o
cinema e lev-los de volta ilesos no era simples. A operao,
comandada pelo Waldemar Gonalves, funcionrio
responsvel pelo Departamento de Esportes, comeava s oito da
manh. Os xadrezes dos andares cujos ocupantes desceriam para
assistir  palestra eram destrancados
antes dos demais e a malandragem dirigia-se para o pavilho
Seis. No final, l pelas onze horas, percorriam ordeiros o
trajeto de volta.
 Uma semana aps a outra, durante anos, centenas de
presos indo e voltando, muitas vezes cruzando com inimigos de
morte, e jamais ocorreu qualquer incidente.
Entre os ladres, havia um pacto de respeito ao cinema das
sextasfeiras.

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 Hernani, um falsrio ou "171", como prefere a
malandragem, que se gabava de ser mais perigoso com a caneta
do que os companheiros de revlver, justificou
a tranqilidade do ambiente:
 - O senhor, o Lus e o Pc vm fazer uma coisa boa para
ns. Se algum mano criar caso, um acerto de conta, uma
palhaada, vai se colocar contra o bem geral.
A  problema! Precisa desprezar o apego na vida.
 Os homens chegavam em grupos. Boa parte, por
princpio, ia direto para o fundo e sentava no cho, mesmo que
houvesse lugar  vontade nos bancos da frente.
No telo, enquanto entravam, passvamos vdeos de cantores
populares. Ouviam atentos, marcando o ritmo no balano do p,
discretos. Danar ou mexer o corpo,jamais:
- Que onde j se viu malandro rebolar na frente do outro!
 L pelas nove horas, parvamos a msica, acendamos as
luzes e eu subia ao palco para dizer o seguinte:
 - Ateno, malandragem, existe uma epidemia de AIDS na
Casa. Os companheiros de vocs ficam magros, enfraquecem, vo
para a enfermaria do Quatro e nunca
mais voltam. Ns vamos passar um vdeo e depois responder
perguntas sobre a doena. No conversem agora. Nada  mais
triste na vida de um homem do que acabar seus
dias numa cadeia.
 Durante as primeiras palestras, seu Florisval, o
diretor de Disciplina, postava-se no palco, de costas para
mim, e encarava a platia. Um dia, pedi-lhe que
no se preocupasse e fiquei sozinho com os presos. Deu certo,
comecei a me entender melhor com eles.
 Enquanto passava o vdeo de AIDS, s vezes ouvia-se
conversa no fundo da sala. Uma das manhs, durante a projeo,
no escuro, resolvi cruzar o cinema e sentar
l no fundo, entre eles, s para ver se a conversa parava.

71
 Fui, movido por uma sensao racional de confiana,
mas estava com medo. Atravessei o cinema devagar. Quando
cheguei nas ltimas filas, a conversa calou.
Sentei no cho, no meio dos ladres, e fiquei assistindo ao
vdeo. Tinha as mos geladas e os batimentos cardacos
acelerados. Veio a sensao de que algum pularia
por trs para me esganar. Controlei o medo e resisti at o
final. Ento, levantei e voltei sem pressa para o palco. No
caminho, notei que aquele andar no era bem
o meu: tinha um toque da malandragem nas ruas do Brs. Na
semana seguinte, repeti a experincia. O medo voltou bem menos
intenso. Na terceira vez, o medo acabou.
 Terminado o vdeo, eu respondia s perguntas feitas
num outro microfone com fio comprido levado pelo Santista, um
ladro que dizia ter aproveitado a vida:
fechava a boate, pagava bebida para todos, depois ia cheirar
cocana no motel com as moas da casa e, generoso, cobria o
corpo delas com dinheiro roubado:

- Eu era o rei da noite, todas queriam sair comigo.
As dvidas e as questes levantadas eram concretas. AIDS

para eles no constitua preocupao terica, era problema
prtico. Queriam saber os cuidados com as secrees corpreas
dos doentes, o risco de transmisso para
os familiares, os sintomas iniciais e o tempo de evoluo da
doena.
 Aps a ltima resposta, em dois minutos, no mximo, eu
resumia trs idias essenciais. Primeira: a solidariedade com
o companheiro de xadrez, doente, no
representa risco porque AIDs no se transmite no contato
casual. Segunda: sem camisinha, o vrus passa do homem para
mulher e da mulher para o homem, e nas relaes
homossexuais o parceiro ativo tambm corre perigo. Terceira:
todos os que tomam droga na veia vo pegar o vrus,  questo
de tempo.

72

 No fim, eu acrescentava em tom evanglico: quem no
consegue escapar do inferno da cocana

 engole, faz supositrio, fuma, mas baque na veia no,
pelo amor de Deus!
 A recomendao para substituir a via injetvel era
deixa
da para o final porque, no desfecho, quando eu insistia que fu
massem em vez de in , Jetar, explodia uma salva de palmas per
meada por longos assobios, o que criava um clima apotetico
para a minha sada da sala.
 Na poca, esta ltima mensagem sobre a cocana
injetvel foi dada assim porque me parecia ridculo, naquele
ambiente, repetir slogans ingnuos do tipo "diga
no s drogas" A razo de tantos aplausos, no entanto, eu s
compreenderia em toda a profundidade bem depois, quando ficou
claro que o crack varreria a cocana injetvel
da cadeia.
 A tarefa de tirar da cama centenas de malandros, antes
das oito, para assistir a um vdeo educativo seguido de
recomendaes mdicas, considerada irreal
pelos funcionrios mais experientes, foi facilitada
decisivamente pelo Hernani, um senhor de cabelo grisalho,
especialista no golpe da arara, atravs do qual montava
firmas fantasmas para quebr-las e dar calote na praa:
 - Doutor, acordar vagabundo  um problema
problemtico. Por que o senhor no deixa passar um vdeo
ertico no final da programao? No esgano que a moada
se encontra, vai lotar o cinema.
 Fizemos um teste. No final, depois que eu saa da
sala, entrava um vdeo de erotismo explcito. A estratgia de
misturar msica, medicina preventiva e sexo
foi imbatvel: um sucesso de pblico. Pode dar certo em outras
cadeias, desde que sejam tomadas duas precaues: no permitir
a entrada para assistir apenas ao ltimo
vdeo, pois a programao  um pacote indivisvel, e, o mais
importante, o filme ertico s comea quando o mdico sai da
sala.
 J nas primeiras palestras fiquei surpreso com a
considerao que os homens demonstravam por mim. Nas perguntas

usavam termos e expresses como "sexo anal") "penetrao",
"prostituio") "homossexuais" ou "mulheres de cadeia" -
jamais uma palavra grosseira, palavro, nem
pensar. Certa ocasio, ao interromper um vdeo de
 Daniela Mercury para colocar o de AIDS, uns trs ou
quatro do fundo assobiaram por brincadeira, como fazem os
alunos de cursinho. Esta pequena manifestao
deu o que fazer para o Waldemar Gonalves convencer o pessoal
que ajudava na montagem do equipamento a no esfaquear os
assobiadores. Santo, um mulato musculoso
cumprindo dezoito anos por assalto a banco, que ajudava a
montar o equipamento de som, era dos mais revoltados:
 - Qual  a desses caras, meu, querer zoar o mdico que
vem conscientizar os manos do perigo dessa praga e dar uma
distrao para a coletividade? Eles no
esto tirando o doutor, esto tirando ns!
 Na semana seguinte, antes de comear a palestra, o
Ben, um filho de alcolatra que odiava bbado e baleou dois
deles numa padaria de Parelheiros porque
importunaram uma moa que ele nem conhecia, homem de poucas
palavras e moral suficiente para apitar a deciso do
campeonato interno de futebol daquele ano, apareceu
com trs jovens:
Doutor, os manos aqui querem trocar uma idia com o

senhor.
 O mais velho dos trs, que na adolescncia teve o olho
esquerdo vazado por uma bala perdida, falou de cabea baixa e
com as mos cruzadas atrs:
 - Em nome meu e dos parceiros aqui presentes, junto, a
gente veio pedir desculpa muito pelos assovios. No foi por
mal, mas se os companheiros entenderam
que sim, quem somos ns para discordar.

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 Essa aura de respeito sincero em torno da figura do
mdico que lhes trazia uma pequena ajuda exaltou em mim o
senso de responsabilidade em relao a eles.
Com mais de vinte anos de clnica, foi no meio daqueles que a
sociedade considera como escria que percebi com mais clareza
o impacto da presena do mdico no imaginario
humano, um dos mistrios da minha profisso.

75


                                RITA CADILLAC
 Fizemos um concurso de cartazes de preveno  AIDS
patrocinado pela UNIP, com prmio de mil dlares convertidos
em maos de cigarro, a moeda local, dividido
entre os cinco ganhadores. O Waldemar Gonalves, do Esporte, e
um grupo de presos dos postos culturais dos pavilhes
distriburam cartolina branca e pincel mgico
preto. Cpias dos melhores cartazes foram posteriormente
afixadas pela cadeia inteira.
 O primeiro colocado desenhou uma camisinha, dentro da
qual havia uma seringa pingando sangue. Embaixo, os dizeres:
AIDS Voc pode evitar".
 Tantos cartazes de AIDS e nunca vi algum unificar com
tanta propriedade a idia do preservativo e da seringa numa
mensagem unica, como fez o vencedor, um
magrinho com dentes em pssimo estado que tinha parado de
estudar na escola primria e cumpria cinco anos, por pequenos
assaltos em parceria com o primo mais velho
na regio do largo Treze, zona sul de So Paulo.
 Os prmios foram entregues numa tarde de calor
intenso, no cinema do Seis. Estavam presentes mais de mil
detentos. Para abrilhantar a cerimnia, o Waldemar
convidou Rita Cadillac, ex-chacrete que encantava os homens
diante da TV, sbado  noite. O pagode ficou por conta do
Reunidos por Acaso.
 Depois da quinta msica, o mestre - de- cerimnias,
Demtrio, um senhor careca com anel no dedinho, viciado em
corrida de cavalo, anunciou com voz melosa:

76

 - Prezados reeducandos deste estabelecimento penal, o
humilde locutor que vos dirige o verbo tem a honra de anunciar
esta grande artista figurativa da televiso.
Musa indomvel da arte danarina. Aquela que foi a bailarina
crooner do iMpredizvel Chacrinha, que Deus o tenha. Neste
momento festivo, convido para adentrar ao
palco a madrinha da Casa de Deteno: Rita Cadillac!
 As ltimas slabas dos dois nomes prprios saram
interminveis.
 De saia justa, Rita subiu decidida, os selos
balanando na blusa entreaberta. Uivos e suspiros na platia.
 Com sorriso malicioso ela encarou o pblico, fez um
sinal para os msicos e caiu no samba. Mulher sensual,
requebrado maravilhoso!
Excitada, a massa gritava:
-Vira, madrinha! Vira, Rita, pelo amor de Deus!
 Ela, desentendida, continuou seu bailado lascivo de
fren te, no mximo de lado, para os homens suplicantes:
- Vira como a gente gosta! Vira, Ritinha, s uma vez!
 Quando os gritos atingiram o clmax, Rita, de saia
preta, ar de colegial, levou a ponta do dedo indicador ao
lbio e com a outra mo desenhou um crculo
imaginario, como a consul tar o desejo da malandragem.
- Isso, vira! Agora, madrinha, mata ns!
 Suada, dois botes desabotoados, ela afinal fez a
vontade dos fs.
Imediatamente as vozes calaram. Silncio total.
 No pagode do Reunidos, o cantor, de cavaquinho, atacou
o estribilho de sua autoria:
- "Liberdade  voc, o nosso amor  um barraco para

nos aquecer."

 De costas para o pblico extasiado, no ritmo, suas
cadeiras comearam um movimento sinuoso de amplitude crescen-
te. Quando esta atingiu o grau mximo, Rita Cadillac, com a
mo na nuca e a outra abaixo do umbigo, dobrou gradativamente
os joelhos sem afrouxar o rebolado, at
as coxas ficarem paralelas ao nvel do palco. Resistiu longo
tempo requebrando nesta posio, de salto alto e costas
eretas. Depois tomou o ca minho inverso ao
da descida. No meio do percurso para cima, quando as coxas
atingiram 45 graus em relao ao palco, subitamente sua bunda
estancou no ar, por segundos. Rosto de perfil,
o queixo sobre o ombro, mo esquerda levantando o cabelo do
pescoo molhado, as cadeiras, afinal, deram o tranco
definitivo para o alto e, artista, saiu na direo
do pandeiro, para o delrio total da malandragem, que quase
ps abaixo o velho cinema. Com todo o respeito.

78

                            ATROPELO NA DIVINIA
Com freqncia, ao terminar as palestras, os presos me
paravam no corredor para expor problemas de sade.
Queixavam-se de febres noturnas, fraqueza, nguas, tosse,
leses de pele

e molstias venreas. Vinham magrinhos, com flego curto e
sintomas caractersticos da fase avanada da AIDS.
 Impossvel resolver seus casos naquelas consultas-
relmpago, palpar pescoos, olhar gargantas inflamadas ou
feridas nos genitais, em p, no meio dos curiosos.
No havia como evitar
essas abordagens ou deixar de me envolver com os dramas
individuais. s vezes, uma afeco banal como o sapinho, igual
ao da boca dos bebs, fcil de curar com alguns
comprimidos, impedia o doente de engolir at saliva. Gente com
sintomatologia sugestiVa de tuberculose automedicava-se com
inteis vitaminas e mastruz, uma erva
 qual atribuem propriedades medicinais.
A assistncia mdica no presdio era precria para enfren-
tar uma epidemia como aquela. Para cuidar dos 7 mil
prisioneiros, havia dez mdicos, se tanto. Os baixos salrios
e a falta de condies de trabalho haviam corrodo
o nimo da maioria, de tal forma que poucos, deste grupo j
pequeno, exerciam a
funo com dignidade.
 Nessa fase, eu saa da cadeia com um misto de
impotncia e culpa. De um lado, no conseguia esquecer o olhar
enco-

vado dos doentes; de outro, o que tinha eu a ver com aquilo?
j no bastavam o tempo gasto com as palestras e o risco de
andar naquele meio? Alm disso, muitas das
expresses que
79
me sensibilizavam como mdico possivelmente nunca haviam
demonstrado complacncia diante de suas vtimas indefesas, na
rua.

 O impasse tinha duas solues: parar de ir  cadeia ou
encontrar um horrio para atender os doentes, organizadamente.
 Prevaleceu a segunda alternativa. Aquele mundo havia
entranhado em mim, era tarde para fugir dele. Como mdico, no
me cabia julgar os crimes dos pacientes,
a sociedade tinha Juzes preparados para essa funo. Alm
disso, fazer medicina naquele lugar, s com o estetoscpio,
como os mdicos antigos, aps tantos anos
de clnica apoiada em exames laboratoriais e imagens
radiolgicas, era um desafio.
 Uma manh de inverno, subi at o quinto andar do
pavilho Quatro para acertar os detalhes com o dr. Mrio
Mustaro, o chefe do servio mdico da Casa, por
coincidncia meu ex-professor de bioqumica na faculdade.
Falamos da burocracia interna, das patologias mais prevalentes
e conheci meu primeiro enfermeiro, Edelso,
um rapaz com jeito de classe mdia, preso por roubo de
automvel e exerccio ilegal da medicina.
Estvamos nessa conversa quando entrou um funcionrio:
 - Doutores, precisam sair rpido. Trs presos fizeram
refm no pavilho Cinco e esto vindo para a frente na direo
da Divinia.

80

 Na escada, o mdico-chefe, mais de trinta anos de
servio pblico, aconselhou-me:
 - V como ? As instalaes so precrias, falta
material, remdio, pessoal, tudo, e quando algum tem boa
vontade, esbarra no problema disciplinar. Quer
um conselho? No perde tempo com isso aqui.
 Descemos depressa. Ele saiu para a portaria e eu,
curioso para ver a confuso, aproveitei um pretexto e fiquei
para trs com um guarda que me ps a par do
acontecido.

 Cada um com sua faca, trs presos do Amarelo tinham
agarrado o carcereiro:
-  o seguinte, chefo: reagiu, morreu!
 Com o refm em ponta de faca, desceram at o trreo e
saram do pavilho. A malandragem abriu espao no ptio. Na
porta que separa o Cinco do Dois, o porteiro
percebeu a situao do colega:
- Passam s os trs e eu tranco de novo. O resto fica!
 Deu um tempo para destrancar. Enquanto isso, os
detentos que estavam no ptio do pavilho Dois puderam ser
recolhidos e a porta da gaiola interna foi fechada.
 Um mulato, baixinho e troncudo, de camisa aberta, 
direita do refm, com uma das mos segurou-lhe o brao
esquerdo passado por trs das costas e, com a
outra, encostoulhe uma lmina de 30 centmetros contra o
trax. Do lado oposto, um branco de cabelo desgrenhado, dentes
falhados na frente, mantinha posio simtrica
 do mulato, de modo que o funcionrio, lvido, ficava com os
braos cruzados por trs do corpo e uma faca de cada lado do
peito. O terceiro, musculoso de malhao,
puxava o refm pela gola da camisa e espetava-lhe, de leve,
embaixo do queixo, uma lmina pontiaguda.
 Percorreram a Radial, que liga os pavilhes, e pararam
diante do porto do Dois, que d para a Divinia. A essa
altura, na muralha, trs PMs movimentavam-se
nervosos com as armas para atirar. Na Divinia, um grupo de
funcionrios mais velhos tomou posio.
 Negociao tensa para abrir a porta de acesso 
Divinia; escorria sangue do queixo do carcereiro rendido. Os
ladres exigiam transferncia para outro presdio,
a Pm esperava uma brecha para atirar e os funcionrios para
cair em cima. Mtuas ameaas de morte, porta trancada,
gritaria e indeciso.
 Dada finalmente a ordem, apenas o portozinho de
pedestres foi aberto - passagem estreita para dois, impossvel
para quatro. Os funcionrios em crculo ao
redor do porto abriram alas.
 O forto, musculoso, passou antes com a faca no queixo
do carcereiro, o mulato e o descabelado ficaram para trs.
Descuido grave. Um Pm da muralha engatilhou.
Com o rudo, o mulato, ato reflexo, abaixouse. O descabelado
que vinha atrs dele foi obrigado a parar. Como que ensaiados,
dois canos metlicos cantaram no ar.
No susto, o musculoso voltou-se para trs, afrouxando a faca
ensangentada. Descuido fatal. O refm agarrou o brao do
algoz e imobilizou a arma.
 Em volta dos trs formou-se uma aglomerao de calas
jeans. Impossvel ver detalhes.
 Quando tudo acalmou, o funcionrio -refm, branco como
cera, ???fascies doloroso, saiu carregado pelos colegas, com o
p direito fraturado de vingana. O
mulato
e o musculoso, cheios de equimoses, foram embolados num
carrinho de mo usado para transportar tachos de comida. O
descabelado, camisa em frangalhos, sangue escorrendo
na fronte, olho direito fechado por um inchao vermelho,
incapaz de dar dois passos em linha reta, vinha ao lado do
carrinho. Vendo-o trpego, na direo da enfermaria,
um funcionrio recm-chegado na Divinia gritou:
- Ainda consegue andar, ladro? Os colegas tm corao

mole!

                                    BEM-VINDO
 Na semana seguinte a essa tentativa de transferncia
frustrada pela ao dos funcionrios de corao
mole, voltei ao pavilho Quatro.
 O elevador estava quebrado, subi as escadas at o
quinto andar, segui o corredor e sa na enfermaria. Era uma
galeria com doze celas de um lado e dez do
outro, uma copa no fundo  esquerda, um banheiro grande com
mais azulejos despregados do que assentados na parede e trs
chuveiros eltricos, dos quais apenas um
esquentava.
 Neste, sob a gua que escorria em pingos grossos, um
preso sem camisa, com cara de boxeador, esfregava um trapo
ensaboado nas costas esquelticas de um doente
e, com a outra mo, agarrava-o pela axila


 para mant-lo em P. O paciente tinha
 ferida cruenta no rosto, extensa, que pegava toda a
regio
frontal direita, avanava sobre as plpebras, encobria
completamente o olho e descia pela face, provocada por Herpes
Zoster, um vrus oportunista freqente nos casos
de AIDS. Aquele enfermeiro -pugilista amparando sem jeito o
doente bambo com o rosto desfigurado, parecia cena de filme
macabro.
 Os quartos, na realidade, eram celas comuns caladas de
azul-ingnuo na metade de baixo e branco na de cima, p-di-

reito alto, claras de dia e com uma luz mortia  noite. No
interior deles, um catre metlico, colchozinho de espuma
cortada  faca, privada, pia e mais nada. Na
parede oposta  porta macia, uma janela gradeada com os
vidros quebrados.

83

No espao exguo entre a cama e a parede, os doentes
amontoavam algumas peas de roupa, um par de tnis, o chi-
nelo, sacos plsticos com comida, banana, po amanhecido e a
caneca do caf.

 Alguns pareciam bem de sade; recuperavam-se de cirur-
gias aps tiroteios, facadas, problemas ortopdicos,
queimaduras por gua fervente derramada por desaftos, crises
de bronquite asmtica e dermatites. Outros, emagrecidos
pela tuberculose epidmica no presdio, perambulavam de
bermuda e chinelo rider, enchendo a galeria de acessos de
tosse e bacilo de Koch. Nas camas, enrolados em
cobertores ordinrios, jaziam homens febris, caquticos, a
mucosa da boca coberta de sapinho, dispnicos, molhados de
urina, em fase terminal de evoluo da AIDs.
Tinham o olhar resignado que a morte impe quando chega
devagar.
 Com o Edelso e mais dois detentos, passei a primeira
visita. No final, entrei no quarto de um rapaz de Santo Andr,
ladro de automveis, pele e osso, que
tossia incoercivelmente e cuspia uma secreo sanguinolenta. O
escarro tingia o cho de vermelho rutilante, no havia onde
pisar.
 - Voc no pode cuspir assim! Est com tuberculose,
quem entra aqui, pisa e espalha a doena pela enfermaria.
 - Doutor, se as tosses fossem menas e a fora mais, eu
podia se erguer para cuspir na pia, mas do jeito que eu estou
ruim do flego no tem condies.
 Paramos, os enfermeiros e eu, na sada da enfermaria,
junto a ouvidos curiosos. Expliquei-lhes que o bacilo da
tuberculose est presente no escarro e nas
gotculas invisveis espalhadas no ar pela tosse, e que o
risco de transmisso naquele ambiente era real, inclusive para
ns mesmos.
Terminei de prescrever, dei algumas orientaes e me
despedi. Um dos enfermeiros, Juliano, forto, de bigode, que
pu-
xava a perna esquerda atingida numa emboscada em que
perderam a vida un irmo e outro parceiro,
acompanhou-me ao elevador:
- Bom descanso, doutor. O senhor volta?
Fui para casa com medo de pegar tuberculose.

85

                                    O IMPACTO
 Naquela poca, eu tinha vinte anos de experincia
clnica com doentes graves e terminais, e a Impresso de
conhecer o ambiente da cadeia. Mesmo assim, fiquei
chocado. Passei a semana introspectivo e desinteressado dos
acontecimentos sociais, as lembranas da enfermaria indo e
voltando. Minha mulher disse que nunca me
viu to calado.

 A introspeco, no entanto, no refletia a tristeza
que como mdico talvez eu devesse sentir diante daquela
misria humana. A perspectiva de penetrar fundo
o universo marginal, embora assustadora, era to fascinante
que para dizer a verdade eu estava feliz, excitado com aquele
trabalho e apaixonado pela medicina, profisso
caprichosa como a mulher amada, capaz de despertar crises
inesperadas de paixo pela vida inteira.
 Comecei a estudar tuberculose, que eu no tratava
desde os anos 70, quando pensvamos que a molstia seria
erradicada do Brasil a curto prazo. Durante muitos
dias, ao lembrar da cadeia, reconhecia sensaes interiores
que me remetiam  infncia correndo atrs de balo, no Brs. A
vida pulsava mais forte.
 Voltei na semana seguinte e reuni o trio de
auxiliares: o falso mdico Edelso, Juliano, que puxava a
perna, especializado em bancos e carros-fortes, e Pedrinho,
um tipo de barba cerrada e passado misterioso, com trs balas
alojadas no trax, condenado a 22 anos. Antes de ir para a
enfermaria, ensi nei-lhes como administrar
a medicao contra a tuberculose

86

e os cuidados gerais com os pacientes. Eles ouviram
interessados, fizeram perguntas e deram sugestes para
melhorar o atendimento.
 A visita transcorreu num clima bem diverso da
anterior. Vrios doentes referiam alvio da tosse, da sudorese
noturna e aumento da disposio. Quando passamos
pelo rapaz de Santo Andr que cuspia sangue, ele estava
sentadona cama, afundando um pozinho no caf com leite. Um
outro, com uma pneumonia associada  AIDs, agoniado
com a falta de ar na semana anterior, andava devagarinho pela
galeria.
 De xadrez em xadrez, do final da manh at o meio da
tarde, examinei os pacientes. Do meu lado, os trs enfermeiros
sem almoo, na maior seriedade. Na sada,
havia um clima de respeito profissional entre ns. Fui embora
com sede, faltou coragem para tomar gua da torneira.
 Na outra semana, a caminho da enfermaria, sentados no
banco junto  porta da sala de atendimento ambulatorial, meia
dzia de presos aguardavam. Um deles,
guarda-costas de um traficante da Rocinha, vestido com a
camiseta do Flamengo, os braos cobertos de feridas que ele
coava ininterruptamente, falou num sotaque
carioca arrastado:
 - Com sua permisso, doutor, sabemos que o senhor vem
para atender os manos da enfermaria COM HIV, mas eu e os
companheiros aqui do Oito estamos assim, modo
de dizer, no maior esgano. Uns com febre e fraqueza, outros
com comicho no corpo que no deixa dormir. Por isso, viemos
apelar para a sua boa vontade de dar uma
fora para a gente.
 Visivelmente, precisavam de ajuda. Dos seis, quatro
estavam com tuberculose avanada, um apresentava um quadro
neurolgico estranho e o carioca com coceira
tinha leses dermatolgicas disseminadas que eu no fazia
idia do que representavam.

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 Terminei de v-los e fui para a enfermaria com o trio
de auxiliares. Com exceo de uns dois ou trs portadores de
AIDS cujo estado geral se deteriorava
progressivamente,
os demais continuavam melhorando. Chegamos a dar algumas
altas.
 Horas mais tarde, ao sair, na porta da sala de
atendimento nova surpresa, desta vez mais numerosa: quinze
doentes com a mesma conversa de que precisavam
de ajuda.
 Tinha cado a noite quando terminei. O juliano desceu
comigo at o trreo e chamou o funcionrio para destrancar a
gaiola. O carcereiro veio com um molho
de chaves:
 - At essa hora, doutor! Nem sabia que o senhor ainda
estava l em cima. E voc, Julianoj era. Pode subir que eu
vou te trancar.
 juliano deu um sorriso estranho e subiu de volta. Sa
do pavilho, cruzei a Divinia e bati no porto que leva 
portaria. Atravs dajanelinha, o porteiro
da noite me mediu de alto a baixo.
- Quem  voc?
- Sou mdico, estava atendendo no Quatro.
 Encarou-me outra vez, demoradamente, depois abaixou o
olhar na direo da minha cala:
 -  o seguinte: eu vou falar com o planto, e se
ningum te conhecer, voc fica.
 - Sou mdico, pode perguntar para o funcionrio que me
abriu a gaiola do Quatro.
 - No  voc que vai me dizer para quem eu devo
perguntar. Espera a.
 Desconfiado, olhou fixo nos meus olhos e saiu sem
pressa na direo da Ratoeira.
 Apesar de saber que tudo acabaria esclarecido, o fato
de estar do lado de dentro e experimentar a rudeza do contato
com aquele que tinha a posse da chave
provocou-me certo des-

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conforto, talvez semelhante ao expresso pelo sorriso do
juliano quando ele subiu para ser trancado no xadrez.

 No final dei sorte, o porteiro voltou com um
funcionrio que me conhecia e se desculpou:
 - No leva a mal, doutor, so 7 mil a dentro. A minha
cara  desconfiar!


                              BIOTONICO FONTOURA
 Nas semanas subseqentes, a realidade demonstrou-se
mais complexa do que eu imaginava. O nmero de doentes que
vinha dos pavilhes para atendimento ambulatorial
aumentava sem parar. No eram apenas os casos de AIDS e
tuberculose, a clientela tornou-se variada: facadas, acessos
de asma, diabticos, hipertensos, abscessos,
craqueiros dispnicos, paraplgicos com escaras, epilpticos
em crise, dermatites diversas e, inclusive, gente saudvel com
inteno de tirar vantagem do mdico
ingenuo. Parecia um miniptio de milagres.
 Eu tinha que ser rpido: ouvir as queixas, palpar,
auscultar, olhar, fazer o diagnstico e receitar o medicamento
em cinco minutos no mximo. Sem errar,
se possvel. Medicina de antigamente: ouvir, examinar e dar o
remdio.
 Intil solicitar exames laboratoriais porque os
resultados, quando vinham, no chegavam a tempo de auxiliar na
conduta. Uma velha mquina de raio X passava
semanas quebrada ou aguardando licitao para a compra de
filme radiogrfico.
 Dificuldades no faltavam. A medicao prescrita
percorria complicadas vias burocrticas, e, nas freqentes
transferncias dos detentos de um pavilho para
outro, perdia-se no ca minho. A burocracia era tanta que as
internaes e altas da enfermaria eram batidas em seis cpias,
trazidas para assinar sem papel-carbono.
Muitas vezes, como  caracterstico no servio pblico,
existia fartura de antibiticos e antivirais carssimos,
enquanto faltava aspirina e remdio para sarna.

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 Ao lado desses problemas operacionais, havia a
ignorncia dos pacientes. Classicamente, no tratamento da
tuberculose os sintomas costumam desaparecer ao
redor de quatro a oito semanas, porm a medicao deve ser
mantida por seis meses, no mnimo, sob risco de recada e,
pior, do aparecimento de bacilos resistentes
altamente letais que podem infectar os contatuantes. Manter
adeso ao esquema prescrito era dificuldade intransponvel
para a maioria dos doentes, muitos dos quais

dependentes de drogas de uso compulsivo como o crack.
 Para complicar, eu no estava  altura daquela clnica
antiquada, sem imagens radiolgicas OU confirmao
laboratorial. O espectro das patologias era amplo
demais para algum como eu, treinado na poca das
especializaes.
 As doenas de pele, por exemplo, epidmicas nas celas
apinhadas, compreendiam a dermatologia inteira: eczemas,
alergias, infeces, picadas de percevejos,
sarna e a muquirana, um caro ousado que se esconde nas dobras
das roupas, capaz de saltar longas distncias de uma pessoa 
outra.
Uma vez, chegou um doente chamado Mil e Um, refern-
cia  falta dos quatro incisivos na arcada superior, que
cumpria trinta dias de castigo na isolada porque apreenderam
em seu
xadrez duzentos gramas de crack e oito aparelhos de televiso,
supostamente tomados de devedores inadimplentes. Ele era
Hivpositivo e tinha feridas pequenas espalhadas nas pernas,
coxas e parte inferior do abdmen, das quais
saa um lquido claro e minsculas larvas brancas,
rastejantes. No parou um segundo de se coar enquanto falou
comigo. Tratei a infeco associada e, frustrado,
fiquei sem saber que agente era aquele, porque Mil e Um foi
transferido para a Penitenciria, no desdobramento do caso dos
televisores.
 De todos os problemas, entretanto, o pior era a
mentira. Naquele lugar,  tudo complicado. Ao lado de
pacientes graves,

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outros fingem doena, e separar os dois grupos nem sempre 
fcil para o mdico. O preso entrava plido, cabelo amarrota-
do, referindo fraqueza, diarria, vmitos, tontura e malestar.
A aparncia era de pessoa doente, mas como ter certeza? A pa-
lidez podia ser conseqncia do jejum intencional, da noite
sem dormir, do crack ou do talento de ator; as queixas
subJetivas,
como comprovar? O objetivo dos fingidos era conseguir trans-
ferncia para a enfermaria ou evitar a alta e terem que
deix-la. Apesar da precariedade das instalaes, aquele lugar
era um
luxo, como explicou Juliano:
 - Eles chegam na piolhagem, porque isso aqui  hotel
trs estrelas, vista do lugar daonde que eles so originados.
 Quase todos pediam receitas de vitaminas, com estranha
predileo pela B12 injetvel. De incio, achei que era por se
sentirem fracos e considerarem pobre a alimentao servida
pela Casa. Cheguei at a fazer algumas dessas prescries
inteis,
pensando num possvel efeito placebo que lhes desse conforto
psicolgico. Logo percebi que entre os habitantes da cadeia
tam-
bm estava na moda a crena nos poderes miraculosos das vi-
taminas e sais minerais, criando um movimentado comrcio
paralelo desses produtos, no qual a dolorida injeo de B12,
por exemplo, valia cinco pedras de crack.
 Descobri graas  honestidade do Pequeno, o baixinho
de lngua presa que confessava ter assassinado os quatro Pms
que
teriam matado seus pais e que apanhava feito gente grande cada
vez que o peloto de choque revistava a cadeia:
 - Doutor, preciso de umas vitaminas, mas no vou enga-
nar a sua pessoa. No  que eu vou tomar elas, vou vender para
comprar sabonete e papel higinico. Sou sozinho, no recebo
visita e me viro com a ajuda dos mdicos.
 Fiquei atrapalhado. Havia fornecido prescries para
di-
versos mentirosos, estaria certo negar para o nico sincero?
Por
 xxx-io aps descobrir o

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outro lado, proteger esse pequeno delito tornava-me cmplice
do Pequeno e sabe l de quantos mais, no futuro. Neguei, com
uma ponta de remorso:
 - Pequeno, at aqui eu no sabia da existncia desse
comrcio. De hoje em diante, no receito vitamina para mais
ningum.
Ele respondeu:
- Se  assim, para ningum mais, o senhor tem o meu respeito.
Desde ento, nunca mais prescrevi vitaminas, ganhei a
considerao do Pequeno e aprendi que um dos segredos da
quele lugar era no abrir excees: fez para
um, difcil negar para os outros.
Outra vez, apareceu um descendente de rabes, nariz
avantajado, cheio de correntes embaraadas nos plos do peito:
- Doutor, preciso uma receita de Biotnico Fontoura que eu
tomo desde pequeno, para a minha famlia trazer na visita.
Eu nem sabia que ainda fabricavam o tal tnico revigorante e
dei a receita ao Turco, alcunha bvia desse personagem que
anos mais tarde fugiu por um tnel cavado
no pavilho
Sete; sem ela o Biotnico trazido pelas visitas seria barrado
na portaria.
Depois dessa solicitao, vieram outras; sempre a histria
do Biotnico Fontoura da mame. Mesno esquema das vitaminas,
nada vi de errado em receitar o assim
chamado fortificante, uma vez que eram as famlias que o
compravam, e se o preso decidisse posteriormente vend-lo,
problema dele.
Uma tarde, ao cruzar a Divinia, encontrei o chefe do servio
mdico, meu ex-professor:
 - Vocs agora tratam AIDS com Biotnico Fontoura?
Qual  a gozao?

93

- Ningum te avisou que  proibido? Eles bebem ???mistura,-a,
a pga deffiada eSaridesiinamente. Uns anos atrs, de tanto
ouvir falar nessa maria-louca com Biotnico,
resolvi experimentar. Um preso trouxe uma xcara cheia,
anunciando pela galeria que estava chegando o caf forte do
dr. Mrio.
- E que gosto tem?
- Gosto de fogo adocicado!
 Na semana seguinte, na enfermaria, reclamei com meus
auxiliares:
 - Prescrevo Biotnco para malandro colocar na
maria-louca e ningum me diz nada!
 Eles riram, sem graa. Menos o Pedrinho, que respondeu
srio:
 - Doutor, o senhor ajuda ns e ns agimos legal com o
senhor. Pode confiar, mas no conta com a gente para entregar
os companheiros.

94

 Devagar, aprendi que a cadeia infantiliza o homem e
que tratar de presos requer sabedoria peditrica. Muitas vezes
 suficiente deiX-los se queixar ou simplesmente
concordar com a intensidade do sofrimento que referem sentir,
para alivi-los. O ar de revolta que muitos traziam para a
consulta desaparecia depois que lhes palpava
o corpo e auscultava pulmes e corao. No final, no era raro
encontrar ternura no olhar deles. A pacincia de escutar e o
contato do exame fsico desarmavam o
ladro.
 Ainda assim, os acontecimentos dirios deixavam claro
que a complexidade daquele trabalho exigia ateno permanente
e discernimento para saber o que no
deveria ser dito.
 Um dia de chuva, entrou um ladro do pavilho Sete
enrolado num cobertor, feito um beduno do deserto, apenas os
olhos de fora. Tinha os lbios rachados
de febre, a conjuntiva amarelo -avermelhada e uma dor to
forte nos msculos que gritou quando lhe apertei a
panturrilha.
 Era leptospirose, doena transmitida pela urina do
rato, comum naquela poca do ano em que chovia toda tarde, o
Tiet transbordava para a Marginal e o trnsito
na regio do Carandru virava um inferno. Com tantos ratos e
tantos esgotos entupidos, no era de estranhar a ocorrncia de
um ou outro caso. Aquela manh, entretanto,
estava atpica: em duas horas de atendimento, era o quarto
doente com os mesmos sintomas. Muita coincidncia.
 Enquanto o ladro falava, dei uma espiada nas fichas
dos tres pacientes anteriores e verifiquei que todos vinham do
Sete, justamente o pavilho mais prximo
da muralha. Quando ele terminou de relatar seus sintomas,
perguntei-lhe em tom de brincadeira:
- Voc tambm trabalha no tnel?
 Brincadeira infeliz! O rapaz ficou mais plido ainda,
os olhos amarelos arregalaram para dentro dos meus. Como se

96

tivesse ficado surdo, Edelso, o falso mdico, retirou-se da
sala. Percebi que, imprudente, havia cruzado uma barreira
perigosa. Na cadeia, certos temas queimam a
lngua de quem fala e os ouvidos que escutam.
 Parece que ficamos horas ali, tensos, naquele olhar
mudo, at eu romper o silncio:
 - Desculpa, estou brincando. Nunca vi tanta
leptospirose como hoje. Voc  a quarta pessoa.
- Doutor, agora o senhor me complicou.
 Desconcertado pela surpresa, ele no negou nem
confirmou o trabalho no tnel. Procurei tranqiliz-lo:
 - Olha, no sou polcia, venho aqui para atender quem
est doente. Pode confiar.
- Pelo amor de Deus, doutor, essa fila pode gerar desgra-
a em mim e nos companheiros que passaram por aqui hoje.
- j nem sei de que assunto voc est falando.
 Lentamente, seu rosto se desanuviou. Sugeri-lhe que
ficasse internado na enfermaria, mas ele recusou; preferiu
tomar antibitico no xadrez. Disse que podia
contar com a ajuda dos companheiros.
 Duas ou trs semanas depois, em casa, no caf da
manh, abro o jornal: "Detentos fogem atravs de tnel no
Carandiru".
 O buraco, escondido atrs de uma imagem de Nossa
Senhora Aparecida, foi aberto numa sala do Patronato, rea
onde os presos trabalham, no trreo do Sete,
passou sob a muralha e terminou na sala de jantar de uma casa
da rua vizinha ao presdio. H quem diga haver percorrido o
caminho inverso: da sala da casa em direo
ao Patronato do Sete.
 Alheios ao risco de desabamento, os homens rastejaram
mais de cem metros pelo tnel inundado, com ratos afogados,
boiando. Um dos primeiros a passar derrubou
uma lmpada da iluminao improvisada que, em contato com a
gua, eletri-

97

ficou o trajeto. Na escurido, espremidos entre as paredes do
buraco, tomando choque no corpo molhado, sessenta e trs
homens escaparam para a liberdade.
 S no fugiu mais gente porque um deles, obeso,
entalou na boca do tnel disfarada atrs da santa. O Rolha,
conforme ficou conhecido esse rapaz, foi transferido
da Deteno s pressas, para no ser morto pelos companheiros
frustrados que vinham atrs, na fila.

98

                              ANJOS-DEMNIOS
 A Faxina  a espinha dorsal da cadeia. Sem entender
sua estrutura, impossvel compreender o dia-a-dia, dos
momentos corriqueiros aos mais agudos.
 Sua funo  "pagar a bia", isto , distribuir cela
por cela as trs refeies dirias e cuidar da limpeza geral.
O nmero de faxineiros varia conforme
o pavilho. Naqueles com menos gente, como  o caso do Quatro,
do Seis ou do Sete, eles so cerca de vinte; nos mais
populosos, como o Cinco, o Oito e o Nove, pavilhes
com mais de mil prisioneiros cada, so necessrios de 150 a
duzentos faxinas, divididos entre os que servem comida e
aqueles que tiram o lixo, varrem e lavam tudo.
 A Faxina tem hierarquia militar. Os recm-admitidos
recebem ordens dos mais velhos e em cada andar h um
encarregado que presta contas ao encarregado -geral
do pavilho. De acordo com a gravidade do problema, pode haver
contato entre os encarregados- gerais, mas o comando 
estanque ao pavilho, no existe um chefe
supremo da cadeia. Alis, chamar os encarregados de chefes 
ofend-los, bem como a seus subalternos:
- Quem tem chefe  ndio.
 Aos funcionrios no cabe escolher faxineiros,  a
corporao que recruta seus membros. Para ser aceito, o
candidato no pode ter delatado companheiro nem
ter sido responsvel pela priso de algum, no pode estar
endividado, no pode ter ameaado de morte um desafeto e no
cumprir, no pode ter le-

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vado um tapa na cara nem assumido o papel de "laranja", ou
seja, ter se responsabilizado pela ao cometida por outro.
Enfim:
- No pode ter mancada no Crime.

 Um dos faxinas da enfermaria resume os requisitos em
linhas mais abrangentes:
 - O faxina  um ser humano como qualquer preso, mas
tem que ter libi com a malandragem. No pode ser pilantra.
 A corporao  especialmente zelosa do comportamento
sexual de seus membros. Estuprador jamais  aceito, e, se
desmascarado, corre perigo de vida. Preso
abusado sexualmente s ser admitido se matar seus ofensores.
Se for homossexual, ento:
 - A  que entra menos ainda. No tem cabimento uma
pessoa que pratica coisas com a bunda vim mexer na alimentao
da coletividade.
 Quando um membro  recrutado, os mais velhos expli
cam-lhe as regras de procedimento: no fazer dvida, respeitar
visitas alheias, ajudar os necessitados,
colaborar para a soluo das desavenas e obedecer s decises
do grupo. Em caso de receber ordem que considere injusta,
primeiro deve cumpri-la e depois, com respeito,
discuti-la com os superiores. Se a ordem for extrema, dever
soltar a faca com os demais.  uma famlia: mexeu com um,
comprou briga geral.
 A unio assegura autoridade irrefutvel  Faxina. Para
enfrent-la seria preciso organizar um grupo mais forte, capaz
de desencadear uma guerra interna
pelo poder, acontecimen to altamente improvvel porm no
impossvel, como veremos mais tarde.

 De sua parte, a administrao do presdio tem uma
viso darwiniana do processo, como deixa claro um antigo
diretor, famoso por lutar boxe com os detentos
mais fortes:
 - Na competio, os presos mais hbeis dominam os
fracos.  inevitvel. Ns no impomos um chefe para eles -
seria

100

timo se pudssemos. O que ns fazemos  tirar partido da
seleo natural do lder, usando a estrutura da Faxina para
que
ele assuma o comando dos outros. Se cada um fizesse o que bem
entende, quem controlaria isso aqui?

 O dilogo da administrao com a cpula da Faxina 
undamental para a manuteno da ordem. Uma tarde, houve uma
reunio do diretor com os encarregados-
gerais dos pavilhes, para acabar com a moda de fazer
funcionrios refns em ponta de faca como meio de forar
transferncia para outros presdios. O diretor prometeu
agilizar a burocracia das transferncias e os encarregados
assumiram o compromisso de acalmar os desesperanados. Por
mgica, a paz estendeu seu manto sobre a Deteno.
Reunio do diretor de Disciplina com o encarregado-ge-

ral parece a do presidente da companhia com o
gerente-executivo: voz baixa, cada um explica o que quer e at
onde pode chegar. Compromisso assumido  compromisso
cumprido.
 A Faxina  absolutamente fundamental no controle da
violncia interna. Se algum deve e no paga, o credor no
pode

soltar a faca sem antes conversar com o encarregado -geral,
que ouve as partes e d um prazo para a situao ser
resolvida. Antes que este expire, pobre do credor
que ousar agredir o outro. Sem o aval do encarregado - geral,
nada pode ser feito:
 - Porque  ele que segura todas as ocorrncias do
pavlho. Naquele momento, podem estar cavando um tnel,
armando um plano de fuga, e uma facada fora de
hora pe tudo por gua abaixo.
Uma vez, Zico, com fama de bandido na Vila Guaram,

reconheceu a fisionomia de um recm-chegado no pavilho Nove e
foi conversar com o encarregado -geral, um negro de lbios
grossos conhecido como Bolacha, ladro
de longa carreira:
 - Quero pedir licena para dar uma lio nesse
pilantra.  estuprador, abusou da amiga da minha irm, l na
vila!

101

 Bolacha ouviu em silncio e, quando o outro terminou o
relato, voltou-se para ele:
 - Se  como voc diz, que ele desrespeitou a
honestidade da moa, que a me dela deu parte na delegacia,
deve de existir um boletim de ocorrncia.  moleza,
escreve para a tua vizinha e manda ela trazer cpia desse be,
que est liberado.
 Zico seguiu a orientao  risca. O flagrante, de
fato, havia sido lavrado e o xerox comprovava a verso
apresentada ao Bolacha. Foi autorizado a matar o
estuprador.
 Recebida a autorizao, porm, Zco ouviu os amigos e
refletiu que talvez no fosse aquela a melhor atitude. No
tinha nenhum laranja para assumir seu lugar
na autoria do futuro crime: certamente seria condenado a
muitos anos mais, logo agora que estava prestes a conseguir
transferncia para a Colnia, em regime semiaberto.
 Alguns dias depois, Zico foi chamado no xadrez do
Bolacha na presena de testemunhas:
 - Zico, qual  a tua, meu? Est esperando o que para
resolver o caso daquele pilantra?
 - Bolacha, sucedeu-se que subiu meu recurso para a
Colnia e eu achei melhor deixar quieto por enquanto e acertar
ele na rua.

 - O, Zico, agora voc me desapontou! Pede para matar o
cara, traz prova do estupro e depois muda as idias. Arruma
tuas coisas e atravessa para o Cinco,
que o Nove ficou pequeno para voc. Voc no  do Crime, meu.
Voc  um cmico.
 Atendendo pedido do prprio Zico, os funcionrios
endossaram a deciso da Faxina e bateram a transferncia para
o pavilho Cinco. Z da Casa Verde, marido
de duas mulheres, na poca internado na enfermaria, fez o
seguinte comentrio a respeito da atitude dos faxineiros neste
episdio:

102

 - A Faxina tanto faz para auxiliar, como ajuda a
prejudicar. Eles so anjos-demnios.
 Entrar para a Faxina  estratgia perigosa de
sobrevivncia: de um lado, a proteo do grupo; de outro, a
obedincia cega s ordens dos superiores, para
o bem ou para o mal.
 Quem chega ao topo da hierarquia deve ser homem de
respeito e estar preso h alguns anos para conhecer o
ambiente. Idade no  documento e no mundo do crime
de pouca valia  a fora fsica individual, ao contrrio do
que muitos pensam. Conheci um encarregado franzino, de 25
anos, que comandava um pavilho com 1600 homens.
E o maior brutamontes da cadeia foi assassinado enquanto
dormia, por um branquinho obstinado de 44 quilos.
 O comando da Faxina jamais  entregue a um facnora
desmiolado. Todos os encarregados -gerais que conheci eram
homens de poucas palavras e extremo bom senso,
que assumiram a liderana graas  habilidade de resolver
conflitos e formar coalizes.
 Abro, um nordestino atarracado, ex-proprietrio de
inferninho no cais de Santos, cumprindo 25 anos pela morte de
um cliente abusado que bateu numa das prostitutas
de seu harem, ressaltou as seguintes qualidades do encarregado
-geral:
 - Ele tem que ter cacife, situao verbal boa, escutar
muito e falar pouco, para no dar aproximao. Tem que ter
equilbrio nas atitudes para dizer um isso
est certo, um aquilo est errado, um voc pega suas coisas e
atravessa para o Cinco. Aqui, no  como na rua, que um louco
pode ser chefe de seo, gerente de firma,
chegar at presidente da repblica que nem aquele, que diz que
cheirava farinha e tinha cara mesmo. Aqui, o lder  o que
sabe ouvir a voz da razo, debater com
os companheiros e se agrupar para ficar forte, porque, como 
o dito, contra a fora no h resistncia.
103

  rdua a rotina do encarregado. Do momento em que as
celas se abrem at o horrio da tranca,  preciso estar
atento. Para se afastar do pavilho por cinco
minutos que seja, tem que deixar o subencarregado em seu
posto. A necessidade desta precauo tem justificativa:
 - Em cinco minutos muita desgraa pode acontecer numa
cadeia.
 Vivem atarefados. Na enfermaria, atendi dois deles com
sintomas visveis de estresse, como se fossem altos executivos
de multinacional ou, como prefere dizer
o Bolacha, como se fossem juzes de direito:
 - l acordo cheio de problema:  o cara que quer
acertar uma bronca da rua, um que precisa matar o pilantra,
cavar um tnel, cobrar dvida, o outro que ouviu
uma palavra mal colocada, e vai assim at a tranca. Precisa
apaziguar tanta zica, doutor, que pareo pai de famlia, s
acalmo de noite, depois que todos foram para
a cama.
 Na verdade, nas fases mais agitadas do pavilho, nem
na cama Bolacha tinha sossego:
 - No silncio da noite, a mente trabalha solitria
porque a deciso final  minha e dela depende a sorte de um
ser humano. Sou o juiz do pavilho. S que
o juiz da rua trabalha aquelas horinhas dele e vai para casa
com o motorista; eu,  24 por 48. Ele, s tem que julgar se o
acusado vai preso; no mximo, dar uma
pena mais longa. Eu, assino pena de morte.

                               OS FUNCIONRIOS
 No incio, fiquei com a impresso de que os
funcionrios no confiavam em mim. Depois, tive certeza. Eram
arredios, mais tarde me contaram, por acharem que
eu estaria ligado s associaes de defesa dos direitos
humanos ou teria interesses polticos.
 Nos primeiros anos, descontados o Waldemar Gonalves,
que virou amigo ntimo, mais uns dois ou trs, os restantes
mudavam de assunto  minha chegada. Se,
por curiosidade, eu fazia uma pergunta sobre a mais
corriqueira ocorrncia, da vam respostas evasivas.
 Depois de uma palestra no cinema do pavilho Seis,
cruzei com um rapaz ensangentado a caminho da enfermaria e
perguntei ao funcionrio que o escoltava o
que havia acontecido:
- Despencou uma telha na cabea dele.
 Outra vez, encontrei uma confuso na Divinia. Gente
que entrava e saa da sala de Revista, lotada; nimos
exaltados. Certamente tinham flagrado algum com
algo proibido. Quando perguntei o que se passava a um senhor
baixinho que guardava o porto de acesso  Divinia (onde anos
depois encontrou a morte, prensado por
um caminho de lixo numa tentativa cinematogrfica de fuga),
ele respondeu srio:
- Um colega se sentiu mal com o calor.
 A desconfiana no tinha motivao pessoal. Nada que
eu tivesse feito ou dito poderia justific-la. Na verdade,
guardas de presdio no gostam de pessoas
estranhas no ambiente de traba-
lho. A realidade  desconcertante numa priso, o que parece
certo muitas vezes est errado, e aparentes absurdos encontram
lgica em funo das circunstncias. O
visitante, ingnuo, tira concluses precipitadas e pode fazer
comentrios indiscretos que eventualmente cheguem aos ouvidos
da Corregedoria, encarregada de investigar
abusos de autoridade, ou  redao dos jornais.
 Os militantes das associaes de defesa dos direitos
humanos e da Pastoral carcerria da Igreja Catlica de um modo
geral so malvistos. Os funcionrios
dizem que eles s esto interessados nos direitos dos
bandidos.
 - Doutor, nesse tempo, o senhor j perdeu a conta de
quantos colegas nossos foram agentados em ponta de faca. No
tem humilhao pior para um pai de famlia.
S quem passou por isso pode contar. Alguma vez o senhor viu
chegar algum dos direitos humanos ou esses padres da Pastoral
pra dar apoio ao funcionrio?
Respondi que, de fato, nunca tinha visto. Ele prosseguiu:
 - Um homem que no fazia mal para uma mosca, como o
seu Joozinho, morreu esmagado pelo caminho de lixo no porto
da Divinia, naquela tentativa de fuga.
Pergunta se algum veio dizer uma palavra de conforto para a
viva? Agora, vai dar um tapa num ordinrio sem-vergonha
qualquer para ver o processo que eles armam
para a gente!
 Os jornalistas, por sua vez, so mestres no desagrado,
conseguem inimizades entre gregos e troianos. De medo que
alguma vtima antiga lhes reconhea a fisionomia
e novos processos aumentem o dbito com a justia, os presos
fogem das objetivas como o diabo da cruz. Apontar-lhes uma
mquina fotogrfica ou cmera de TV faz com
que cubram o rosto e de sapaream mais depressa do que diante
da metralhadora de um Pm. Os funcionrios tambm evitam a
imprensa, dizem que ela s serve para
criticar e distorcer o que  dito.

106

 Uma vez, seis detentos seqestraram um grupo de
carcereiros na lavanderia, junto ao pavilho Seis, para exigir
transferncia de presdio, procedimento que
se tornou rotina aps o massacre do Nove. Quando cheguei, a
frente da cadeia, nos baixos do elevado por onde passa o
metr, estava cheia de cmeras, microfones e
carros de reportagem. Ao entrar na Casa, perguntei a um dos
diretores que participava das negociaes a razo do alvoroo:
 - So abutres, doutor. Pousam aqui quando pressentem
qualquer desgraa que ajude a venderjornal.
 A convivncia encarregou-se de quebrar a resistncia
da corporao  minha pessoa, como disse seu Aparecido
Fidlis, funcionario experiente, enquanto tomvamos
um chope no Recanto Nordestino, ao lado da cadeia:
 - Com o passar dos anos, ns percebemos que o senhor
veio para somar.
 A partir da, tive ampla liberdade. Pude circular at
nas reas de segurana, do Amarelo  Masmorra. Andar sozinho
pela cadeia no meio dos ladres transmitiu-me
uma sensao de autoconfiana que no ficou limitada ao espao
interno do presdio.
 Hoje, h funcionrios que demonstram ao me ver a mesma
alegria que sinto ao encontr-los. Conversamos sobre o tra
balho, problemas de sade, agruras financeiras
(que no so poucas entre eles), dificuldades com a famlia e
desencontros com as mulheres (que so muitas). O respeito
entre ns reforou os laos que me prenderam
 Deteno.
 A vida que levam  dura. Para sobreviver dignamente, o
salrio no d. Os que teimam na honestidade, fazem bico como
segurana em banco, supermercado, loja,
boate ou casa de tolerncia.
 Boa parte desse trabalho  a servio de empresas
clandestinas, sem direitos trabalhistas. Nem armamento
recebem,

107

utilizam o revlver pessoal, geralmente no legalizado, uma
vez que a categoria no tem direito a porte de arma. Num
assalto, se forem feridos ou matarem o assaltante,
a empresa pode se eximir da responsabilidade. No existe
vnculo empregatcio. Se morrerem, a famlia que se arranje
com a penso do Estado.
 A jornada de trabalho  interminvel. Os que do
planto noturno saem s sete da manh diretamente para o bico.
Cama, somente na noite seguinte, quando folgam
na cadeia. O pessoal do diurno inverte. Aqueles que cumprem
horrio fixo, das oito s dezoito, diariamente, ficam em
situao pior: cochilam algu mas horas no servio
e  s. Deitar na cama, s na folga do final de semana. A
ausncia de casa desarticula a rotina familiar, destri
casamentos e d ensejo a vidas duplas, dividindo-os
entre a esposa e outras mulheres. Para agentar a tenso
inerente  atividade e o cansao das noites, muitos abusam da
bebida. Alcoolismo e obesidade so doenas
prevalentes entre guardas de presdio. Bebem para valer, no 
fcil acompanh-los.
 Uma noite, aps a distribuio do quarto nmero do
Vira Lata, o gibi ertico de preveno  AIDS, juntei a equipe
que participou do trabalho e fomos para
o bar na frente da Deteno, chamado Alcatraz.
 Ao chegarmos, l pelas onze da noite, encontramos um
grupo de funcionrios do diurno que bebia desde a sada, s
sete. Ambiente de botequim: balco congestionado
de garrafa de cerveja, pratinho com calabresa acebolada,
msica de vitrola automtica, falatrio e fumaa de cigarro.
Um dos carcereiros, quando me viu, estendeu-me
a mo e com a voz de quem tem uma batata quente na boca, fez
um pequeno discurso:
 - Doutor Vrella, quanta honra esta figura cientfica
aqui, com este humilde funa, que no entanto  uma pessoa
humana que tem no corao tanta dignidade
como o senhor e neste

108

momento de confraternizao faz questo absoluta de
oferecer-lhe uma pinga, que o senhor ter a fidalguia de
aceitar.
 Apesar do vernculo persuasivo, titubeei; a
distribuio da revista havia atrapalhado a minha rotina de
tal forma que eu estava apenas com o caf da manh.
Aquela pinga, em jejum, no ia fazer bem. Diante da hesitao,
um colega mais sbrio do funcionrio cambaleante veio em meu
auxlio:
 - Deixa quieto, que o doutor no  homem de tomar
pinga em botequim.
 A observao tocou meus brios. Respondi que honrado
era eu, por beber em to distinta companhia.
 Veio um daqueles copos de bar com frisos paralelos e
uma dose para l de generosa: dois teros do copo. Com os
olhares voltados para mim, dei um gole de
homem, como eles. O lquido escorreu incandescente pelo
esfago, deu um tranco na boca do estmago e um baque
instantneo no crebro. Senti o corpo arrepiar.
 A o Waldemar sugeriu um frango a passarinho, no
capricho, especialidade do Alcatraz, acompanhado de cerveja, 
claro, e da voz melodiosa da Alcione cantando
"Nem morta" Quando a msica acabava, algum punha outra ficha
na vitrola e a cantora repetia o "Nem morta" A Alcione e o
copo cheio pareciam moto-contnuo.
 Cheguei em casa e entrei no chuveiro com o gosto do
franguinho encharcado no leo do Alcatraz e as imagens da
cadeia. No meio do banho, tomei um susto com
a voz da minha mulher:
- Isso  hora de ouvir samba nesse volume?
- O rdio nem est ligado!
- Lgico, acabei de desligar. Voc nem percebeu?
No  inteno transmitir uma viso romntica desses
homens, mesmo porque alguns no valem defesa. Envolvem-se

109

com os ladres, aceitam propinas nas transferncias de xadrez,
cobram pedgio nas portas dos pavilhes, compactuam com o
trfico e vendem facas para defesa pessoal.
Corrupo p-dechinelo, universal nos presdios. Impossvel de
acabar. Provavelmente participam tambm de contravenes mais
graves, como facilitao de fugas (um
diretor-geral que assumiu logo aps o massacre do Nove acabou
preso no coc, por envolvimento em vrias delas), ou deixam
entrar armas de fogo, prtica arriscada
que provoca atitudes agressivas nos prprios colegas postos em
risco.
 Os que agem assim tornam-se indistinguveis dos
ladres, porque, como afirmam os de conduta sria:
- Quem anda com porco, come farelo.
 A convivncia prolongada com a malandragem, a falta
crnica de dinheiro e a prpria burocracia da justia
brasileira fermentam o caldo da corrupo.
 Um antigo diretor, certa vez, recebeu denncia de que
o funcionrio encarregado de dar andamento  papelada dos
detentos no Frum cobrava servio por fora.
Sem dar dinheiro para ele, podia-se mofar na cadeia. O diretor
passou-lhe uma descompostura, transferiu-o para vigiar o
porto do pavilho Nove e nomeou uma pessoa
de sua confiana para a estratgica funo, porque quando
cessam as transferncias para o regime semi-aberto e as
libertaes, o ambiente fica pssimo, pronto para
explodir.
 Pois bem: semanas depois, em meio ao descontentamento
crescente da massa carcerria, e sem conseguir fazer andar
papel nenhum, o funcionrio de confiana
voltou ao diretor:
 - Doutor, quer um conselho? Devolve fulano para a
funo. S ele conhece o caminho das pedras no Frum. Ali, sem
caixinha, cria teia de aranha.
 O diretor, um homem de senso prtico que comeou a
vida batendo de cassetete em cabea de bbado criador de caso

no cais de Santos, resolveu no dar murro em ponta de faca e
chamou o funcionrio malandro:
 - Olha aqui, fulano, faz quase um ms que voc abre e
fecha porta para vagabundo, no Nove. Deu tempo de aprender a
lio. Volta para o Frum e faa o que
for necessrio para andar os papis do pessoal, antes que a
situao fique pior do que est.
 justia seja feita, porm: h muitos guardas de
presdio srios, apesar da m fama da profisso, dos salrios
ridculos, do risco de contrair tuberculose,
virar refm ou morrer na ponta de uma faca. No fossem eles,
seria impossvel tocar a cadeia.
Seguindo a tradio do servio pblico brasileiro, na De-
teno so muitos os servidores inativos e pouquissimos nas
funes produtivas. Alm disso, a desvalorizao da carreira
de guarda de presdio provocou desero
de muitos homens experientes, forando a contratao de jovens
sem treinamento adequado.
 Uma vez, na Radial, junto ao porto que separa o Seis
do Dois, em voz baixa o Chico Bagana, ladro de muitas
passagens pela Casa, gozador empedernido, chamou
minha ateno para o novato da guarita:
 - Doutor, v se tem cabimento botar um menino desses
para tomar conta da gente. Ele est amarelo de medo.
 Esses fatores, aliados ao absentesmo, criam situaes
surrealistas. Durante o dia, por exemplo, de dez a doze
funcionrios tomam conta de um pavilho como
o Oito, com mais de 1500 detentos reincidentes;  noite, o
nmero cai para seis ou sete. Para cuidar dos 1600 presos do
Cinco, a mesma precariedade.
 Como um grupo to pequeno de homens sem armas consegue
controlar um presdio daquele tamanho  um dos mistrios da
cadeia. Talvez o maior. A estrutura 
to frgil que a nica explicao para no ocorrerem fugas
espetaculares, daquelas de esvaziar pavilho,  a dada pelo
seu Reinaldo, da portaria:
- A nossa sorte  que eles no falam a mesma lngua.
 Reduzido  essncia, o trabalho dos carcereiros
consiste em dividir a malandragem, maquiavelicamente. Como diz
seu Bonilha, ex-diretor do Cinco, que uma
vez pagou do bolso um pacote de cigarro que um ladro devia,
s para evitar um homicdio a mais em seu pavilho:
- Eu passo o dia jogando areia na deles.
 Seu Fidlis, cadeeiro da velha guarda, diz que o
segredo do oficio  tirar partido do conflito de interesses
entre os detentos:
 - Doutor, o Crime  uma profisso. O malandro de
verdade chega aqui para tirar a cadeia em paz, voltar para a
rua o mais rpido possvel e assaltar, que
essa  a vida dele. Ele segura os companheiros, no se envolve
em plano de fuga, droga ou facada, para no comprometer o
objetivo de ir embora. Sem perceber, o maior
bandido acaba nosso aliado.
 A habilidade para estabelecer alianas com as pessoas
certas, os lderes da massa carcerria,  essencial para o bom
anda mento da cadeia e para a segurana
fsica do funcionrio.
 O convvio com os presidirios  capaz de criar
slidas relaes de amizade. Para o homem preso, o carcereiro
representa o contato com a sociedade exterior
- o nico, no caso dos que no recebem visitas. Um pequeno
favor, o apoio numa hora difcil ou a simples pacincia para
escutar um desabafo despertam no detento
extrema considerao pelo funcionrio. O respeito mtuo 
parte do equilbrio de foras que se estabelece na cadeia e
pode ser decisivo para preservar a vida nos
momentos de violncia irracional.
 Nos dias conturbados que se seguiram ao massacre de
1992, a malandragem de moral chegava a escoltar funcionrios
at a sada, para evitar possveis represlias
da massa revoltada.
 Ao lado das amizades certas, uma boa equipe de
delatores  fundamental para a paz interna. O alcageta 
personagem

112

to velho quanto os presdios. Delata a troco de uma vantagem
pessoal: transferncia, pagamento de dvida, vingana, inveja,
intriga de mulher ou para eliminar o
traficante concorrente, como diz seu Florisval, que comeou
como carcereiro e chegou a diretor:
 - Quando aparece um alcageta, procuro ver se a
informao que ele traz vale a vantagem que ele quer tirar.
 Luiso, legendrio ex-diretor da Casa, jura que era
capaz de identificar aqueles nos quais a alcagetagem 
qualidade inata:
- Ele j nasce alcageta, doutor.
 atividade de alto risco no mundo do crime; passvel de
execuo sumaria. Ainda assim, para desespero da malandragem,
como admite pesarosamente o SemChance:
- Tem sempre um cageta na fita, doutor.  sem chance.
 Numa cadeia, como os acontecimentos so descritos
segundo a verso preferida de cada narrador, ningum sabe de
que lado est a verdade. Ouvir dez pessoas
 escutar dez histrias, e separar o joio do trigo, um
quebra-cabea que exige preparo intelectual. O funcionrio
experiente registra tudo o que se passa ao redor,
mesmo o insignificante. Quando surge um problema, ouve os
bem-informados, chama o chefe da Faxina, debate com os colegas
e convoca os delatores. At tomar a deciso
final:

- A gente pisa em ovos; qualquer deslize pode acabar
em morte.
 Quando quer descobrir culpados, seu Jesus, diretor de
Vigilncia, diz que evita movimentos bruscos:
- Eu cutuco de leve e espero para ver onde a ona vai

gritar.
 So espertos; na astcia, confundem a malandragem
desunida.
 Uma vez o pavilho Oito passou o dia trancado, por
causa de um boato de que estava sendo cavado um tnel. Na
tran-
ca-represlia, ningum serve comida e o mau humor cresce no
decorrer do dia. No final da tarde, quando seu Jesus, do alto
de seus 120 quilos, cruzou o ptio do pavilho,
ouviu de uma janela:
- Vai morrer, seu Jesus!
- E voc no, malandro? - respondeu de imediato.
 Ao lado dos defensores de tcnicas civilizadas, porm,
existem funcionrios mais radicais:
 - O que segura uma cadeia, doutor,  pau e bonde, o
resto  bobagem. Acerta o cara e transfere l para a
penitenciria de Presidente Wericeslau, quase na
divisa com Mato Grosso, para ver se ele no volta mansinho.
 Na Deteno, as agresses aos presos, tradio forte
no sistema prisional brasileiro, no desapareceram, mas
diminuram de intensidade com o passar dos anos,
pois, como diz Luiso, atualmente aposentado:
 - Quando eu comecei, a moda era ser caceteiro; hoje 
parar de bater. O funcionrio se adapta aos tempos. O senhor
leva a patroa ao baile, doutor, toca valsa,
o senhor vai querer danar samba?
 Curioso  que os presos mais velhos consideram o
coronel Guedes, um militar dos anos 70, poca da ditadura,
como o melhor diretor de todos os tempos. Falam
dele com grande admirao:

 - O lema era pau e cela, mas existia respeito, de
nossa parte e dos funcionrios. Andava sozinho pela cadeia
inteira, na moral, todo mundo de mo para trs
quando ele passava. O homem era fascista, no dava mole para
ns nem para a justia, com ele tinha que cumprir a lei dos
dois lados. Telefonava para as autoridades
e dizia que a pena tinha acabado: ou chegava o alvar de
soltura ou ele punha o elemento na rua. Ajuizada tinha medo do
coronel.

114

 Dadas as condies do presdio,  impossvel acabar
com as agresses, porque no convvio com os ladres alguns
funcionrios se embrutecem de tal modo que
no enxergam outra alternativa para impor ordem. Como
vigi-los na calada da noite, no canto escondido de um
pavilho escuro?
 Uma vez, seu Lourival, funcionrio calejado, comentou
a respeito de um episdio rumoroso, no qual dois presos se
queixaram ao padre de terem levado uma surra
de cano de ferro e o caso foi parar na Corregedoria:
 - Duvido que algum faa concurso para guarda de
presdio s para bater em detento.  o ambiente daqui que
deixa a pessoa assim.
 Na priso, a violncia que explode em ciclos invade a
vida dos guardas. Nos acertos de contas entre a malandragem,
quando um grupo decide dar cabo de algum,
os funcionrios tm ordem para no interferir. Morra aquele
que tiver de morrer; pacincia, trabalham desarmados:
 - Nessa hora no d, doutor,  como querer apartar
briga de cachorro louco.
 Um funcionrio de trinta e poucos anos que faz bico
como segurana de um prostbulo em Diadema, que ele garante
ser lugar de respeito e insiste que eu v
visitar, contou que a imagem do primeiro preso que ele viu
morrer, h cinco anos, retorna quando menos espera:
 - Chegaram oito com faca e pau no xadrez do tal de
Alagoas. Ele me viu e comeou a gritar: me ajuda, seu Paulo,
pelo amor de Deus! A nica coisa que eu pude
fazer foi pedir para no matarem o rapaz. No adiantou nada.
Tomou mais de vinte golpes.  feio, doutor, um ser humano
berrando feito porco apunhalado e o senhor
no poder fazer nada.
 Com o tempo, Paulo presenciou outras mortes
semelhantes, mas a impresso da primeira foi inesquecvel:

115
 - At hoje a expresso de terror daquele rapaz volta
na minha mente, num aniversrio de famlia, na cama com a
minha mulher ou na frente da TV com as crianas.
 De minha parte, posso assegurar que a influncia do
meio est longe de ser desprezvel. Apesar de mdico, diversas
vezes tive vontade de bater em algum
na cadeia, no por terem me faltado ao respeito, fato jamais
ocorrido, mas pela revolta diante da perversidade de um preso
com outro.

116

                                   O REBANHO
 Padres, pastores, mdiuns, pais e mes-de-santo e at
adoradores de Satans freqentam o presdio para converter 
palavra do Senhor as ovelhas desgarradas.
A crena na ajuda divina  para muitos presos a derradeira
esperanca de conforto espiritual, nica forma de ajud-los a
estabelecer alguma ordem no caos de suas
vidas pessoais.
 A pregao dos pastores protestantes, que oferecem o
caminho do cu pelo conhecimento da Bblia e de uma diviso
clara entre o Bem e o Mal, obtm mais sucesso
do que a dos padres catlicos.
 Entre os crentes da Deteno, o grupo mais coeso  o
da Assemblia de Deus, que congrega perto de mil homens mais
de 10% da populao da Casa. S no pavilho
Nove h duzentos; no quinto andar do Cinco, vizinho do
Amarelo, 180. Andam de manga comprida, colarinho abotoado, e
para onde vac, carregam o livro santo. Chamam-se
de irmos, proclarriamse tementes a Deus e repetem jarges
bblicos em tom monocrdio.
 Na prtica, com os crentes sempre tive dificuldade
para diferenciar aqueles convertidos  palavra do Senhor, dos
que adotaram o mesmo esteretipo para fugir
do acerto de contas com a massa carcerria. Estupradores,
Justiceiros, usurios de droga inadimplentes, delatores e
ladres que trapacearam na diviso do roubo s
vezes fingem se converter para contar com a proteo do grupo
religioso. Como usam as mesmas roupas,

117

carregam a Bblia e repetem o nome do Senhor a cada frase, 
impossvel distingui-los dos crentes de verdade.
 Os prprios ladres queixam-se da mesma dificuldade.
Respeitam os crentes, porem exigem coerncia. Uma vez, atendi
na enfermaria um membro da Igreja Universal
que apanhou dos ladres no pavilho Nove quando o pegaram
fumando um cigarro escondido. O rapaz tinha verges nas
costas, um hematoma no olho direito e um corte
de faca no brao. Meus enfermelros justificaram a agresso:
 - Quer ser crente, ns respeitamos a caminhada dele,
mas no pode tirar uma para cima da gente. A cara dele 
passar o dia rezando para Deus proteger ns,
ladres.
 Para conquistar novos adeptos, os irmos chegam a
liquidar dvidas do recm- convertido. Tarefa muitas vezes
inglria, como esclarece um dos pastores do
quinto andar do Cinco, um homem em formato de barril, preso
por vender lotes no meio da represa Billings e por outros
golpes contra a economia popular:
 Como a prpria Bblia diz que  para apaziguar,
Eclesistico 10 e 4, a gente acerta a dvida dele. Mas, como
uns e outros no  sincero, depois que pagou
ele fica bravo de novo: porque eu sou isso, aquilo, sou 157 e
mais no sei o qu. Enquanto est no meio dos lobos, ele 
ovelhinha; chega aqui, vai querer bancar
o lobo no aprisco de Deus.
 No pavilho Cinco, um pastor-chefe comanda a ala,
auxiliado por trs outros. Os pastores devem ser casados, ter
bom testemunho e reputao ilibada com a
diretoria do presdio. So escolhidos pelo tempo, aps
cumprirem os estgios de cooperador, dicono e presbtero.
Ficam sob observao durante trs ou quatro anos
antes de serem indicados, segundo um dicono de olhar piedoso,
cumprindo pena por assalto, trfico de crack e participao
numa chacina na favela de Helipolis:

 - So vistos se tm nvel espiritual, conhecimento da
Palavra e se so pessoas de orao, porque tem um que no est
totalmente de p, outro que ainda 
meio bravo, outro que masturba no sexo, ou seja, no  membro
em comunho com o povo de Deus.
  rdua a trajetria dos novos convertidos, pois a
marcao sobre a vida alheia  cerrada. O fiel no escapa 
vigilncia permanente do grupo e ao olhar
onipresente do Senhor.
 Valente, um rapaz com forte sotaque paranaense,
condenado por sete mortes a 130 anos, justifica a necessidade
do rigor:
 - O problema  que s vezes tem uns camaradas aqui que
 ator perigoso. Perigosssimo, 171 bravo! Por isso, uma
equipe de diconos observa ele 24 por 48.
No  que ns  polcia e investiga,  o Esprito Santo de
Deus quem avisa que aquela pessoa cometeu e tal e no quer
permanecer no rebanho.
 O cdigo de comportamento  severo, a conduta do
crente precisa se destacar na massa. Deve largar gria,
mulheres, vestir roupa social, andar de sapato engraxado,
perder a ginga, tomar banho e pentear o cabelo. Pessoas
amasiadas no podem morar na galeria da Assemblia, apenas os
solteiros e os casados legalmente, no papel.
Homossexuais so aceitos, porm com uma ressalva:
 - Tem que abandonar a vida pecaminosa e voltar a ser
cidado normal.
 Valente diz que os estupradores, odiados por todos,
para os crentes so pessoas que merecem o perdo do Senhor,
porque tm problemas:
- Problemas mentais e diablicos.
 Iludem-se, no entanto, os que se juntam aos crentes
esperando uma vida fcil. So cheios de espinhos os caminhos
que conduzem a Deus, diz o dicono de olhos
piedosos:
-A rotina da Igreja na cadeia no d tempo capcioso.
 s oito horas, assim que destrancam as portas, saem
todos para a primeira orao, que dura sessenta minutos. s
nove, comea a Campanha: oito, dez pessoas
reunidas nas celas, orando por mais uma hora. Metade da
Campanha  orao, quinze minutos so de louvores e quinze de
Palavra, quando todos falam ao mesmo tempo
e as vozes se elevam a Deus. Quem passa pela galeria neste
momento tem impresso de estar na torre de Babel, com aquele
falatrio simultneo. No final, os irmos
chegam a pingar de suor, afnicos, de tanto elevar-se ao
Criador.
 Depois dessa Campanha, inicia-se outra s dez, na qual
um irmo mais velho ministra a Palavra at as onze e meia. A
 hora do banho, para almoar e descer
depressa, porque das treze s quinze o culto  ao ar livre,
para atrair novas vocaces. Terminou,  subir rpido porque s
quatro  a tranca e os c'rentes no atribulam
os funcionrios, por princpio.
 Trancou, vm mais oraes, louvores e Palavra at as
seis e meia. A se lavam e jantam. Depois, rezam, estudam a
Bblia ou ministram a Palavra at a hora
de dormir. Cedo, porque televiso  proibido, e nas rdios no
se admite pagode, samba, rock, nada, apenas as emissoras
evanglicas.
 A Igreja funciona como centro de recuperao, talvez o
nico disponvel no presdio. Descontados os falsos crentes,
que "jogam areia nos olhos dos irmozinhos",
os demais so felizes, na viso do pastor:
 - A gente sente Deus operando na existncia deles.
Aqui tem grade e muralha, no d para fugir, mas voc olha o
cu e v Deus. A presena d'Ele transmite
paz e, com o corao inundado de f, voc ora com devoo para
ir embora deste lugar maligno.

120
                                    AMARELO
 Vizinho dos crentes, no ltimo andar do pavilho
Cinco, fica o Amarelo, um dos recantos mais lgubres do
presdio. Quinhentas e tantas pessoas, juradas de
morte em sua maioria, vivem em cubculos densos de fumaa de
cigarro, nos quais se espremem quatro, cinco ou s vezes mais
prisioneiros. Um cheiro forte de cadeia
se espalha pelo ambiente. O estado de conservao das celas 
precrio. Falta de gua, entupimentos, goteiras e inundaes
acontecem com freqncia. Nestas circunstncias,
os habitantes de um xadrez podem passar a noite inteira em p,
no molhado.
 Para os habitantes do Amarelo a tranca  permanente,
e, solt-los, uma operao que obriga a prender o restante do
pavilho. Ainda assim, precavidos, os
funcionrios limitam a abertura aos sbados, dia de visita no
Pavilho Seis, vizinho do Cin co. Uma hora s e pronto, sobem
de volta. A medida  sensata, pois a
presena das famlias no prdio ao lado garante a paz no ptio
do Cinco. Apesar disso, h quem ache mais prudente abrir mo
do sol e permanecer trancado:
- Seguro morreu de velho, doutor.
 O Amarelo nunca foi pintado dessa cor: a denominao
deriva do desbotado da pele de seus ocupantes privados do sol.
  rica a biodiversidade do setor: craqueiros
insolventes, delatores, justiceiros, estupradores, perdedores
de disputas individuais, gente que encontra na
cadeia inimigos da rua e mui-

121

tos outros que, na pior, no conseguiram comprar um xadrez
decente ou venderam o que possuam.
 Uma vez, atendi um ladro do Amarelo, com o corpo
coberto de pequenas feridas contagiosas, uma cala velha e a
camiseta em frangalhos, que pediu um atestado
mdico para a mulher, advogada, encaminhar ao Frum. Perguntei
se a esposa no poderia ajud-lo a sair daquele lugar e ele
respondeu:
 - Doutor, mais do que ela faz por mim? j me trouxe
dinheiro cinco vezes, para comprar um xadrez. Fumei os cinco
no cachimbo.
 O crack e a tranca impiedosa so um atentado 
sanidade mental dos ocupantes do Amarelo, como diz Dionsio,
um ladro com tuberculose incurvel, abandonado
pela mulher cansada das promessas de que ele abandonaria a
droga:
 - Dia e noite preso, no meio de cara chapado e
neurtico da mente. O senhor dorme do lado de um desconhecido,
d cinco minutos nele e ele te voa na sua garganta.
No tem descanso,  tortura psicolgica para o ser humano,
doutor.
 O dia no Amarelo  a mais absoluta ociosidade, os
presos jogados nos colchonetes, quando os h para todos.
Ningum l ou v televiso. Na final da Copa de
1998, o Waldemar Gonalves fez planos para colocar uma Tv na
galeria e liber-los para ver o jogo. No deu certo, a
diretoria desaconselhou por questes de segurana.
 Para ampliar o horizonte visual, os presos sobem na
janela do xadrez, sentamse com as pernas para fora e abraam
as grades. Permanecem assim por horas consecutivas,
conferindo decorao singular  fachada do Pavilho Cinco, com
uma fileira de pernas pendentes do ltimo piso. Por este
costume, so tambm denominados "canclinhas",
depreciativamente.
 Das janelas que do para o lado externo, os canelinhas
conseguem assistir ao jogo de futebol no campo do Oito ou

122

falar aos gritos com os transeuntes da Radial. Menos
afortunados so os que ocupam os xadrezes voltados para o
ptio interno, quadrado, com viso apenas para as
roupas que secam nas janelas dos xadrezes em frente.
 Os habitantes do lado interno estabeleceram uma
simbiose curiosa com os crentes da Assemblia de Deus que
fazem o culto coletivo, dirio, ao ar livre, no
ptio. Enquanto os irmos oram para converter os infiis ao
caminho do Senhor, a galera do Amarelo prende um saco plstico
a um tnis velho para servir de contrapeso,
amarra-o a um barbante e arremessa-o para baixo, na direo
dos religiosos. Fazem-no com percia, o comprimento do
barbante exato para o saco chegar a um metro do
cho. Pacientes como pescadores, seguram o fio esticado at
que os irmos demonstrem publicamente, com bananas, pes,
balas ou roupas, o amor que referem sentir
pelo prximo.
 Papo Doce, um traficante do Oito merecedor do apelido,
que trazia cocana da Bolvia e ameaava matar seus
distribuidores que misturassem a droga com outros
produtos porque tinha um nome a zelar no comrcio, justifica a
origem do Seguro:
 -A existncia do Amarelo acontece devido que entre ns
no tem departamento de cobrana, onde que gera multa
polmica. Doutor, se eu vendo uma pedra de crack
e o elemento no ITIC paga, no posso chegar no juiz para
reclamar do sucedido e nem tenho promissoria para protestar.
Agora, se eu deixar despercebido, fico com
fama de vacilo, ningum mais me paga e o meu fornecedor no
quer saber.  uma corrente, a dvida de um provoca
conseqncia no outro.
 A segurana do Amarelo  relativa, entretanto. Seu
Florisval, diretor de Disciplina, unanimemente tido por seus
pares como um dos que mais conhecem a Deteno,
 realista:
 -A gente faz o que pode, mas infelizmente aqui no
existe lugar seguro. Quando eles decidem matar algum,  muito
difcil impedir. Na cadeia, a morte no
respeita geografia.
 Mrio Cachorro, um ladro que estourava ajanela das
casas com macaco de automvel e numa delas encontrou doze
quilos em barras de ouro, sendo depois preso
com uma loira no Nordeste, apresentou-se uma tarde na sala da
Carceragem do Nove, dizendo-se ameaado de morte por supostos
inimigos no pavilho, e pediu transferncia
para o Seguro. No Amarelo, comportamento exemplar, ganhou a
confiana dos funcionrios e foi integrado  equipe que servia
refeies para os colegas de infortnio.
 Dias depois, chegou na Deteno um certo Ronaldinho,
careca como o jogador, detido por haver estuprado me e filha,
entre outros delitos graves. Com este
passado, avisou que no tinha possibilidade de convvio com a
massa e foi direto para o Amarelo. Acontece que Mrio Cachorro
era filho e irmo das mulheres violentadas
e havia pedido transferncia para o Amarelo, antecipadamente,
porque descobrira que o estuprador estava preso num distrito e
seria transferido para a Deteno.
 Na hora do caf, Mrio Cachorro abriu o xadrez do
inimigo. A primeira facada vazou o olho direito do estuprador,
que, em vo, tentou encontrar a porta de
sada. Quando vi o corpo, chamava a ateno o nmero de golpes
desferidos e, principalmente, os olhos vazados e dois
ferimentos profundos, perfurocortantes, simtricos,
nas solas dos ps. Em volta do corpo, um malandro comentou com
respeito:
- O Mrio Cachorro agiu com manha de gato.
 Seu Jeremias, saudoso dos tempos antigos, se um dia
fosse convidado pelo governador para assumir a diretoria-geral
da Deteno, acabaria com o Seguro, como
primeira iniciativa:

124

 - Ia resolver o problema, devido que o elemento faz
dvida de droga e pede Seguro. Isso no  proceder de homem
que  homem. Se ele sabe que no tem para
onde fugir, vai assumir a responsabilidade das atitudes. Sem
Amarelo, iam morrer uns e outros, mas era bom porque voltava o
respeito de antes.
 A primeira vez que atendi o pessoal do Amarelo foi
numa noite de inverno. Levei o Julinho, um auxiliar da
enfermaria que mais tarde foi transferido para
o pavilho Nove, quando descobriram que ele desviava
medicamentos dos presos com a provvel cumplicidade de um
funcionrio ou dois, talvez.
 Subimos ao quinto andar e improvisamos um consulto rio
numa cela da ala dos crentes. Um a um, os doentes foram
trazidos  nossa presena. Tuberculose geral:
gente emagrecida,
com febre, sudorese noturna e tosse, espalhando gotculas de
secreo no xadrez apinhado. Naquele ambiente mal ventilado, o
unico que no podia se queixar das condies
de vida era o bacilo de Koch.
 A maioria dos doentes coava-se de dar aflio. Tinham
pequenas bolhas nas pernas, antebraos e parte inferior do
tronco, o o ar cansado das noites insones.
O ato de coar rompia as vesculas, deixando vazar o contedo
cristalino. Com a rup tura, o prurido melhorava, mas comeava
a arder. No local surgia, ento, uma
espessa crosta negra que, ao cair, deixava uma cicatriz
escura, definitiva. As unhas contaminadas com o lquido das
leses semeavam novas vesculas  distncia e
entretinham o processo infeccioso por meses.
 Quase dez da noite, terminamos. No final, cerimonioso,
chegou o pastor-chefe:
 - Doutor, sei que sua pessoa deve estar cansada e
precisa repousar na paz do Senhor, mas tem uma travesti que
est com o silicone inflamado na parte de trs
do assento, do

125

traseiro dela. Ela sofre de dores e insistiu para pedir para o
doutor.
 - No! Chega. Isto aqui no tem fim. Alm do mais, no
entendo nada de silicone.
 - Lgico, doutor, vou falar para ela ter pacincia e
orar com f, para Jesus atuar na vida dela.
 Sucumbi  chantagem em nome do Senhor e mandei
cham-Ia. Hoje agradeo ao pastor por ter me apresentado
Veronique, personagem de uma outra histria.
 Depois dessa vez, voltei com regularidade ao Amarelo,
o que me conferiu prestgio entre os funcionrios porque
muitos deles, por medo, recusavam-se a trabalhar
naquele setor. Atendia os doentes numa salinha com um guich
aberto para a gaiola de entrada. No havia privacidade; para
examinar os doentes sem roupa tinha que
faz-los entrar no banheirinho contguo. Esse banheiro,
destinado aos funcionrios de planto, tinha uma privada e uma
pia, o cho inundado e as paredes infiltradas
pelo vazamento constante. Para lavar as mos, era preciso
abrir o registro na parede e pular gil para trs, a fim de
escapar da gua que esguichava do cano junto
a ele. A simples abertura do registro fazia a gua jorrar com
fora na pia e na descarga da privada.
 Mais recentemente, no Amarelo, passei a contar com a
ajuda do Paulo Xavier, o Paulo Preto, enfermeiro do Hospital
S rio-Libans que se disps a me auxiliar
com os doentes. Paulo organizava o atendimento com o auxlio
de um preso chamado Lcio, um rapaz forte, com um olho de cada
cor.
 Lcio era dedicado com os doentes e gentil comigo. Uma
vez contou ter sido preso depois de uma briga de rua. Ele
vinha desarmado, quando apareceu um arquiinimigo
com muitas mortes no currculo e um faco afiado nas mos.
Lcio tomou trs facadas, mas conseguiu pegar um pedao de pau
e rachar a

cabea do opositor. Em seguida, aproveitando-se do faco e da
inconscincia do outro, decepou-lhe os dois braos para que
ele nunca mais esfaqueasse ningum.
 Num sbado, Paulo Preto, Lcio, seu Manoel, um homem
de barba espessa, antigo funcionrio do pavilho, e eu,
decidimos atacar a epidemia de sarna que infernizava
a vida dos presos. A operao comeou s sete. O pavilho
inteiro amanheceu trancado para o Amarelo descer. Nas celas do
setor, os presos empilharam os pertences
no cho para serem borrifados com inseticida. No ptio, junto
 parede lateral do prdio, esperavaos um cano de gua fria.
 junto ao cano, os ladres fizeram fila, enquanto um
preso aplicava inseticida em todas as celas. Fazia frio. Seu
Manoel, com seus vinte anos de experincia,
avisou:
 - Pode se preparar, doutor, ladro  como gato: tem
medo de gua fria.
 De fato, choradeira no faltou. Diziam que estavam com
tosse, tuberculose, pneumonia, outro sofria de bronquite e
alguns simplesmente se negavam a entrar
no banho gelado. Dirigi-me  fila e expliquei que aqueles que
no se lavassem e passassem remdio, espalhariam sarna para os
demais, para prejuzo de todos. O argumento
os convenceu: malandro no arrisca ser acusado de prejudicar
os companheiros.
 Durante o banho, observei que eles entravam embaixo do
cano com as costas quase encostadas na parede. Comentei o fato
com seu Manoel, que explicou:
- Ladro nunca fica de bunda para os outros, doutor.
 Roxos de frio, acabada a ducha os homens
apresentavamse a um companheiro encarregado de borrifar
remdio contra sarna pelo corpo inteiro. Depois de secos,
aqueles que apresentavam infeces dermatolgicas, eram
separados por Lcio e Paulo Preto e trazidos  minha presena.
 O trabalho, que envolveu mais de quinhentos homens,
foi completado at o meio-dia, hora exata de trancar o Amarelo
e soltar o resto do pavilho. Prevendo
alguns acessos de asma desencadeados pelo inseticida, deixei
dez ampolas de cortisona para o Lcio medic-los e sa com o
Paulo Preto. Fomos embora contentes com
o sucesso da operao, dando risada da malandragem embaixo da
gua fria, com a bunda encostada na parede.

128

                              TUDO NA COLHER
 O crack invadiu a cadeia em meados de 1992,
sorrateiramente. Uma tarde, no campo de futebol do Oito, vinha
um rapaz completamente chapado. Falava em tom
intimidatrio e gesticulava para uma figura imaginria na
janela de um xadrez do segundo andar. Na porta do pavilho, um
funcionrio corpulento e precocemente hipertenso
fez o diagnstico e uma previso amarga:
 - Olha a, doutor,  o crack chegando na Deteno. S
faltava mais essa.
 Fiquei surpreso. Na minha ingenuidade, crack era coisa
de filme americano, problema do Bronx, em Nova York, jamais no
Carandiru.
 Na cadeia, o processo de preparao do crack 
artesanal. Misturam cocana com bicarbonato de sdio ou
amonaco numa colher, embaixo da qual acendem um isqueiro,
para aquecer e derreter a mistura. Quando esta se liquefaz,
surge na superfcie uma fase oleosa que vai sendo empurrada
para as bordas da colher com um palito de
fsforo, para esfriar e se solidificar. A pedra resultante 
fumada em cachimbos improvisados.
 O processo  trabalhoso, como se queixa Tristeza, um
traficante interno que passava as madrugadas no preparo e que
uma vez foi pego com trezentos gramas
de pedras prontas para o consumo:
 - O pessoal falam que eu ganho dinheiro que nem gua,
mas ningum repara no sacrifcio que eu fao. Na rua  mole-

129
za, o crack j vem preparado do laboratrio; aqui,  tudo na
colher.
 O crack entrou e varreu a cocana injetvel do mapa. 
droga compulsiva, no sobra para o dia seguinte. Na crise de
abstinncia, se o dependente v o p,
a pedra de crack ou algum sob o efeito dela, passa mal: tem
sudorese, taquicardia, clicas abdominais, diarria e vmitos.
 Ronaldo, um ladro COM AIDs que fugiu do hospital
penitencirio e foi preso em flagrante fumando crack na rua do
Triunfo quarenta horas depois, contou que,
num assalto a uma loja de tecidos na rua Augusta, quando a
gerente abriu o caixa ele teve um mal-estar sbito:
 - Foi bater os olhos no dinheiro, me veio a imagem de
eu comprando cocana na bocada. O estmago embrulhou na hora,
sa vomitando pelo rneio do assalto.
 A cocana pode ser cheirada, injetada ou fumada. Pela
via nasal, o p adere  mucosa do nariz e vai sendo
gradualmente absorvido; o efeito  crescente, atinge
um pico e depois decresce. Injetada na veia, cai direto na
circulao, passa pelos pulmes e vai para o crebro; a
euforia vem depressa e acaba rpido; d zumbido
na cabea e um baque no crebro (da, o nome). No crack a ao
 ainda mais instantnea, porque a cocana cai direto nos
pulmes, no perde tempo na circulao venosa.
 Ronaldo, que aprendeu a fumar crack com a esposa, mae
dos quatro filhos dele, diz que a qualidade da cocana no
presdio decaiu:
 -Antigamente dava um tuim comprido no ouvido. Hoje,
faz tum, um instantinho s, e j era.
 O usurio de cocana injetvel no se interessa pelo
efeito lento da via inalatria, forma de administrao que ele
considera careta. O crack, porm, provoca
sensao semelhante  do

130

baque, alm de trazer vantagens:  mais barato, no deixa
cicatrizes nos braos e, principalmente, no transmite AIDS.
 No presdio, em poucos meses a via endovenosa ficou
restrita a uns poucos baqueiros velhos, que mais tarde
morreram de AIDs na enfermaria do Quatro. Silenciosamente,
como entrou, o baque saiu de moda no Carandiru.
 Em janeiro de 1994, repetimos o estudo de prevalncia
feito quatro anos antes. Encontramos 13,7% dos presos
infectados pelo HIV (contra 17,3% na pesquisa
de 1990). A nica explicao encontrada para a queda do nmero
de infectados nos quatro anos que separaram os dois estudos
foi a reduo do nmero de usurios de
droga endovenosa. Em 1998, em 250 voluntrios testados,
dezoito eram HIV-POSitiVOS (7,2%).
 Com o passar dos anos, muitos ex-usurios de cocana
injetvel revelaram ter mudado para o crack por causa das
palestras do cinema. Se for verdade, fico
feliz. Talvez at o crack tenha um lado bom.

                     PARA DERRUBAR A MALANDRAGEM
O crack transtornou a cadeia, todos reconhecem. 
droga traioeira. Nas primeiras vezes o efeito custa a passar;
com a repetio diria, porm, acaba em
segundos. Vicia rapidamente; na enfermaria conheci rapazes que
depois do primeiro contato com a droga nunca mais conseguiram
parar, nem presos nas celas de Seguro,
endividados, correndo risco de vida.
 Com o tempo, o usurio de cocana desenvolve quadros
de delrio persecutrio toda vez que usa a droga. Na cadeia,
os portadores dessa sndrome,  qual do
o nome de parania ou nia, andam pelas galerias apavorados,
trancam o xadrez por dentro, encolhem-se feito crianas
embaixo da cama, gritam ou fogem de inimigos
imaginrios.
 Ronaldo, o pai de quatro filhos que vomitou durante o
assalto e veio a morrer de tuberculose na enfermaria seis
meses depois de recapturado, descrevia assim
a parania que o torturava:
 - O crack  to devastador para a mente da pessoa que
eu fumo trancado no xadrez e cismo que tem algum debaixo da
cama com a faca para me matar. Fico apavorado,
quero olhar mas tenho medo de abaixar e ele me furar os olhos.
Demoro para criar coragem e espio bem depressa. Lgico que no
vejo ningum, estou sozinho no xadrez
fechado, mas mesmo assim fico na dvida: tem sim, eu  que no
vi direito. Abaixo mais uma vez, apesar do medo que me fure o
olho, e no vejo nada. Mas no adianta,
no me conveno, e olho de novo. E assim ,

132

dez, quinze vezes. Quando o efeito vai abaixando, eu percebo
que foi tudo parania: como  que pode ter algum aqui, se o
xadrez  minsculo e a porta est trancada?
Antes de dar outra cachimbada, olho debaixo da cama e confiro
se a porta est bem fechada; chego a espiar dentro do boi.
Tudo bem, vou fumar de novo e dessa vez
a nia no vai me atacar.  s cachimbar, doutor, repete tudo
a mesma coisa: tem algum debaixo da cama, vai me matar, se eu
olhar vai me furar a vista...
No final, Ronaldo resume a existncia do usurio de crack:
 -  triste o nosso destino. Se existe o inferno na
Terra,  a vida de ns, craqueiros.
 Impossvel saber quantos fumam crack no presdio. Na
estimativa dos detentos, pelo menos 60%. Uma vez, perguntei ao
Lcio, o enfermeiro do Amarelo que decepou
os braos do desafeto para que ele parasse com a mania de
esfaquear os outros, quantos craqueiros havia no Amarelo. Ele
respondeu:
 - Todos, doutor. Quando aparece um que no , eu tiro
daqui e peo para o pastor aceitar ele na galeria dos crentes.
Os carcereiros de carreira dizem com nostalgia:
 - Que saudade do tempo do baseado, doutor! Tinha mais
respeito entre a malandragem, o preso fumava e ficava
quietinho no seu canto, pensativo, comia e ia
dormir. Ningum perdia a casa da famlia por causa da maconha.
A gente era feliz e no sabia.
 O crack abalou a estrutura do poder interno, a moral
da malandragem e gerou mais violncia. Na compulso, o
dependente gasta o que no pode; depois, chantageia
os familiares dizendo-se ameaado de morte. Quando a famlia 
exaurida, vende os pertences pessoais e, nada mais tendo de
valor, rouba, apanha na cara, toma facada,
assume a responsabilidade de crime cometido por outros e at
mata sob encomenda, em troca de uma pedra para fumar.

133

 O vcio est associado  derrocada financeira do
usurio. Uma das tcnicas que uso para identificar os que no
usam crack  olhar o p deles: se o tnis
 novo, certeza, no  craqueiro.
 Carlo, que passou um ano na rua e dois na cadeia,
fumando crack sem parar e mais tarde ficou livre da droga,
chegou ao extremo:
 - A pedra veio para derrubar a malandragem, por causa
dela vendi at o revlver, minha ferramenta de trabalho. Fui
preso assaltando com a faca da cozinha
da minha tia.
 Dvida em cadeia no tem perdo: no pagou, foge, leva
paulada ou morre. Para escapar, a nica alternativa  pedir
proteo aos funcionrios. Estes, quando
se convencem da gravidade do caso, transferem o preso para o
Amarelo. No prprio Seguro o craqueiro contrai novas dvidas,
perde outra vez o ambiente e vai parar
na Masmorra do pavilho Quatro, derradeira oportunidade de
sobrevivncia.
 O pedido de socorro  polcia desmoraliza o ladro.
Uma vez, encontrei a enfermaria em alvoroo porque o Jlio, um
bandido cumprindo vinte anos pela morte
de trs rivais que o emboscaram num beco de favela, havia
pedido refgio no Amarelo para escapar do acerto de 38 reais
com um traficante metade do tamanho dele.
No final, um piracicabano sem queixo internado na enfermaria
por causa de uma furunculose crnica em ambas as axilas, que o
obrigava a andar com os braos abertos
feito asa, resumiu com o forte sotaque da cidade natal:
- A pedra acaba com a vergonha na cara do cidado.
 Outra vez, Xanto, o ladro do Pari que baleou o tio
bbado no peito por no saber dar tiro nas pernas de ningum,
esta-
va revoltado com o companheiro que, na visita, ofereceu a
prpria mulher ao traficante para saldar uma dvida. O fato da
moa

134

trabalhar como prostituta num bar do lpiranga no serviu de
atenuante.
 - No interessa como ela ganha a vida l fora. Aqui,
para ns, ela  mulher de um companheiro e merece respeito.
Entregar ela  muita sem-vergonhice de carter.
 A opinio de Xanto no era isolada. No dia seguinte 
visita, o craqueiro devedor foi obrigado a juntar os pertences
e mudar para o pavilho Cinco:
- No se fez merecedor do nosso respeito.
 Fil, um traficante franzino do Oito, armador do time
do pavilho, nascido no Canind, ao lado do campo da
Portuguesa, arrombador de residncias e pai de
duas meninas mantidas por ele em escola particular, dava duas
semanas para o craqueiro pagar a droga consumida e nem um dia
mais. Em cinco anos de cadeia e trfico,
enviou muita gente para o Seguro, embora reconhecesse a
inutilidade do procedimento:
 - Que adianta os malucos trancados l, de caneliDha, e
eu sem receber aqui?
 Um dia, a roda do destino girou e Fil foi transferido
para uma penitenciria do interior. Encontrou tres
ex-companheiros da Deteno, por ele enviados para
o Amarelo. Morreu degolado, na noite de chegada.
 A cadeia hoje  muito diferente da que conheci ao
chegar, em 1989. O crack subverteu a ordem interna. Como as
pessoas, as cadeias tambm mudam com o tempo.

135

                                  NA PIOLHAGEM
 A droga corre atrs do viciado,  o que diz a
malandragem.
 Duas visitas ao exterior convenceram-me desta
realidade. A primeira foi em Rykers Island, a maior priso de
Nova York, quando passei na porta de um banheiro
coletivo situado na ala que se mostra aos visitantes e senti
um cheiro forte de maconha. A segunda foi na periferia gelada
de Estocolmo, numa priso-modelo vigiada
por 350 funcionrios treinados, exclusiva para cinqenta
jovens loirinhos (sete funcionrios por preso), ex-usurios de
droga, que todas as manhs, quando se abriam
as celas individuais, eram obrigados a descer para a
enfermaria e, na presena do mdico, urinar num vidro para
exame toxicolgico. Volta e meia o laboratrio detectava
herona, cocana, lcool, maconha e at a prosaica cola de
sapateiro na urina dos meninos, misteriosamente introduzidas
no reformatrio -modelo.
 Supor que a droga entre na Deteno sem conivncia de
funcionrios ou dos guardas da muralha  discordar da lgica
do Pequeno, o baixinho de lngua presa
que matou quatro Pms:
- O sentenciado pode sair na rua para buscar cocana,

doutor?
  injusto generalizar, entretanto. A maioria dos
guardas jamais se envolveu com o trfico, apesar dos baixos
salrios e do desalento com a profisso. Alm
disso, a direo vive preparando armadilhas para surpreender
os que "passam para o ou-

136

tro lado" , e quando pega o castigo  amargo: cinco ou seis
anos de priso, como vimos.
 Fumaa, tipo popular, contador de casos exagerados nos
quais inevitavelmente desempenha o papel de protagonista, 
testemunha de que a droga no  problema
exclusivo do Ca-randiru:
 - Em novembro, completei dezoito anos no Sistema. J
rodei diversas unidades, e em todas pude fumar meu baseado,
meu cachimbo de crack (que eu parei faz
dois anos, que  sem futuro) e, no tempo do baque, s no
tomei porque no gosto desse barato de ficar se picando. 
interessante, doutor, no ligo para sangue dos
outros, mas me escurece a vista quando vejo o

meu prprio.
O mesmo Pequeno da lngua presa acrescenta:
 - Se a cocana corrompe a sociedade livre, por que na
cadeia, cheia de ladro, traficante e consumidor, ia ser
diferente? Logo aqui, que custa o dobro da
rua?
 No ambulatrio, quando os doentes vinham com tuber
culose, eu os proibia de jogar fumaa nos pulmes, viesse ela
de maconha, cigarro comum ou crack. No
havia problema em faz-los entender que a fumaa era
prejudicial aos pulmes inflamados. Nas semanas seguintes,
quando lhes perguntava se haviam parado, a maioria
tinha abandonado a maconha e mesmo o crack, mas o cigarro no.
Conseguiam se livrar do crack, mas poucos deixavam o cigarro.
Tantos foram os casos que acabei convencido
de que a nicotina  a substancia que mais dependncia qumica
provoca.
 O preso que consegue pr a droga para dentro pode ven
d-Ia. No  como na rua, em que o traficante  dono de um
ponto defendido a bala. Como explica Horcio,
um paraplgi co filho de portugueses, abandonado pela mulher
depois de
perder os movimentos das pernas ao bater de moto roubada, uma
loura na garupa, contra a traseira de um caminho:
 - O cabeo despeja para os que trabalham para ele. Se
ele compra o quilo a 4 mil, vai repassar para ns,
intermedirios, a 7 ou 8 mil, para dobrar o capital.
Eu vou querer vender a grama por 10, por conta do risco. Se
rodar  crime hediondo; isso apavora o sentenciado que j
tirou um monte de cadeia.
 Lenildo, um ladro que nunca traficou na rua, mas que
na cadeia comeou a faz-lo para sustentar as duas mulheres,
trs filhos e a me que sofre de reumatismo,
diz que no  fcil escapar vivo no comrcio do crack:
 - Tem que ser duro na queda, medir o que fala e pesar
a conseqncia do que possa acontecer. Uma vacilada e eu acabo
seus dias na ponta de uma bicuda, como
aquele mano que o senhor examinou o corpo na semana passada.
S eu contei mais de trinta facadas. T louco, doutor, deu
vontade de abandonar o Crime!
 De fato, eu havia visto o corpo. Era um moo bem
forte, moreno, com uma tatuagem no peito: so Jorge num cavalo
empinado diante do drago pondo fogo pela
boca. O santo, com estilo, cravava a lana na goela do
monstro. Na cintura do guerreiro havia um frimento,
perfurante, outro junto  cauda em seta do drago, mais
um resvalando o penacho do capace-te do santo e muitos outros
golpes. Talvez fossem mesmo mais de trinta.
 Tudo conseqncia de uma transao rotineira. Um
consumidor habitual veio comprar 5 reais de pedra para pagar
domingo. Desconfiado da insolvncia do outro,
o rapaz da tatuagem disse que estava sem mercadoria. O
comprador contrariado comentou o caso com os amigos. Decidiram
enviar um laranja para propor o mesmo tipo
de operao ao rapaz da tatuagem que, sem desconfiar, vendeu
fiado. Nunca poderia ter dado ao laranja o crdito negado ao
fregus antigo. Erro fatal.

138

 Casos semelhantes so to freqentes que eu no
entendia por que eles mesmos no proibiam terminantemente as
vendas a fiado. Uma vez tentei reunir alguns
lderes da malandragem para lhes propor a adoo de tal
medida. Fui desanimado pelo Sarar, um negro loiro com muitas
passagens pela Casa:
 - No tem chance de dar certo, doutor. O viciado fica
devendo 20 reais e entrega a televiso por esse preo. D
muito lucro.  o mesmo princpio de que os
bancos da rua, o senhor fica devendo 20 mil e eles tomam a sua
casa que vale 100. Nin gum acaba com um negcio desses.
 Lenildo, que se orgulha de manter as casas das duas
mulheres e a da me sem nada faltar, explica que o comrcio do
crack obriga o traficante a tomar medidas
extremas, mesmo contra a vontade:
 - Eu pego sessenta gramas do cabeo e fico devendo
400 contos. Fao uns papelzinhos, vendo aqui, ali, uns me
pagam e outros pedem para esperar o fim de
semana. Chega segunda-feira o meu fornecedor quer receber. Se
eu no pago, ele vai pr os culos na minha atitude.
 Diante desta perspectiva, a preservao da prpria
vida fala mais alto:
 - Ento, para que no venha a rodar uma faca para cima
de mim que tenho famlia para adiantar, vou soltar a faca no
devedor, dar paulada, jogar gua fervendo,
para que aquele veja que eu tomei uma atitude diante deste. E
assim, um vai vivendo perante a desgraa do outro.
 Existem situaes, entretanto, em que  mais vantajoso
assumir o prejuzo:
 - O comprador no pagou? Deixa quieto. S que a, na
piolhagem, qualquer tipo de acontecimento, numa perca que eu
tenha,  ele que vai soltar a faca no meu
lugar, justa-

139

mente para abater aquela dvida. Seno sobra para ele,
Iamentavelmente.
 Apesar da represso, os meandros do trfico permeiam o
presdio. Cada "cabeo" comanda um grupo de vendedores, que
controla os dependentes sequiosos de
droga.
- Faz uma rede invisvel, secreta, como a mfia.

140

 Mente ociosa  moradia do demnio, a prpria
malandragem reconhece. Ao contrrio do que se imagina, a
maioria prefere cumprir pena trabalhando. Dizem que
o tempo passa mais depressa, e  noite:
- Com o corpo cansado, a saudade espanta.
 Poderiam, tambm, aprender um oficio e voltar para
casa com alguma perspectiva. Solt-los mais pobres e
ignorantes do que quando entraram no ajuda a reabilit-los.
 Srvulo, um ladro de Guaianases, encarregado da
enfermaria do Oito que nos dias de atendimento me pedia para
trazer dois ou trs doentes e aparecia com
dez, de cada um dos quais, descobri mais tarde, ele cobrava
dois maos de cigarro para conseguir a consulta, v outra
vantagem no trabalho:
 - A cadeia seria menos perigosa, com essas mentes
malignas ocupadas.
 Para servir de estmulo, a lei estabelece que cada
trs dias trabalhados abatem um dia da pena a cumprir,
matemtica nem sempre respeitada para quem no
tem advogado constitudo. Ainda assim, muitos disputam os
poucos empregos disponveis. Outros, no entanto, mais
ortodoxos:
 - Trabalhar? Nem na rua, com o meu pai pegando no p.
Aqui dentro, jamais. Questo de princpio.
 Um venezuelano naturalizado brasileiro, que ia buscar
droga na selva amaznica e depois matava os entregadores por
sair mais em conta do que pag-los, 
radical:
 - Trabalhar para a sociedade, s depois de morto, se
me cremarem e colocarem minhas cinzas num daqueles relgios de
ampulheta.
 justia seja feita, porm: com exceo das atividades
ligadas  segurana, as demais tarefas da cadeia so
executadas pelos presos - cozinham, distribuem
as refeies, lavam tudo, recolhem toneladas de lixo,
consertam, levam e trazem, organizam campeonatos de futebol e
a Campanha do Agasalho.
 A rotina do Casaro  tocada pelos detentos, sem eles
seria o caos.
 Algumas empresas empregam mo-de-obra local para
costurar bolas de couro, chinelos, colocar espiral em
cadernos, varetas em guarda-chuvas, parafusos nas
dobradias e trabalhos similares. Teoricamente, os presos
deveriam receber pelos servios prestados, o que poderia
ajudar a famlia desamparada ou servir de poupana
para quando fossem libertados. Na prtica, porm, a burocracia
para retirar o dinheiro recebido  tanta que muitos aceitam o
pagamento em mao de cigarro, a moeda
tradicional.
 Como trabalho  privilgio de poucos, passam o dia
encostados, contam mentiras nas rodinhas do ptio, levantam
peso na academia, jogam capoeira no cinema,
andam para baixo e para cima, inventam qualquer bobagem para
se entreter e, principalmente, arrumam confuso.
 O tal venezuelano preocupado com o destino de suas
cinzas chama a ateno do visitante que passa desavisado entre
os grupos que se formam no campo de futebol
do Oito:
 -  tanta histria de assalto, revlver e troca de
tiro, doutor, que precisa passar abaixado entre eles por causa
das balas perdidas.
 Ao lado do trabalho organizado, que reduz a pena,
existe uma economia informal. So os que trabalham sem
carteira

142
assinada: lavam roupa para fora, costuram, cortam cabelo,
constroem barcos  vela com distintivo dos times de futebol,
cozinham (h uma pastelaria numa cela do terceiro
andar do pavilho Oito e uma sorveteria no pavilho Dois),
destilam pinga e armam bancas na galeria - mantimentos, tnis
usado, roupa, rdio de pilha, aparelho de
Tv e foto de mulher pelada.
 As compras so  base de troca, pagas com maos de
cigarro ou, disfaradamente, com dinheiro mesmo. O comrcio
interno  fundamental para a vitalidade da
economia; por intermdio dele os bens so redistribudos, as
mercadorias circulam e as dvidas podem ser liquidadas. Num
lugar em que os homens recebem apenas comida
e a cala jega, todo o resto fica por conta deles:
- Existe custo de vida na cadeia.
 Oriundos das camadas mais pobres da sociedade
brasileira, nem todos contam com ajuda externa. Ao contrrio,
a maioria precisa sustentar mulher, filhos e
pais idosos, razo pela qual gente que em liberdade nunca se
envolveu com droga vira traficante de cadeia para manter a
integridade da estrutura familiar.
 Nas celas de Seguro e na Isolada, cheias de fumaa de
cigarro, trancados o tempo todo, os homens passam o dia
conversando e, quando o assunto acaba, olham
para a parede ou se entretm com um pretexto qualquer. Na
experincia de seu Jeremias, pai de muitos filhos com a mesma
mulher, a ociosidade pode enlouquecer o homem:
 - Antigamente, no tempo da solitria, vi muito nego
entrar bom e sair de l para o manicmio.
 Numa dessas celas, na escurido total, ele passou trs
meses sozinho. Para se ocupar, jogava uma bolinha de gude na
parede e tateava o cho at encontr-la.
Chegou a repetir a operao cento e setenta e sete vezes no
mesmo dia:
- Mas, graas a Deus, sa de l com juzo.

143

                                 PENA CAPITAL
  universal o dio aos estupradores. Os ladres
aceitam tudo: agresso fsica, estelionato, roubo, explorao
do lenocnio e assassinos torpes - menos o
estupro. A ojeriza a este crime  compartilhada pelos prprios
funcionrios e pela sociedade em geral. Na periferia de So
Paulo, um homem abusou de um menino e
o matou. Os jornais publicaram fotografias do assassino e da
criana. Numa tarde de sexta-feira, por aparente descuido
burocrtico, um grupo de presos veio transferido
para a Casa sem a direo se dar conta de que o criminoso
estava no meio. Do momento em que ele desceu do camburo na
Divinia, at sua morte no pavilho Cinco,
passaram-se exatos cinqenta minutos. Tomou tanta facada que
quase lhe desarticularam o brao direito.
 Marcolino, apontador de jogo do bicho e comerciante de
dinheiro falso, que estava para ser libertado naqueles dias,
disse que a chegada do marginal no pavilho
no foi surpresa:
 - Ns estvamos para l de prevenidos. Tinha recorte
de jornal espalhado nos andares, com a foto dele escrachada.
Os manos esfaqueavam e emprestavam a faca
para quem vinha atrs na fila. Tomou mais de setenta golpes e,
, acredite se quiser, morreu sem dar um grunhido. Eu achei
aquilo muito esquisito, . Credo!
 Outra vez, Gilson, um representante de vendas de
trinta anos, deu carona no fusca para uma estudante de quinze
e fez de tudo para lev-la ao motel. Quando
se convenceu de que ela no iria, puxou o revlver e no
adiantou choro, dizer que era virgem, nada. Com a menina na
mira, dirigiu para um lugar ermo e a estuprou.
 noite, enquanto ele
assistia ao Jornal Nacional com o filhinho adormecido no colo,
a esposa e a sogra lavando a loua do jantar, tocou a
campainha. Era a polcia:
- Esse fusca parado na porta foi roubado hoje?
 Respondeu que no. Quiseram saber, ainda, se ele havia
emprestado o carro para algum amigo. Gilson negou e foi
algemado.
 No distrito, disse aos colegas de infortnio que havia
assaltado um feirante. No dia seguinte, na cela coletiva, um
craqueiro iletrado pediu-lhe para escrever
uma carta de desculpas  me, que havia prometido abandon-lo
definitivamente caso fosse preso outra vez. O representante,
no capricho, assim iniciou a missiva:
"Querida mezinha,  de joelhos, com o corao pungente, que
peo humilde perdo  senhora. Errado estou, no nego, mas
arrependi-me ao cerne de meu ser..."
 Ao terminar a redao, o vendedor leu-a para o outro,
que, emocionado com a beleza das palavras, no pde conter o
choro.
 No meio da leitura, chegou o carcereiro com uma
garrafa de usque pela metade:
- Quem  fulano de tal? Qual  teu artigo?
- 157. Assalto de feirante.
 - Feirante, porra nenhuma! Estuprou uma menina de
quinze anos, com o revlver na cabea da coitadinha. Se
tivesse malandro com vergonha na cara nesse xadrez,
te zoava bem zoado e ainda ganhava meio Drurys de presente.
Irrefutvel. Trazia o boletim de ocorrncia e tudo.
 O rapaz da carta foi o primeiro. Ainda com lgrimas
nos olhos, ficou em p e chutou-lhe a cara. Em seguida, vieram
os outros; eram dezoito no xadrez. O estuprador
apanhou at perder os sentidos.

144

 Acordou com um balde de gua suja no rosto. Estava
amarrado s grades da cela:
 - Me fizeram segurar uma lmpada na mo e encostaram
um fio descascado na grade. A gua que jogaram era para
conduzir melhor a corrente. Choque de 220. S
desligavam quando a luz acendia na minha mo. Dava um tranco
horrvel no corpo, a lngua enrolava, depois aquele claro da
lmpada. Achei que ia morrer. S pedi
a Deus que fosse logo.
 Quando se cansaram da brincadeira, o vendedor desabou
semiconsciente, cheio de sangue e com o rosto deformado. Nessa
hora, urinaram em cima dele.
 A o Barriga, um ladro que tinha sido preso entalado
na clarabia do forro de uma casa na qual esperava encontrar
uma fortuna em jias contrabandeadas,
abaixou-lhe as calas:
- Agora vai sentir que nem a mina que voc estuprou!
 O representante de vendas diz que Barriga no
conseguiu penetr-lo. Cilinho, um ladro do Cinco que matou a
amante infiel e o scio traidor que planejava
fugir com ela e o dinheiro do assalto, testemunha dos fatos no
distrito, desmente, discreto:
 - Conseguiu sim. Mesmo no estado deplorvel em que o
cidado se encontrava. Doutor, aquele barrigudo  mais macho
que ns dois juntos!
 A direo da cadeia tenta proteger a integridade
fsica dos estupradores recolhendo-os no pavilho Cinco, no
Amarelo ou at na Masmorra. A segurana  relativa,
porm, como assegura o Sem-Chance:
 - Um dia ns descobre eles.  o curioso que bisbilhota
no pronturio,  um mano que conhece o passado sujo do cara ou
um funa que no simpatiza, vrios
modos.  sem chance.

 Muitas vezes, ao estuprador  dada a oportunidade de
conviver pacificamente com a massa por longos perodos. Um
dia, no anonimato de uma rebelio, a turba
enfurecida descarrega nele o dio represado. Nessas ocasies,
so atirados do telhado, esfaqueados ou torturados com
requintes de crueldade, como um catarinense
que atendi na enfermaria
com a lngua queimada por uma faca em brasa e infectada pelos
micrbios presentes nos excrementos que o obrigaram a ingerir
a cada trinta minutos.
 A imprevisibilidade do ajuste de contas torna a vida
do estuprador um sobressalto permanente. Qualquer movimento
fora da rotina pode prenunciar o castigo
fatal.
 Num ambiente em que o assassino de um pai de famlia
indefeso merece respeito, pode parecer desproporcional a
averso ao estuprador. Seu Luprcio, que se
orgulha de nunca haver roubado, embora tenha passado a maior
parte da vida na cadeia por causa da maconha, e que anos
atrs, no Oito, viu um branquelo, estuprador
de meninas japonesas, ser empalado com cabo de vassoura
introduzido  marreta, explica a filosofia:
 - No pode deixar essa gente freqentar o ambiente,
porque aqui ns recebemos nossa esposa, a me e as irms. Quem
cometeu uma pilantragem dessa, pode recair
e faltar com o devido respeito. Eu sou contra a pena de morte
no nosso pas, mas sou a favor no caso de estupro.


                                     LARANJA
- Laranja  o personagem pattico que segura bronca

  ele que se apresenta como culpado quando o
carcereiro encontra uma faca escondida, a serpentina para
destilar pinga ou o corpo sem vida. Muitos so recrutados
ao chegar nas celas de triagem. Para aqueles que a famlia
traz mantimentos, no faltam amigos e um canto para morar;
outros, por sorte, encontram parceiros da rua
no pavilho. Quanto aos recm-chegados desconhecidos e pobres:
 - De dez xadrezes que eles pedem vaga, onze negam. A,
para sair do esgano da Triagem, aquele humilde, despojado de
condio financeira avantajada, s tem
um jeito: virar laranja, porque os caras exigem que ele segure
todas as ocorrncias do barraco.
 O contingente maior de laranjas, porm,  recrutado
nas fileiras do crack. Muitos dependentes assumem delitos de
terceiros em troca da droga. O traficante
no precisa executar o servio sujo.
 Quando algum perde a vida na rua Dez, os carcereiros
trancam todas as celas at que o culpado aparea. A tcnica 
infalvel, preso nenhum ousa enfrentar
o pavilho inteiro enjaulado por causa dele. No final, quem
aparece para assumir a responsabilidade  quase sempre o
laranja.
 Embora os funcionrios saibam que aquele no  o
verdadeiro autor do crime ou contraveno, pouco podem fazer
contra o cdigo de silncio que rege a vida
no crime.

144

Uma vez tratei um branquinho chamado Alfinete, magro i
feito um cabo de vassoura, que fez carreira nos semforos da
avenida Paulista. Todas as carteiras, relgios e correntinhas
roubadas, ele fumou no cachimbo de crack,
at ser preso. No pavilho, usurio contumaz, consumiu 60
reais alm de suas posses. Um dia, o credor chamou-o no
xadrez:
 - Alfinete, j faz uns dias que voc me deve. Vai
pagar quando?
 - Neste momento, estou justamente sem condies,
devido que a minha me no veio na visita, porque se encontra
no hospital com a minha irm que tomou um
tiro no peito, na mesma fita em que o meu cunhado foi
chacinado...
O outro o interrompeu:
 - Alfinete,  o seguinte: no final da tarde, vai
aparecer um finado na rua Dez do quarto andar. Voc desce para
a Carceragem e se apresenta. Diz que o cara
ofendeu a senhora tua me que est no hospital, cuidando da
filha viva.
 Alfinete assumiu a autoria do crime, na verdade
cometido por seis detentos, e foi direto cumprir castigo na
Isolada, no trreo do Cinco. Mais tarde, o
laranja assim descreveria os trinta dias que passou nesse
local, dividindo o espao com mais cinco:
 - Para mim no faltava nada, que os companheiros
levavam comida, baseado para fumar e at pinga para criar
coragem de encarar a quentinha.
 Como a Isolada fica no trreo e a janela  fechada por
uma chapa metlica perfurada, os companheiros do lado de fora,
no ptio, junto  parede lateral externa
do pavilho, passavam atravs dos orifcios da chapa, para o
interior da cela, um canudo longo na ponta do qual Alfinete
sugava a maria-louca diretamente da outra
extremidade, mergulhada num inocente bule de caf que um dos
verdadeiros autores do assassinato, distrado, segurava
encostado  parede.

149

 Alfinete assinou a confisso quando havia cumprido
dois anos e trs meses de uma pena de quatro. Quitou a dvida
com o traficante, mas custou-lhe doze anos
a mais de pena a cumprir.
 Outra vez, cheguei na sala de atendimento mdico e
notei o clima esquisito. Os enfermeiros separavam as fichas
dos doentes em silncio e trocavam olhares
enigmticos. Perguntei-lhes o que se passava, disseram que no
era nada. Dei cinco minutos e repeti a pergunta. A resposta
foi idntica. Comecei a atender os pacientes,
e eles calados como tmulos. Resolvi ser mais incisivo:
 - Vocs vo contar o que aconteceu ou vou ter que
descobrir sozinho?
 O chefe deles, um ladro magrinho, implacvel com os
inimigos e cujo maior desgosto era o irmo mais novo ter
entrado para a Pm, sorriu amarelo:
 - Caiu uma faca nossa que estava mocosada na estufa de
esterilizar os instrumentos. Faca mida, s para defesa
pessoal.
 Eles tinham retirado a placa do fundo da estufa,
escondido a faca e parafusado novamente. Era pouco provvel
que os funcionrios descobrissem o esconderijo
sem colaborao de algum informante. Quando lhes perguntei
quem havia assumido a responsabilidade da contraveno,
responderam que tinha sido o Peninha, um rapaz
esqulido internado em fase final de evoluo da AIDS, que
virtualmente mal parava em p.
 Seu Luprcio, 82 anos de idade, avalia a situao
penal do laranja:
 - juiz no quer saber de laranjice, condena com caneta
pesada e manda tirar de ponta. Todo beneficio que pede, ele
nega.
 Se o laranja desce para a Carceragem e assina uma
dessas mortes, no tem como voltar atrs. Ao depor, no Frum,
se negar

150

o que confessou antes, corre risco de vida ao retornar 
cadeia. Mesmo que seja transferido para outro presdio, 
perigoso:
 - Morre tambm, que ns tudo se comunicamos. Todo dia
chega e sai gente da cadeia, contando as novidades.  a rdio
Boca de Ferro.
 A potncia da rdio Boca de Ferro  de tal ordem que,
mesmo libertado, o laranja arrependido no ter sossego na
rua:
- A  que morre mais ainda!
 Embora o nmero de laranjas na cadeia tenha aumentado
significativamente na era do crack, sua existncia no 
exclusiva dos tempos modernos, como explica
o Filsofo, um moreno de culos consertados com esparadrapo,
estelionatrio de muitos golpes:
 - Sempre existiu esse indivduo que segura a morte de
algum e que um dia, devido o caminho sinuoso do destino, ele
prprio acabar no bico da faca de uma
pessoa que, por sua propria vez, vai pr um laranja para
assumir a morte dele. E, assim, por meio da laranjice, vo-se
os filhos queridos de mui tas mes, deixando
apenas lgrimas que rolam no rosto do sofrimento humanitrio.

151

 - Sai todo mundo do xadrez e encosta as mos na parede
da galeria.
 Bebeto estava para l do quinto sono quando os trs
funcionrios deram essa ordem. Ficou preocupado, havia chegado
na cadeia h apenas trs dias, mal conhecia
os companheiros. Os sete saram em silncio e os carcereiros
vasculharam tudo. Estavam quase desistindo, quando um deles
despregou o fundo de um armrio junto 
parede e encontrou duas facas. Bebeto surpreendeu-se:
 - Eu nem tinha noo que duas bicudas daquelas cabiam
naquele espao.
De quem eram, quiseram saber os funcionrios:
 - Os manos na maior miguelagem, . Vou dizer que no 
minha? Uma que os polcias no vo acreditar, outra que eu
passo por cageta, porque se no  minha,
 deles.
 A solidariedade custoulhe trinta dias na Isolada. No
final, acha que valeu a pena:
 - Sa de l com fama de sangue-bom. Minha caminhada
ficou mais fcil na cadeia.
 A lei diz que  melhor pagar por crime alheio do que
delatar o companheiro. Ao acusado  permitido protestar
inocncia; dar o nome do responsvel, jamais.
No caso de punio injusta, o verdadeiro culpado arca com a
dvida da gratido, no mnimo.
 Gitano, um ladro tatuado que trabalhou na enfermaria,
recebeu uma carta da mulher. Aoitado pelo cime, foi atrs de

152

um gole de maria-louca no pavilho Oito. Cidinho Bigorna, seu
fornecedor, lamentou no poder atend-lo, estavam na
entressafra, aps uma batida do choque da Pm.
Entretanto, condodo pela tristeza do amigo, Cidinho Bigorna
conseguiu-lhe uma garrafa de Dreher por 50 reais. Gitano pagou
vinte, assumiu trinta de dvida e levou
a bebida:
 - Para acertar a diferena, vendi umas doses, onde que
dei azar, um companheiro ficou bbado e desrespeitou um funa.
Os homens chegaram para saber a origem
do conhaque, que se eu entregasse o fornecedor, minha cara
estava limpa.
 Gitano explicou que o litro havia aparecido pela
manh, misteriosamente, na porta da cela. Pagou trinta dias no
castigo, mas poupou Cidinho Bigorna, um ladro
que uma vez cravou o punhal com tanta fora na mo de um
comerciante japons que tinha se negado a abrir o cofre, que a
lmina trespassou os ossos e enterrou na
mesa. Para seu azar, a polcia chegou em seguida e, ao ver o
senhor com a mo encravada na mesa, bateu tanto em Cidinho e
nos dois asseclas que ele perdeu a audio
e todos os dentes da frente.
O gesto de Gitano no passou despercebido a Cidinho:
 - Sangue-bom. Se ele me d eu, tinha complicado a
situao jurdica da minha pessoa, que eu j agravei a Colnia
e no posso dar mancada, seno perco o beneficio.
Mas no deixei passar batido, usei minha aproximao com um
funa para levar uma lata de goiabada para ele, na Isolada,
que ali  um ms na quentinha pura, sem recorte.
 Esse tipo de reconhecimento respeitoso no se aplica
aos laranjas, desprezados por assumir a culpa alheia por
motivo considerado torpe: covardia, perdo
de dvida ou imediata recompensa. A diferena entre o
sangue-bom e o laranja  muitas vezes sutil, pois envolve a
motivao que levou ao ato, como explica seu Chico,
um ex-marinheiro que matou o cunhado,
foi preso e no viu mais os filhos, porque, em retaliao, a
mulher disse a eles que o pai havia morrido na penitenciria:
 - O laranja assume em troca de vantagem imediata, 
toma l, d c. O sangue-bom ajuda o companheiro sem saber se
um dia vai ser recompensado; merece nosso
respeito porque  um altrusta.

154

                                  TRAVESTIS
 No incio, com os travestis, meu problema era a
identidade. Sentava-se frente  mesa um homem de seios; e
gestos delicados em cuja ficha eu lia Raimundo
da Silva, mas que todos chamavam de Loreta. Como o mdico deve
se dirigir a esta pessoa? Raimundo, toma o remdio, ou Loreta,
minha filha?
 Logo percebi que o certo era Loreta. Trat-las como
mulher no as ofendia, muito pelo contrrio.
 A trajetria do travesti  marginal. Vm todos das
camadas mais pobres, e quando saem  noite, de seios crescidos
e saia agarrada, so automaticamente identificados
como perigosos, independentemente do que tenham feito. Presos,
vo para o distrito. Os delegados procuram aloj-los em celas
especiais, mas quando no h espao,
o que fazer? Espremdos no meio de homens, numa situao em
que muito valente corre perigo, curiosamente o travesti acha
fora na fragilidade feminina e impe respeito.
 Na Deteno, a maioria vive no quarto andar do
pavilho Cinco, mas h outros espalhados pela cadeia. Nem tudo
so rosas entre elas; brigam e falam mal umas
das outras, porm se unem diante do perigo, por instinto de
sobrevivncia.
 O negro Jeremias diz que nos velhos tempos a cadeia
era diferente:
- Tinha menas travesti e mais bicha.
 Diz que uma delas, de cabelos compridos, conhecida
como ndia, fazia as unhas do diretor, o temido coronel
linha-dura.
 - Era linda. Quando a irm dela vinha na visita, no
dferenciava da outra.
 Quando os mais novos lhe pedem, e s nesta condio,
seu jeremias, sobrevivente de muitos conflitos, d o seguinte
conselho:
 - Se voc vem na galeria e vem uma bicha vindo, 
melhor passar de cabea baixa. J vi muita morte porque foram
contar que o cara olhou para a bicha do outro.
 Tem razo, os maridos so possessivos. Mulher de
cadeia casada jamais circula pela galeria, e para descer ao
ptio, s acompanhada. Para casar, o marido
deve estar em boa situao financeira, pois a ele cabe o
sustento da casa; a ela, a submisso ao provedor. De forma
velada, alguns condenam, mas a unio  respeitada
socialmente.
 O parceiro passivo no  considerado do sexo
masculino. Nos estudos que conduzimos, no bastava perguntar
se mantinham relaes homossexuais. Era preciso
acrescentar: e com mulher de cadeia?
 Antes das visitas ntimas, a homossexualidade era
prolfica. Uma vez, dei o resultado positivo do teste de AIDS
para um ladro desdentado e perguntei-lhe
se havia usado droga injetvel no passado:
 - Nunca. Peguei esse barato comendo bunda de cadeia.
Muita bunda, doutor!
 Travestis solteiros movimentam-se sem perigo no meio
da malandragem, desde que saibam se colocar no devido lugar.
Em caso de desavena com algum ladro,
podem se defender verbalmente, como fazem as mulheres, porm
jamais chegar s vias de fato como os homens.
 Uma vez, dois traficantes do Oito foram ao Cinco
cobrar uma dvida e se desentenderam com os devedores e os
amigos destes. Foram esfaqueados. Entre os agressores,
um travesti.

156

Problema grave: o pessoal do Oito no deixava por menos,
queria invadir o Cinco. Conflito de srias propores - so
pavilhes apinhados - contornado pela esperteza
e persistncia do diretor do pavilho.
 A revolta do Oito no era por causa da agresso,
corriqueira em cobrana de dvida, mas pelo fato de um
travesti haver participado. Zacarias, um asmtico
em crise, faxineiro do Oito, queixou-se ao seu Valdir,
funcionrio do Cinco:
 - Olha a que ponto chegou a cadeia, hoje em dia at
puto d facada em ladro!
 Quando vm para a Deteno, os travestis esto h
tempos longe da famlia. Sem ajuda no presdio, ou casam ou
continuam na prostituio, como antes na avenida.
Neste caso, a preo vil, a troco de uma lata de leo, um bom
pedao de fran go ou uma pedrinha de crack.
 Patrcia Evelin, de clios postios, foi condenada
porque matou um cliente que no quis pag-la numa travessa da
avenida Indianpolis e, o que mais a revoltou,
foi estpido, enxotou-a do carro feito uma cachorra. Um dia,
ao pedir uma banana a mais para o faxina que distribua o
almoo, Patrcia recebeu uma proposta indecorosa:
- S se voc der uma cara aqui, para o ladro.
Hoje ela ri. Diz que foi o mich mais barato da vida:
- Fazer o qu, estava louca por uma banana.
 A AIDS foi devastadora entre os travestis da Casa.
Chegavam na enfermaria com tuberculose avanada, feridas no
perneo, os seios definhados pela interrupo
da plula de hormnio e o silicone industrial infiltrado nos
msculos caquticos. Sofrimento para mulher de verdade. No
final, restritos ao leito, ainda sorriam
com meiguice feminina. Perdi a conta de quantos morreram.
INOCENCIA

 Em inocncia, a cadeia  farta. Na primeira conversa,
o observador se convencer de que ningum  culpado. So todos
vtimas de alguma armao da polcia,
de um delator, do advogado sem-vergonha, do juiz, da mulher
ingrata ou do azar.
 Paulo  um mulato de quarenta anos, meio gordo, de
sorriso agradvel e barba cerrada, que vivia em movimento pela
enfermaria. Durante meses, nosso contato
ficou restrito ao caf que ele trazia no meio da tarde, num
copo com friso de ouro e uma ndia com mai de oncinha. Na
primeira vez, levei a bebida  boca com uma
cerimoniosa preocupao que, para minha surpresa, mostrou-se
descabida: o caf era forte e amargo, um alento no ambulatrio
interminvel. Uma tarde, ele veio com
o copo da indiazinha no intervalo entre dois atendimentos:
 - Paulo, queria agradecer essa gentileza. Toda vez,
caf fresquinho. Vou te trazer um pacote, no  justo voc
gastar do seu.

 - No faa isso, doutor, vai me entristecer.  um
prazer que eu tenho.
- Quanto  tua pena, Paulo?
-Ainda no fui julgado.
- Assalto?
 - No, doutor, que  isso! Estou no aguardo do
julgamento devido um rapaz que morreu na vila onde eu moro.
- Quem foi que voc matou?

158

 - Mataram meu irmo. Depois de uns dias, o assassino
teve um encontro com a morte. A suspeita recaiu-se sobre a
minha pessoa. Uns dizem que fui eu, mas no
viram, e outros dizem que viram que eu no fui. E, nessa de
uns achar que fui eu sem ver e outros ver que no, eu estou
aqui na expectativa do que o juiz vai decidir.
 Meses depois, no julgamento, o juiz o condenou a treze
anos e quatro meses.

159

                                    RICARDO
 Era noite sem lua. O camburo encostou na Divinia e
os dezoito presos desceram algemados. Diante deles, o guarda
de planto resmungou:
- E depois dizem que vo desativar a Deteno.
 Como protesto contra a superlotao, os dezoito haviam
destrudo as celas do distrito em que se encontravam:
 - Sempre a mesma histria: resolvem todos os problemas
do Sistema despejando mais gente em cima de ns.
 No escuro da Divinia, um carcereiro  frente do grupo
e dois atrs, em silncio, o cortejo entrou  esquerda pela
porta do pavilho Dois, parou na Carceragem
para os procedimentos burocrticos e foi encaminhado  cela da
Triagem, no trreo. Um funcionrio parou  porta, at todos
estarem reunidos. Abriu. A luz estava
acesa.
 Um dos membros do grupo de depredadores, Zildenor, por
ironia preso numa loja de brinquedos quando comprava
honestamente um trenzinho para os filhos com
dinheiro roubado num assalto, no pde acreditar que os
carcereiros iriam tranc-los ali:
 - A maior caloria l dentro. Mais de trinta ladres
deitados no cho.
 Alguns dormiam em colches de espuma, outros sobre
cobertores iguais aos dos craqueiros que perambulam pelo
centro de So Paulo. Barbantes esticados de uma
parede  outra serviam de varal para a roupa molhada. Sacos de
plstico com pertences pessoais pendiam dos pregos na parede.
Uns poucos

160

privilegiados penduravam redes no alto e pairavam acima dos
demais (so conhecidos como "morcegos").
 Zildenor conta que a chegada dos transferidos revoltou
os ocupantes da Triagem:
 - Quando se viu que ns era em dezoito, comeou o
batefundo. Reclamao pra caramba, que no tinha condio, que
no cabia mais, que eles iam matar um de
ns para reforar os argumentos. Mas os funas puseram a gente
para dentro, que eles no esto nem a para sofrimento de
ladro.
Um carcereiro ainda justificou:
-  para ningum se queixar que aqui falta calor humano.
 Dentro da cela, os transferidos explicaram aos
companheiros irritados que no estavam l por opo; haviam
quebrado o Distrito. Zildenor at ressaltou um
Ponto em comum:
 - justamente, ns era vtimo do mesmo processo: a
superpopulao do sistema presidirio do pas.
 No foi fcil aquietar os revoltados, que viviam
naquele calor, trancados o dia todo, com as muquiranas picando
e se escondendo nas dobras da roupa. Com
muito custo as coisas se acalmaram e os dezoito se acomodaram
em volta do vaso sanitrio, como rezam as leis da prioridade.
Para eles, foi at um alvio:
 -  que no distrito estava um esgano monumental.
Precisava fazer turno para dormir: uns deitavam, o resto
ficava em p, espremido, sem poder encostar no
outro, que  tudo homem com homem.
 Na noite seguinte, chegou na Triagem um branquinho de
olhos claros com os pertences embrulhados numa folha de
jornal. Entrou quieto e tomou posio ao lado
do vaso.
 Um pouco mais tarde, um moreno de fala fanhosa deitado
perto da janela identificou o branquinho como o amante de sua
mulher.

161
 Assunto grave: namorar mulher de detento desperta dio
 - O alemozinho foi obrigado a entrar na do
grando do
coletivo na cadeia. Vi diversos assassinatos causados por
esses canto.
tringulos amorosos: marido que vai preso, mulher que arru-
ma outro, que mais tarde cai no mesmo presdio do rival des-
consolado. Seu Aparecido Fidlis, funcionrio antigo que ga-
rante haver conhecido ou pelo menos passado na porta de
todos os sales de baile de So Paulo, afirma que  mais fcil
uma esposa abandonar o marido na cadeia do que a amante
vir a faz-lo.
 Da janela, o fanhoso gritou:
 - Tu bateu no meu reconhecimento, maluco. Descolei
que voc  o Ricardo da minha mulher. Agora, vai morrer!
 Zildenor classificou assim o incidente:

 - Um caso de Ricardo e dona Maria Faltosa.
 O fanhoso preterido avanou na direo do loirinho,
mas
a turma do deixa-disso interveio:
 - Deixa disso, cara, vai tirar um monto de cadeia,
tua
pena  pouquinho. Na rua voc acerta esse pilantra.
 O argumento aguou o bom senso do marido trado, que
resolveu se vingar de forma menos radical:
 - Est bom, eu no mato o Ricardo filho da puta, mas
ele vai ter que pagar com a mesma moeda que fez na minha
mulher. Vou subir nas costas dele!
 O branquinho, humilde, procurou demov-lo de tal in-
teno:
 - No faz isso, cara, eu SOU Hiv, no vai ser bom. Eu
j
vou morrer mesmo, voc vai querer pegar AIDS tambm?

Neste momento, levantou no canto um gordo desdenta-
do, ladro de muitas entradas na Casa:
- Deixa o alemo para o tiozinho aqui. No tem proble-
ma, eu tambm SOU HIV!
Zildenor conta que, lamentavelmente:

162

 No dia seguinte, percebendo que Zildenor era
novo como ele no xadrez, o branquinho veio chorar as mgoas:
P, cara, eu contei uma mentira, inventei essa histria que
no tem nada a ver. Eu no SOU HIV. Zildenor confortou o
rapaz:
- No esquenta no, o patrcio do canto tambm no . A
ojeriza  figura do Ricardo foi captada sem piedade
por um Pm que guardava a muralha paralela aos fundos do pa
vilho Oito. Em seu planto, s dez da noite pontualmente, ele
saa da guarita, deslocava-se at um ponto escuro da muralha,
prximo s janelas do pavilho, e batia com o capacete trs
ve-
zes: bum bum buin:
A, ladro, voc na tranca e ela l, fodendo com o Ricardo.
Seguia-se um longo silncio, rompido invariavelmente pela
mesma voz de tenor:
- Gamb, filho da puta!
Era a senha para um crescendo infernal de improprios:
- Pm corno do caralho! Vou contar pra tua irm na visita de
domingo! J comi tua mulher de quatro! Vai buscar tua me
na zona, gamb!
- A gritaria atingia o nvel mximo de
intensidade, ininteligvel, e decrescia at se calarem as
ltimas vozes. Impassvel,
com a silhueta na penumbra, o Pm aguardava a volta do
silncio. Ento batia novamente o capacete contra a muralha:
bum
bum bum
- A, ladro, voc na tranca e ela l, fodendo gostoso com o
Ricardo.

163
                                QUEBRA-CABEA
 Anos atrs, num inverno, o clima ficou pesado no
pavilho Cinco. O diretor de Disciplina recebeu queixas de que
os faxinas cobravam proteo para estupradores
e dvidas de droga diretamente das visitas:
 -  o seguinte, minha senhora, se no trouxer o
dinheiro no fim de semana que vem, seu filho vai morrer!
 Diante desta inadmissvel contraveno s leis da
malandragem, segundo as quais um preso, por mais intimidade
que tenha com o companheiro, s pode se dirigir
a um familiar do outro se convidado a faz-lo, seu Lus,
diretor de Disciplina, chamou Jocimar, encarregado -geral da
Faxina do pavilho:
 - Tenho recebido reclamao de que tem faxineiro
extorquindo famlia de preso, e isso eu no admito. Para
evitar conseqncias desagradveis para o seu pessoal,
 melhor voc por ordem no pavilho.

Seu Lus no gostou nem um pouco da justificativa de Jo-

 -Acho que informaram mal o senhor. Mais a mais, no 
todas as ocorrncias que eu consigo segurar.
cimar:

 Na segunda-feira seguinte, o silncio da noite foi
interrompido pela gritaria no xadrez de um asmtico do segundo
andar. O carcereiro -rondante olhou pelo
guich, viu o doente azul de falta de ar e abriu a cela. Os
seis ocupantes saram com facas, renderam o rondante, desceram
para a Carceragem e dominaram os cinco
funcionrios de planto. Diziam-se

ameaados de morte por ladres inimigos e queriam
transferncia para outro presdio.
 Nessas situaes, apesar da tenso, estabelece-se um
acordo de cavalheiros: os funcionrios rendidos no reagem e
os presos no abusam da violncia, para
evitar conseqncias posteriores. Naquele episdio,
entretanto, tudo foi diferente, os amotinados agrediram um dos
refns e roubaram dinheiro dos outros. Havia dois
faxineiros entre os amotinados.
 As negociaes prolongaram-se madrugada adentro. Com a
chegada do pessoal do diurno o ambiente piorou. Indignados com
a humilhao pela qual passavam os
colegas, os carcereiros pressionaram a direo para deix-los
resolver o caso  fora. No foi fcil cont-los.
 Finalmente os negociadores chegaram a um acordo com os
rebelados. Na porta da cadeia, os funcionrios rodearam o
camburo que iria transport-los para outro
presdio, conforme exigiam.
 Nesse momento, com a perspiccia que os anos trazem
para certas pessoas, seu Lus, homem encorpado, de culos,
postou-se junto  porta do camburo e dirigiu-se
aos colegas cegos de dio:
 -  o seguinte, pessoal: o que esses caras aprontaram
 inadmissvel. Vamos quebrar eles, mas vocs esperam at eu
dar a primeira. Eu sou o diretor de Disciplina,
ningum bate antes de mim.
 Alm da inegvel autoridade moral de quem comeou a
carreira menino ainda, como carcereiro, e chegou a diretor,
seu Lus trazia nas mos um convincente pedao
de cano de um metro.
 No ptio, os presos saram usando os refns como
escudo. Agitados, os funcionrios fizeram um crculo em volta
deles, enquanto os soldados da Pm guardavam
com metralhadoras a entrada do presdio. Quando os presos
chegaram na porta do camburo, o diretor de Disciplina, num
movimento brusco, com o cano na mo, empurrou-os
depressa para
dentro do camburo e trancou a porta imediatamente, sem dar
tempo para a reao dos colegas indignados. No mesmo momento,
voltou-se para eles:
 - Ns somos profissionais. J era, pessoal. Todo mundo
para dentro. j era. Somos profissionais.
 Dizem, mas ningum sabe ao certo, que durante o
caminho os ladres transferidos receberam a surra desejada
pelos profissionais frustrados, pelas mos pesadas
dos Pms que os transportaram para um presdio do interior.
 Resolvido esse episdio, o diretor de Disciplina
encontrou-se diante do seguinte dilema: falar de novo com o
encarregado-geral da Faxina seria interpretado
como manifestao de fraqueza da diretoria; por outro lado,
destitu-lo e colocar algum no lugar no estava a seu
alcance. So os ladres que escolhem o chefe da
Faxina, no ele.
 Seu Lus, av de dois netos e filho de uma senhora de
cabelos brancos como algodo que passou a vida preocupada com
a segurana dele no meio dos ladres,
percebeu que era sua vez no tabuleiro. Seus subalternos
humilhados esperavam vingana; a malandragem, em silncio,
aguardava o movimento seguinte.
 Para ganhar tempo, o que no  desprezvel na situao
em que se encontrava, seu Lus fez um lance ousado: transferiu
o encarregado-geral da Faxina para
a Penitenciria do Estado e declarou vago o cargo. Com a
medida, demonstrou determinao no comando, acalmou os colegas
e assustou os ladres.
 Passaram-se dois ou trs dias sem encarregado e surgiu
o impasse inevitvel: quem seria o substituto? Na viso de seu
Lus, a Faxina provavelmente escolheria
algum que mantivesse o status quo de extorses,
constragimento de visitas e falta

166

de respeito com os funcionrios. Nas noites maldormidas que se
seguiram, cuidando da esposa recm-operada, o cadeeiro chegou
a pensar numa medida radical: transferir
a Faxina inteira, espalh-los pelo Sistema.
 Abandonou a idia porque surgiria um vcuo de poder
perigoso, e na disputa para ocup-lo talvez muitos perdessem a
vida. Alm disso, no se pode esquecer
que os faxineiros exercem funes importantes na rotina da
cadeia. j no dia seguinte, quem distribuiria o caf da manh
e o almoo? E se por medo, solidariedade
ou outro motivo ninguem assumisse as tarefas dos transferidos?
 Como diz o velho Luprcio, maconheiro desde o tempo em
que se podia fumar baseado, tranqilo, pela rua Direita, pela
Quintino Bocava e na praa da S,
porque os transeuntes pensavam que era cigarro de palha:
- Cadeia sem comida  dinamite com pavio aceso, doutor.
 Os anos passados na diretoria de Disciplina deram
tempo para seu Lus organizar uma intrincada rede de
informantes com ramificaes pela cadeia inteira (se
no tivesse tido competncia para mont-la, h muito teria
perdido a posio que ocupava).
 Atravs dos alcagetas, pde avaliar melhor o ambiente
no pavilho. Havia presos revoltados com o proceder dos
faxineiros, gente que tinha sido extorquda,
humilhada ou simplesmente que desaprovava a conduta deles por
razes morais. Descobriu que at dentro da prpria Faxina
existia um grupo que no compactuava com
os mtodos empregados pelos companheiros.
 Maquiavelicamente, seu Lus lembrou-se do Pirulo, um
alcageta que fez carreira num distrito do centro, passando
informaes em troca de parte dos bens
apreendidos com os ladres delatados por ele. O passado sujo
do "ganso", como so
conhecidos esses tipos, aproximou-o do diretor em busca de
proteo assim que chegou na cadeia. Seu Lus foi solcito,
prometeu-lhe discrio e garantiu-lhe que
a massa no teria acesso a seu pronturio criminal. Naquele
momento, o diretor nada pedia em troca; um dia, quem sabe? O
futuro a Deus pertence, era a filosofia
de seu Lus na conduo da cadeia.
 Pirulo, magro, alto e estrbico, tomava conta da Copa
dos funcionrios do pavilho com um grupo de companheiros.
Semanas antes, um deles, condenado por
estupro, havia sido morto a facadas por seis faxineiros, na
sada da Copa.
Seu Lus chamou-o em sua sala e ofereceu-lhe um caf:
 - Pirulo, desde que voc ps o p aqui dentro eu
tenho te protegido. Fui legal, salvei tua vida. Se da minha
boca, Deus o livre, escapasse teu passado de
ganso, voc era um homem morto. Pois bem, chegou a hora de
demonstrar gratido: quero que voc comande o grupo que vai
assumir a Faxina.
 Pirulo era esperto, seu Lus no precisou explicar
tudo, apenas o ajudou a arregimentar os descontentes e aqueles
sobre os quais a diretoria tinha ascendncia.
Com cautela, em poucos dias conseguiu unir trezentos
dissidentes ao redor do novo lder, e fez a contabilidade:
 - So cerca de duzentos faxineiros. Os nmeros esto a
meu favor.
 Apesar da vantagem numrica, o diretor sabia que a
tomada do poder seria traumtica. A essa altura, poderia
transferir a Faxina inteira e instalar Pirulo
e seus asseclas na chefia, mas ficaria evidente para a
malandragem que a polcia estava por trs da armao, e o
grupo montado com tanta perspiccia seria considerado
por todos um bando de traidores. Muitos pagariam com a vida
esse erro de clculo.
 O velho diretor concluiu, ento, que a nica soluo
seria o novo grupo tomar as celas da Faxina, expulsar os
derrotados

168

e impor respeito no pavilho, na melhor tradio do Crime:
"Contra a fora no h resistncia".
 Na linguagem da cadeia, seu Lus estava pisando em
casca de ovo. Todo cuidado  pouco, pensou ele:
- Violncia  remdio difcil de dosar.
 O dia da batalha final transcorreu igual a tantos. s
cinco todos subiram. Nos andares, vindo ningum sabe de onde,
boca a boca, como em outras oportunidades,
correu o boato de que haveria batida geral da Carceragem atrs
de faca, pinga e droga. Quem tinha, correu para esconder.
 No horrio habitual, o funcionrio bateu seguidamente
o cadeado na grade. Corre-corre para o xadrez, barulho de
ferro, televiso e um cantor no cavaquinho.
Rotina total, exceto por um detalhe: no houve a contagem
geral, sagrada na cadeia.
 Baianinho, um ladro de olhos puxados, com mais de cem
assaltos e duas mortes no pronturio, que morava de graa num
dos seis xadrezes COM Tv, de propriedade
de Jocimar, o encarregado-geral recm-transferido para a
Penitenciria, sob a condio de nele esconder oito cas e
assumir a reSDonsabilidade

da posse delas em caso de apreenso, estranhou a falta da
contagem:

 - Mas como diz que vai ter batida, pensei que era
devido a esse pormenor dos fatos. Tudo bem, os polcias no
vo achar nada no xadrez nosso; na piolhagem,
ns mocosamos todas as facas na ducha de tomar banho.
 A mnima perturbao na rotina de uma cadeia deixa os
homens apreensivos. Naquela noite, o boato da batida e a falta
da contagem criou um clima de expectativa
nas celas. Caiu um silncio profundo. Mau sinal.
 Oito e quinze, ouviu-se movimento na galeria mal
iluminada. Roberto Carlos, um ladro magrinho, com uma Nossa
Senhora Aparecida tatuada no peito e cego do
olho direito, que
169
tinha recebido alta da enfermaria duas semanas antes, olhou
ressabiado pelo guich de sua cela:
 - No gostei do que o meu olho viu: ladro solto pela
galeria nessa hora, uns dez ou doze. Se vai ter revista, como
 que esses caras esto por a  vontade
e nenhum funa por perto?
 Atrs dos dez ou doze, subiram mais de duzentos.
Rostos cobertos por capuzes do tipo ninja, formaram um
corredor polons duplo por toda a extenso da galeria
dos xadrezes dos faxineiros, no segundo andar. Vinham com
facas, paus, pedaos de cano e o molho de chaves. Abriram o
primeiro xadrez; justamente o do Roberto Carlos:
 - Mandaram a gente sair s de cueca, que ns era tudo
metido a bandido, tomador de dinheiro de visita e que ns ia
morrer. Dos oito que ns estava, ningum
quis sair em primeiro. Para a gente, naquela hora, nossos dias
tinham chegado a termo. Tentamos bater o p, mas ns estava
sem recurso, as facas todas na ducha.
 Tivessem sabido antes que o plano seria tomar a
Faxina, no as teriam escondido e, principalmente,
desobedeceriam  ordem de se recolher s celas na hora
da tranca.
 Mais experiente que os companheiros de cela, Roberto
Carlos assumiu a liderana:
 - J que ns  para encontrar a morte, que seja livre,
correndo pela galeria e no feito frango acuado no poleiro.
Fiquei s de zorba e sa, que quando o
navio vai a pique, o homem sem iniciativa se afoga mais
primeiro.
 Em treze anos de caminhada pelo Sistema, Roberto
Carlos jamais viu tanta faca quanto as que avistou na sada do
barraco. Confessa que teve medo:
 - Naquele corredor polons devia ser tudo justiceiro,
estuprador, s coisa que no presta, e mais algum ladro com
bronca da gente. No tinha como esboar
combate, nem explicar que

170

ns estava por fora da fita. Dei trs passos e tomei logo uma
paulada que encheu o olho de estrela. Mesmo assim tentei me
sobressair sobre os companheiros que vinham
correndo atrs.
 At chegar na escada, Roberto Carlos tomou sete ou
oito pancadas com paus e pedaos de cano. Quando a atingiu,
nova surpresa o aguardava:
 - Em cada dois degraus tinha um inimigo postado, de
ninja.
 Um deles, por ironia, empunhava uma das facas que
Roberto Carlos havia escondido pessoalmente na ducha e
desfriu-lhe um golpe contra o peito:
 - Oi, como  o destino! Eu escondo a faca, um cara
acha e d justo em mim, para acertar no corao, s que pegou
no ombro. No sei se ele errou na emoo
ou foi obra da santinha tatuada no meu peito.
 Desceu a escada aos socos e pontaps at a porta de
entrada do pavilho, onde chegou a respirar aliviado por
continuar vivo. Mas, como felicidade de ladro
dura pouco, no trecho da Radial que liga o pavilho Cinco com
o Seis havia outro corredor polons de calas amarelas e
capuzes ninja. Entre estes, dizem que se enfileiravam.
funcionrios com pedaos de cano, porque era o planto da
mesma equipe que havia sido rendida e desrespeitada quinze
dias antes. Os cinqenta metros de Radial que
separam os dois pavilhes pareceram interminveis ao ladro:
 - Para mim aparentou mais longe do que o Rio de
Janeiro.
 Uma a uma, as celas dos faxineiros foram abertas e
seus ocupantes expulsos a pau, cano e espetadas de faca. A
inteno era despejar e assustar a Faxina,
sem acidentes fatais. Estropiados, mas vivos, os faxineiros e
seus comparsas foram recolhidos na gaiola de entrada do
pavilho Seis, vizinho. De l, transferidos
para a segurana da Masmorra, do pavilho Quatro.

171

 Os acontecimentos daquela noite foram seguidos
atentamente atravs das janelas de frente, do pavilho Oito,
com visibilidade parcial para o andar da Faxina
desapropriada.
 Na manh seguinte, Pirulo, na condio de chefe do
grupo vitorioso, e dois auxiliares diretos cruzaram para o
Oito em misso diplomtica: debater com a
Faxina local as condies para o reconhecimento da nova ordem.
Com o apoio do pessoal do Oito, pensaram, o pavilho dos mais
velhos, dos reincidentes, certamente
ganhariam o respeito da cadeia inteira.
 Reuniram-se num xadrez da rua Dez, longe da vista dos
carcereiros. O dilogo foi um pouco tenso:
 -Agora vai morrer os trs. Primeiro voc, Pirulo, que
 o chefe dessa patifaria. A gente no vai com a tua fachada
que tu defende estuprador, que nem aquele
teu considerado que os manos teve o bom gosto de matar. Mais a
mais, se queriam tomar a Faxina, tudo bem,  direito seus, s
que tinha de ser na luz do dia. De noite,
com os manos na tranca,  crocodilagem.
 Agarraram os trs, trouxeram um lato de lixo e
puseram o Pirulo dentro com as mos amarradas para trs:
 - Vai morrer queimado e depois vamos te esquartejar
igual Tiradentes.
 Nessa circunstncia extrema, Pirulo demonstrou sua
habilidade de negociador, sem a qual jamais teria chegado na
situao em que se encontrava:
 - Sabe por que vocs no vo fazer isso? Porque se der
quinze minutos e ns trs no voltar so e salvo-conduto para
o Cinco, os sete companheiros de vocs
que esto l, de castigo na Isolada, vo morrer a pior das
mortes.
 Aps instantes de indeciso, Pirulo e os outros dois
foram liberados sob a ameaa de encontrar a morte em qualquer
priso do Sistema para a qual fossem
transferidos.

172

                                      SANTO
 Na poca das palestras do cinema, conheci um
assaltante e receptador de nome Santo, que certa vez se
desentendeu com um amigo de infncia e o matou porque
ele o chamou de Zoreia. De fato, Santo havia nascido sem uma
orelha, mas detestava o apelido e tinha razo para isso:
 - Zoreia  o cara que tem as duas orelhas, mas elas 
de abano. O meu caso  diferente.
 Santo era o oitavo filho de um carregador do Mercado
Central com uma lavadeira da Vila Matilde. Aos sete anos j se
defendia: engraxava sapato na cidade,
limpava pra-brisa de automvel e vendia rosa para ajudar na
despesa. Precocemente desenvolvido, aos treze mudou de rumo:
 -  que despertou a curiosidade pelo mais alto: bater
carteira, dar trombada e bote no bolso de transeunte.
 Quando era preso na rua, os policiais no acreditavam
que um mulato forte daqueles, revoltado e sem uma orelha fosse
menor de idade e o encaminhavam para
O DEIC, COMO OS adultos:

 - Ficava recolhido no meio das feras, apanhando da
polcia que queria meus crimes e eu s tinha trombadinha,
furto de loja e cavalo louco, que era arrancar
a carteira da mo da pessoa no momento que ela ia pagar alguma
coisa.
 O corpo musculoso lhe trazia desvantagem; para a
polcia, um assaltante perigoso; para os companheiros mais
velhos, um ladrozinho que s tinha tamanho.
 Aos dezesseis anos, dependurado de cabea para baixo
em cinco sesses de pau-de-arara no presdio do Hipdromo,
tomou a deciso de mudar de vida.
 - Nessa a eu falei: preciso fazer alguma coisa mais
grave para ter o que dar para os homens na prxima vez que
eles me pendurar.
 Abandonou o centro e foi assaltar casa, supermercado e
caminho de entrega. Acabou no pavilho Nove da Deteno,
condenado a dezoito anos. Na cadeia, com
o tempo conformou-se:
 - Se eu continuasse do jeito que eu vinha, tinha
morrido ou ficado paraltico. A vida no crime deixa a gente
embriagado de sucesso.
 Essa era a histria dele. Quando o fato que contarei a
seguir se passou, tnhamos concludo o estudo mostrando que
78% dos travestis da Casa estavam infectados
pelo vrus da AIDS. Impressionado com o nmero, combinei com o
Waldemar Gonalves dar uma aula para os travestis. O Waldemar
conversou com o grupo preso no quarto
andar do Cinco e acertou para uma sexta s oito horas, no
cinema.
 No dia, cheguei no cinema do pavilho Seis meia hora
antes. Foi sorte, porque o cu escureceu e uma tempestade
cheia de relmpago e trovo cortou a luz da
cadeia. Ningum havia chegado. Entrei sozinho, na penumbra, e
fui para a janela oposta  porta de entrada ver a chuva. Meu
olhar ficou entretido com a gua que caa
sobre a muralha e na fachada do pavilho Cinco.
 Num dado momento, sem querer, notei um vulto. Era um
mulato alto, de camiseta branca, na soleira da porta de
entrada, a uns vinte metros de mim. Ficou um
tempo ali, quieto, olhando na minha direo. Depois virou as
costas e foi embora. Eu, de lado na janela, fingi no ter
notado a presena dele.
 Passou um pouco, chegaram dois outros que se
encostaram nos batentes da porta. Em seguida, voltou ele e se
colocou

a mo.

no meio dos dois, com o peso do corpo apoiado na perna direita
e a outra jogada displicente para a esquerda. Os trs no
trocaram uma palavra. Senti medo, naquele
escuro, sozinho, o temporal ensurdecedor.
 Perdi a noo do tempo. O mulato de camiseta branca
comeou a vir devagar, na cadncia da malandragem. Os outros
dois continuaram parados na porta. Quando
ele cruzou metade da distncia que nos separava, desisti de
demonstrar que estava tudo normal e virei o corpo na direo
dele.
 Ele empinou o queixo no rosto escuro. Fiz o mesmo, o
corao disparado, e esperei-o chegar. Quando estava mais
perto, mudei o peso do corpo para a outra
perna e coloquei as mos na cintura, como aucareiro, de
frente para ele, queixo para o alto, em sincronismo completo
com a expresso de seu rosto, agora possvel
de enxergar.
A dois passos de mim ele abriu um sorriso e me estendeu

- Firmeza, doutor?
- E a, meu?
 -  o seguinte, doutor, queria colaborar com o senhor
nesse trabalho do cinema. O, o maior respeito!
- Voc sabe mexer com equipamento de som?
 - D para me ajeitar, doutor. Na rua, trabalhei com
receptao de eletrnicos.
 Combinamos que ele iniciaria na semana seguinte.
Apertou minha mo com fora e sorriu de novo. Perguntei como
faria para encontr-lo:
-  s chamar pelo Santo, todo mundo conhece.


                         MULHER, MOTEL E GANDAIA

 Santo veio ajudar na montagem do equipamento. Um dia,
no final de uma palestra apareceu com a seguinte conversa:
 - Doutor, sem querer abusar do prestgio que eu tenho
na sua amizade, ser que o senhor podia espiar o Ezequel, um
considerado meu que est padecendo do
pulmo, l no Oito?
 O xadrez de Ezequiel estava repleto de mulheres
coloridas. Eram tantas que perdiam a individualidade, formavam
um mosaico que cobria a parede e a porta.
Na cama de baixo, jazia ele, sem dentes na frente,
desidratado, com febre alta, dor no peito e o rosto escorrendo
suor.
 Ezequiel contou que havia cumprido pena por trfico e
receptao, numa penitenciria do interior. Uma noite, nesse
lugar, viu dois carcereiros retirarem
um preso do xadrez. No dia seguinte, o rapaz apareceu morto. A
verso foi de que havia tentado fugir. Inconformado, Ezequiel
denunciou os dois ao diretor do presdio.
Anos mais tarde, transferido para a Colnia Penal, em regime
semi-aberto, Ezequiel deu de cara com os mesmos funcionrios,
que para l haviam sido designados em
conseqncia do caso anterior. Ele concluiu com pesar:
- A Colnia no  um mar de rosas como dizem.
 Prevendo o pior, sete dias depois Ezequiel saiu para o
trabalho e no voltou. Conformou-se:

outra coisa.

176

- Eu pensei de um jeito, mas o destino traioeiro quis

 Numa casinha que inundava, na beira do crrego da Vila
Joaniza, ele encontrou os pais idosos passando necessidade e a
irm mais velha com quatro crianas,
abandonada pelo mardo. Assumiu o comando da famlia.
Fugitivo, no tinha endereo fixo, mas aparecia na casa dos
pais para almoar ou jantar. Nem bem terminava
a refeio e j estava na rua outra vez:
 - Uma coisa de bom eu tenho, estou no crime faz tempo
e nunca invadiram a minha casa. No dou esse tipo de liberdade
para a polcia.
 Para recomear, um amigo emprestou-lhe duzentos gramas
de cocana. No trfico, logo aprumou. Poucas vezes teve que
dormir nos hotis da Boca do Lixo, com
as prostitutas do baixo meretrcio; passava as noites na casa
de mulheres usurias da droga em So Paulo, Santos e So
Vicente.
 - A vida fugitiva  agitada: mulher, motel e gandaia.
No meio da noite, o senhor est numa boate tomando um
birinaite, toca a sirene l longe e pronto: j
acha que so os homens. Est no centro da cidade, passa um
carro da polcia, d um frio no espinhao, onde tem cara que
foge e  preso de bobeira, quando o barato
nem era com ele.  uma vida desassossegada permanente.
 Ganhava bem, comprava a 250 o grama e revendia a 600
ou 700. Entregava de moto, pessoalmente. Faziam-no entrar e
ofereciam-lhe bebidas importadas. Confiavam
tanto que at cheque lhe passavam. Ezequiel depositava-os na
conta da irm, que desde criana o protegia. Devagarinho,
acertou a vida da famlia, uma casinha mais
no alto, provises na despensa e as crianas arrumadas pela
irm caprichosa. Para poup-los, dizia-lhes estar no ramo de
compra e venda de automveis.
 - Nesse interinho, arrumei uma namorada que trabalhava
na Telesp e tinha conhecimento desse pessoal da sociedade,
advogados, mdicos, gerente da Bolsa de
Valores e um cara que fazia propaganda na ???-n,, gente de
Primeiro Mundo que gos-

177

tava de mim porque eu s vendia da pura, desbatizada.
Inclusive, um cliente meu, o maior bicheiro da zona sul, cujo
nome no posso nomear, dizia que eu era um moo
muito honesto.
 Um dia, um de seus fregueses foi preso e a situao
complicou:

 - Devem ter arregaado o elemento de um jeito que ele
deu eu como traficante. Entregou at a placa da minha moto que
estava no nome do meu pai. Puxaram a
filiao e deu eu, em dvida com a justia e tal.
 Dias mais tarde, ele estava sentado no cavalete da
moto, tomando um sorvete, quando surgiram dois revlveres por
trs:
- E a, Ezequiel dos Santos, como  que vai o fugitivo?
 Um dos policiais, de culos escuro, fez a revista,
enquanto o colega de barba guardava distncia. Ezequiel estava
desarmado.
 Passado o susto inicial, ele perguntou se havia
possibilidade de acerto:
 - Os homens queriam oitocentos contos ou eu voltava
para a cadeia. Respondi que j tinha tirado dez anos, sofrido
o po que o diabo amassou, que os velhos
dependiam de mim e tal e mais a irm e os sobrinhos, que eles
no iam ganhar nada me prendendo, que eu no praticava o mal
para a sociedade, s vendia para quem
queria comprar. A, naquela de p e p, acabou que eles
ficaram com a moto, que valia quatrocentos, em troco da
liberdade.
 Sem a moto, perdeu agilidade no atendimento da
clientela e as vendas caram. Contraiu dvida com o fornecedor
que trazia da Bolvia.
 A soluo para a crise veio atravs do tal gerente da
Bolsa de Valores, numa boate da Vila Olmpia. O rapaz cheirou
uma nova partida, espreguiou-se, ps
o brao no ombro de Ezequiel e cochichou:

 - Voc  gente boa, cara, s me traz farinha pura.
Quer saber? Vou te dar um lance de meio milho de dlares.
Voc merece!
 Ezequiel, ento, soube que a namorada do rapaz da
Bolsa era secretria de um doleiro dos jardins que guardava
500 mil dlares no cofre de casa. O corretor
deu o endereo do doleiro, contou que ele tinha trs filhos e
que a esposa andava de cadeira de rodas por causa de um
acidente.
 - Resolvi caprichar no planejamento do plano. Passei
dez dias na campana do cidado.
 Descobriu que o doleiro saa s seis do escritrio e
ia direto para casa. De incio, pensou domin-lo na sada,
lev-lo para casa e obrig-lo a abrir o
cofre. Abandonou a idia, por achar complicado seqestrar
algum em plena Faria Lima, no horrio de movimento. Achou
mais prudente entrar na residncia da futura
vtima, no final da tarde, manter como refns a senhora da
cadeira de rodas, as crianas e as duas empregadas, e aguardar
a chegada do doleiro, que no teria alternativa.
 Para executar o assalto, precisava de um parceiro e de
um carro veloz. Lembrou-se do Alcindo, de Santo Andr, que
havia cumprido pena com ele na cadeia de
Presidente Wenceslau.
 - O Alcindo tinha fama de melhor piloto do
ABC,inclusive ganhou a alcunha de Airton.
 Acertaram tudo para uma quarta-feira. Na vspera
roubariam o carro, que ficaria escondido na casa de Alcindo.
Na porta do veculo pintariam em letras brancas:
"Floricultura Rosa Gardnia", e, na hora marcada, chegariam na
casa do doleiro com as flores para entregar. Os passos foram
ensaiados diversas vezes. Tudo perfeito,
j faziam planos para os dlares. Como no episdio da Colnia
Penal, no entanto, o destino traioeiro mais uma vez decidiria
de outra forma.
 Tera-feira, saram atrs do automvel. No estava
fcil, Alcindo era exigente com a qualidade do veculo. Depois
de muito andar, encontraram um casal discutindo
num carro que pareceu adequado ao piloto. Apresentaram-se com
um revlver em cada janela. O rapaz no esboou reao,
pediu-lhes apenas que deixassem a noiva em
paz. Eles explicaram que lhes interessava s o automvel e
saram por So Caetano.
 Dobraram trs ou quatro esquinas e, quando iam
respirar aliviados, surgiu no se sabe de onde uma viatura do
ttico mvel com sirene e tudo. Comeou a perseguio:
 - Os homens vinham pendurados nas janelas, com os
pneus cantando e as armas apontadas. S no atiravam porque
tinha muito carro em volta. Naquele aperto,
descobri que o Alcindo, de Airton no tinha nada, estava mais
branco que ambulncia. O trnsito abria por causa da sirene e
ele feito barata tonta esbarrava nos
carros, s no descontrole do sistema nervoso.
 Quando entraram no viaduto da GM, em So Caetano,
colidiram de frente com o Gol de um rapaz que levava a esposa
grvida ao mdico. Com o impacto, Ezequiel
desmaiou.
 - Acordei na porta do hospital, mas os caras me deram
um rasgo, uma coronhada Luger de 9 milmetros no queixo, que
eu ca fora de si outra vez.
 Na mesma noite recebeu alta. Ao chegar no distrito,
foi informado de que o proprietrio do carro roubado era da
Rota e havia telefonado para a polcia, que
iniciou a perseguio. Para piorar, o rapaz do Gol abalroado,
com a esposa grvida, era investigador do DEic. A dupla
coincidncia tornou o castigo mais pesado:
Perdi sete dentes e ainda tive que arrancar o nico que sobrou
sozinho, na frente. Me penduraram pra valer; tomei tanto
bicudo de coturno no costado
que tenho problema at hoje quando o tempo esfria.

Os homens chutavam e diziam:
 - Se a criana do cara morrer, ns vamos acabar com a
tua raa, vagabundo!
 Ele jurava ter paixo por criana, que era louco pelos
sobrinhos, principalmente o caula, afilhado de batismo, e que
jamais tivera inteno de matar um
inocente no ventre da me. No adiantava, era chute na boca,
nas costelas, e mquina de choque no corpo molhado.
 - Dia de azar, doutor. O cabrito para o pinote era de
um cara da Rota, a trombada no Gol do investigador, ainda mais
com a mulher grvida, e o Alcindo, de
Airton, s o vulgo. Culpa minha que entrei nessa, cara criado
em favela vai dirigir bem com 22 anos de idade? Nunca teve
carro!
As recordaes no pareciam confort-lo:
 - Est difcil, doutor. Subo a escada do pavilho sem
flego, arqueado como um velhinho e ainda agoniado com o
sofrimento da famlia sem mim, passando dificuldade.

181

                                  MARIA-LOUCA
 Ezequiel curou-se da tuberculose e ficamos amigos. Era
o mais respeitado destilador de maria-louca do pavilho Oito.
A fama de sua pinga atraa fregueses
da cadeia inteira.
 A tal de maria-louca  a aguardente tradicional do
presdio. Segundo os mais velhos, sua origem  to antiga
quanto o sistema penal brasileiro. Apesar da
punio com castigo na Isolada, a produo em larga escala
resistiu. O alto teor alcolico da bebida torna os homens
violentos. Eles brigam, esfaqueiam-se e faltam
com o respeito aos funcionrios que tentam reprimi-los.
 A opinio de Ezequiel sobre a prpria arte no primava
pela modstia:
 - S vendo da boa e da melhor. Se eu ponho a minha
pinga numa colher, o senhor apaga a luz e risca um fsforo,
sai um fogo azul purssimo. Que muitos tiram,
mas nem pega fogo; sai um vinagre. Eu tiro usque.
 O milho de pipoca que a me lhe trazia, sem saber a
que se destinava, era a matria-prima de Ezequiel: num tambor
grande comprado na Cozinha Geral, juntava
cinco quilos de milho, com acar e cascas de frutas como
melo, mamo, laranja ou ma. Depois, cobria a abertura do
tambor com um paninho limpo e atarraxava a
tampa, bem firme:
 - Esse  o segredo! Se vazar, o cheiro sai para a
galeria e os polcias caem em cima, que eles  sujo com pinga.
Diz que o cara bebe e fica folgado com a
pessoa deles. Do jeito que eu

182

fecho, doutor, pode passar um esquadro no corredor com o
nariz afilado, que pelo odor jamais percebe a contraveno
praticada no barraco.
Durante sete dias a mistura fermenta.
 - No stimo, a fermentao  tanta que o tambor chega
a andar sozinho, parece que est vivo.
 Devido  presso interna, todo cuidado  pouco para
abrir o recipiente. Aberto, seu contedo  filtrado num pano e
os componentes slidos desprezados. Nessa
hora, a soluo tem gosto de cerveja ou vinho seco. Um golinho
dessa maria-louca amortece o esfago e faz correr um arrepio
por dentro. Cada cinco litros dela, vai
virar um litro de pinga, depois de destilada a mistura.
 Na destilao, o lquido  transferido para uma lata
grande com um furo na parte superior, no qual  introduzida
uma mangueirinha conectada a uma serpentina
de cobre. A lata vai para o fogareiro at levantar fervura. O
vapor sobe pela mangueira e passa pela serpentina, que
Ezequiel esfria constantemente con uma caneca
de gua fria. O contato do vapor com a serpentina resfriada
provoca condensao, fenmeno fisico que impressionava o
bigorneiro, nome dado ao destilador da bebida:
 - Olha a fora do choque trmico! Aquilo que  vapor
se transforma num lquido!
 Na sada da serpentina emborcada numa garrafa, gota a
gota, pinga a maria-louca. Cinco quilos de milho ou arroz cru
e dez de acar permitem a obteno de
nove litros da bebida.
 - Sai limpssima,  a coisa mais gostosa do mundo. Do
bom e do melhor. Pinga minha no d sede de madrugada, nem
vontade de urinar, e no incha os ps.
 Quando comeou, Ezequiel era um dos poucos bigorneiros
do Oito. Trabalhava muito, das oito da noite s trs e meia

183

da madrugada, porque isso no  trabalho que se faa  luz do
dia. Ganhou prestgio:
 - Vendia o litro por uma paranga de 10 contos. Hoje
qualquer vagabundo tira pinga, sai um vinagre azedo e custa os
olhos da cara: 30, 40 contos o litro.
Os caras perdeu a noo.
 Cuidadoso, Ezequiel nunca foi pego por desleixo na
prtica de seu oficio:

- As trs vezes que a casa caiu, foi por crocodilagem.
 Na primeira, passou noventa dias num cubculo com mais
oito, no calor do vero. Nas duas outras, pegou apenas trinta
dias. Os tempos haviam mudado, a me
at armou um esquema para visit-lo nos finais de semana.
 Orgulhoso de seu trabalho, Ezequiel s abandonou a
maria-louca quando caiu gravemente enfermo. Malandro esperto,
nunca se interessou pelo lucro fcil da
cocana:
 - Doutor, eu tenho quatro inquritos de 157, tudo
assalto. Nunca fui pego com droga. Se eu entrar em cana
mexendo com crack aqui dentro, vou cair no 12,
trfico. j se trata de um artigo diferente, adquirido na
prpria cadeia. Crime contnuo; crime como fantasia, o juiz
poder argumentar. Vai querer tirar eu como
irrecupervel e negar todos os benefcios.
 O pavilho Oito, dos reincidentes,  por tradio o
maior produtor da maria-louca que abastece a cadeia, seguido
pelo Cinco. Nele, em maio de 1998, numa
nica batida foram encontrados mil litros da bebida. Diante do
meu espanto ao saber da quantidade apreendida, um funcionrio
comentou:
 - Pode parecer muito, doutor, mas no se esquea de
que so 7 mil presos.
 De fato, os mil litros de maio no quebraram a marca
de uma apreenso anterior: 1200 litros destilados, prontos
para a venda.

                                      MIGUEL
Miguel assaltava com o parceiro, Antnio Carlos. Confia-
vam tanto um no outro, que assumiram o compromisso mtuo de
cuidar das duas famlias caso um deles fosse preso. Num
assalto a um supermercado, conseguiram um bom
dinheiro e aplicaram em cocana. Prosperaram e continuaram no
ramo, pequenos comerciantes de Taboo da Serra.
Um dia, vinham com dois companheiros na carroceria de
uma caminhonete carregada de mveis, com dois quilos de
cocana escondidos num armrio, e encontraram uma barreira
policial. No tiroteio, perdeu a vida um dos companheiros
da carroceria. Miguel foi dar pessoalmente a notcia  viva.
 A moa ouviu plida, em silncio. Depois chorou
comovida. Miguel disse que tambm estava triste. Entregou-lhe
a parte do marido no trabalho e, qualquer coisa,
Antnio Carlos e ele estariam  disposio.
 Foi embora encantado com a beleza da morena. Nem na TV
tinha visto pernas to bonitas, sonhava com elas  noite. Por
causa dessa moa, Miguel largou da famlia
e viveu um grande amor pela primeira vez, ele aos 38 anos,
ela, com 22.
 Uma tarde, quando a unio ia para o segundo ano,
Antnio Carlos, que morava na quadra de baixo, apareceu na
casa de Miguel. A morena tinha ido visitar a
me. A conversa foi truncada, esquisita, at Miguel
interromper:

- Qual , Antnio Carlos? Vamos entrar no assunto que
te trouxe.
- Tua mulher te passa pra trs com um polcia.
- Quem falou?
 Antnio Carlos deu o nome do motel onde eles se
encontravam e disse que tinha visto os dois, pessoalmente,
namorando na viatura da delegacia, numa travessa
do largo do Taboo.
 O corao de Miguel acusou a punhalada. Matar o
investigador passou por sua cabea, mas abandonou a idia;
teria que fugir da cidade. Dar fim  vida dela?
Como? No  fcil matar a mulher amada, constatou.
 Com um n apertado no peito, Miguel dobrou as roupas
dela, ps a mala do lado de fora e passou o trinco na porta.
Quando a morena chegou, bateu forte:
- Que  isso, Miguel, ficou maluco?
 No incio, ele nem respondeu, mas ela insistiu, disse
que tinha direito de saber o que aquilo representava. Se ele
estava apaixonado por outra, ela iria
embora mesmo, que ela no era de dividir homem com vagabunda
nenhuma. Depois, queixouse de que os vizinhos ouviam tudo, e
ele abriu a porta.
 Na sala, ela se assustou com o estado trmulo do
marido. Tirou o copo de bebida da frente dele e despejou na
pia. Em voz baixa, procurou acalm-lo at conseguir
que ele falasse:
 - Voc  puta, sem-vergonha. Larguei da me dos meus
filhos, te dei conforto, carinho e amizade e voc pagou com a
moeda da traio. Estou sabendo do polcia
que voc encontra no motel atrs do posto de gasolina na
Raposo Tavares, faz mais de um ano, enquanto o trouxa aqui
arrisca a pele para rechear teu guarda-roupa.
A morena ouviu impassvel. Depois, interrompeu o silncio:
- Quem foi que te contou?
- No interessa.
 -  lgico que sim. Uma pessoa conta uma histria que
destri o nosso lar e eu no tenho direito de saber quem 
ela?

186

 Ele disse que no, que ela no prestava, no valia um
pozinho da padaria, e que tinha sorte dele ser bom, caso
contrrio cometeria um desatino. Ela, de
mos frias, ignorava as ofensas. Apenas queria saber:
- Quem foi que te contou?
 Com a persistncia das mulheres, insistiu nesse ponto
at Miguel confessar:
- Foi o Antnio Carlos. Por qu?
 - Ento, voc vai fazer ele repetir na minha cara.
Depois, pego minha mala e vou para a minha me.
 Antnio Carlos repetiu a histria inteira na frente
dela e do marido, referiu-se at a detalhes que havia poupado
do amigo:
- Vi voc morder a orelha dele, na viatura!
 Ela escutou calada, no sof, at terminar a narrativa.
Caiu outro silncio, novamente quebrado por ela:
-Voc falou tudo, mas esqueceu a parte melhor.
- Como assim?
 A morena, que tinha o olhar perdido nos bibels da
cristaleira enquanto ouvia o relato, levantou do sof,
postou-se diante de Antnio Carlos e, direto nos
olhos dele:

 -Voc no contou que me pediu para abandonar o Miguel
e fugir com voc. E que eu no aceitei porque amo meu marido,
e sou amiga da tua mulher.
 Antnio Carlos chamou-a de mentirosa, disse que no
fosse o respeito pelo amigo arrebentava a cara dela. Xingou-a
de mente diablica. Ela no respondeu.
Como esttua, pegou a mala e foi embora.
Antnio Carlos virou-se para o amigo:
 - Miguel, voc no acreditou nessa pilantra,
acreditou? A gente tem quatro anos de parceria e nunca partiu
de mim qualquer crocodilagem.
- Deixa quieto, Antnio Carlos.
 Antnio Carlos notou uma ponta de hesitao no tom do
parceiro.
 Enquanto acontecia essa conversa, a morena tocava a
campainha na casa do difamador. Uma loira oxigenada apareceu
na janela. Era Dina, mulher dele.
Conversaram em p, na sala:
- Dina, o Antnio Carlos  veado?
- Que pergunta, Marli!
 - Desculpa, mas ele veio para o Miguel com uma
histria que eu saio com um polcia, que nunca existiu. Veio
com tudo, para destruir meu casamento. Ento
eu pensei: ou ele quer que eu v embora para ficar com o
Miguel ou quer que ele v para ficar comigo.
- Que  isso? O Antnio Carlos tem nojo de bicha.
- Ento, minha filha,  de eu que ele est a fim.
Pegou o nibus e foi para a casa da me.
 Antnio Carlos era mulherengo, e Dina, um poo de
cimes. Uma vez engalfinhou-se com uma prostituta das relaes
dele, e foram necessrios dois homens e
uma senhora para separar. Quando Antnio Carlos entrou em
casa, Dina cravoulhe as unhas no rosto:
 - Ordinrio, sem-vergonha, sempre falei que voc tinha
um qu por ela. Mas voc dizia que eu era louca. Nem mulher de
amigo voc respeita mais, cachorro?
 Na manh seguinte, Antnio Carlos bateu na porta de
Miguel:

- Dormiu com gato?
 - Voc no acredita. Tua mulher saiu daqui, foi para
mi nha casa e ps na cabea da Dina que eu estou a fim dela.
Quando cheguei a Dina voou com as unhas
na minha cara.

disse:

188

Miguel inspecionou os ferimentos no rosto do parceiro e
 - Antnio Carlos, o corvo da desconfiana pousou na
nossa amizade. Daqui por diante, cada um segue seu destino.
 O amigo tentou argumentar, explicar que a sociedade
era vantajosa para ambos, mas foi intil. No dia seguinte,
Miguel foi buscar Marli na casa da me. Ela
aceitou voltar com a condio de que passassem uma borracha no
acontecido e voltassem  harmonia de antes. Ele prometeu e
cumpriu, parcialmente. Passou a segui-la,
inventava viagens e aparecia em casa no meio da noite; at pos
um capanga na esperana de surpreend-la. Nada: o
comportamento dela era exemplar.
 Um ano depois, bem estabelecido nos negcios, mudaram
para uma casa maior, passada no nome de Marli, porque ele no
podia ter nada em seu nome. A fase de
suspeio havia chegado ao final. Quanto ao parceiro, no se
encontraram mais. Antnio Carlos tinha sido preso e condenado
a cumprir pena na Casa de Deteno.
 Nessa ocasio, Miguel levantou 40 mil dlares num
seqestro e resolveu triplicar o dinheiro. Disse para a mulher
que comprariam um stio depois do golpe.
 Chegou de nibus em Santa Cruz de la Sierra. De l,
pegou uma jardineira dessas em que as pessoas entram com
engradado de galinha e desceu na praa principal
do povoado, em frente ao hotel da me do vendedor de cocana.
 Miguel pagou 50% do valor da encomenda e o boliviano
mandou refinar a cocana. Levou dois dias, mas ele no se
aborreceu. Aproveitou para uma pescaria no
barco do irmo do fabricante, um sujeito contador de casos
engraados. A droga foi entregue do lado brasileiro. Para
fugir da rota mais vigiada, Miguel pegou nibus
para Braslia, depois Belo Horizonte, So Paulo e Santos, onde
vendeu a cocana. Vestia terno azul-marinho e camisa abotoada,
na mo uma Bblia, que leu durante
todo o percurso:

189

- S para desbaratinar.
 Chegou em casa com quase 100 mil dlares. Abriu o
porto e atravessou o corredor escuro. O cachorro latiu e veio
fazer festa. Bebeu gua no filtro e foi
para o quarto. A morena dormia de calcinha e camiseta regata.
Deitou-se ao lado daquele corpo quente e mordeu-lhe com
delicadeza o pescoo. Miguel estava feliz,
outra vez.
 Na manh seguinte, ela acordou cedo e foi comprar po.
Ligou do orelho da padaria:
- O passarinho voltou para a gaiola. Trouxe um saco de

alpiste.
 A polcia surpreendeu Miguel no vaso sanitrio. O
amante de Marli chefiou a operao. Depois, viajou com ela
para o Nordeste.
 Miguel chegou na Deteno e chafurdou no crack. Pegou
tuberculose, no tratou direito e morreu magrinho, na
enfermaria. De tristeza, disse o Antnio Carlos,
que cuidou do amigo at o ltimo dia de vida.

190

                                   UM ABRAO
 Claudiomiro diz que s foi preso porque tinha mulher e
filho. O delegado investigou os postos de sade e encontrou a
ficha de vacinao do menino, com o
endereo da me. Achou a moa bonita e mandou segui-la. Uma
noite, ela tomou o nibus para Leme com o menino e hospedou-se
na casa da tia. Na vizinhana, a polcia
montou um posto de observao. Uma campana mvel, como dizem.
Trs dias depois ele apareceu, morto de saudade.
 Conheci Claudiomiro por uma exigncia da Deteno:
todo preso convocado para depor nas delegacias, antes de sair
precisava de um atestado de integridade
fsica. Mandei-o tirar a roupa. O corpo era forte, tinha trs
cicatrizes antigas e nenhum sinal de violncia recente.
Perguntei se havia apanhado:

- Aqui, no. Vamos ver agora no ???DERI.M.
- Muita coisa l?

de carro-forte.

- Querem me atribuir dezessete assaltos a banco e oito

Vai assinar quantos?
 Nenhum, doutor. Nem posso, j tenho mais de quinze
anos para tirar.
 Dois dias mais tarde, vi na televiso uma tentativa de
fuga coletiva no DEPATRI (Departamento de Proteo ao
Patrimnio). Claudiomiro foi um dos lderes
e voltou na mesma noite para a Deteno. Encontrei-o na
Radial:

191

- E a, quantos voc assinou no DEPATRI?
- No chegaram a me interrogar.
- Ganha dinheiro nesse negcio de banco e carro-forte?
- Ganha, mas o dinheiro s vale a metade, s vezes at menos.

 A esta frase enigmtica seguiu-se uma conversa sobre a
profisso dele:
 - Precisa muita disciplina, doutor. Deu oito da noite,
eu me recolho. No fico em bar, boate, porque a polcia pode
me pegar de bobeira numa batida qualquer.
Durmo cedo e, em casa, quem acorda o galo sou eu.
 Claudiomiro auxiliava a mulher nos trabalhos
domsticos, fazia feira, trocava fralda e contava histria
para o menino na cama. Quando se escondia, nem a
esposa sabia seu paradeiro. Mas no abusava da confiana:
 - Para ladro de banco no falta mulher. S que muitos
acabam na cadeia ou na armadilha de outro bandido, porque
mulher com o amor-prprio ferido  capaz
de muita vileza.
 Claudiomiro diz que a informao precisa 
fundamental: a que horas passa o carro-forte, quantos mil no
cofre do banco, o nmero de guardas, todos os detalhes.
Para isso, valia-se dos prprios vigilantes das empresas de
segurana, com cautela:

 - No pode ser intempestivo:  meu, me d a lana a.
Tem que se achegar atravs de um amigo, uma pessoa da famlia,
num bar, uma cervejinha.
Chegou a passar seis meses atrs da informao desejada:
 - Fiquei amigo do rapaz, emprestei dinheiro, at no
batizado do filhinho eu fui. Tem que ganhar a confiana
primeiro, para conscientizar depois. Explicar
que ele arrisca a vida para defender dinheiro dos outros e
ganhar uma mixa-

192

ria, que essas firmas exploram o cara pra caramba, que se ele
morrer no trabalho, a mulher e os filhos vo passar
necessidade.
 uma catequese:
- At a pessoa dar a fita.
 Depois, semanas ou meses para planejar a ao. Se  um
banco,  preciso desenhar um croqui com a posio dos caixas,
do cofre, das cmeras de circuito interno
e dos seguranas. Quando  carro-forte, cronometrar o trajeto
por dias consecutivos, preparar o mapa das ruas prximas e
definir a hora exata da abordagem. Tarefa
demorada e solitria:
 -  eu e Deus. Saio de terno, gravata e pasta de
couro, e conforme o caso, abro uma conta na agncia com
documento falso, para justificar a ida diria.
 Com o plano organizado, Claudiomiro sai para contratar
o pessoal. A pior parte, segundo ele:
- Precisa saber lidar com ladro.
 Um assalto desses pode exigir at uma dzia de homens
e Claudiomiro no tinha quadrilha fixa, por motivo de
segurana. Achava mais prudente terceirizar certas
tarefas, com exceo daquelas executadas por dois companheiros
h muitos anos com ele. Mesmo assim:
 - Eles no sabem onde eu moro, nem com quem eu vivo.
Quando tenho uma lana, eu que vou atrs deles. Reunimos
cedinho, dois dias antes do assalto eu conto
o plano, mas no digo aonde , nem eles perguntam. S no dia,
meia hora antes de sair  que todos ficam sabendo.
 Os trs analisam o croqui e calculam quantos e a que
preo os homens sero contratados. Alguns ganham fixo, outros
por percentagem. O clculo deve ser bem-feito:
 - Seno vira repartio pblica e ningum v a cor do
dinheiro.

193

 Depois da reunio, Claudiomiro volta para casa e os
outros saem para montar a equipe e roubar os veculos de fuga,
ou cavalos de pinote, como preferem, que
mais tarde sero abandonados nas cercanias do assalto, porque
os Ocupantes passaro para outro automvel, s vezes at com
pessoas comuns em seu interior, para disfarar:
 - Tem gente que pe uma senhora gorda para dirigir e
at criana no banco de trs. Eu no exponho inocente; a
polcia, quando chega, no quer conversa.
 No dia combinado, Claudiomiro sai s quatro e meia da
manh para buscar o armamento: fuzis de repetio,
metralhadoras e revlveres importados. S ele sabe
o esconderijo: no mundo do crime, arma  poder:
 - Geralmente deixo na casa de gente que no passa
sobre ela qualquer suspeita, uma pessoa de f ou uma viva que
freqenta igreja.
 A pessoa presta o servio pelo aluguel da casa, cesta
bsica ou auxlio num momento de necessidade. A cumplicidade
cria laos afetivos:
 - Cinco da manh, quando apareo para buscar as
ferramentas, tem uma senhora que me serve caf com mandioca
cozida e bolo de milho. O pitoresco  que eu
chego sem avisar nem nada, e est a mesa posta, toalha
limpinha, bolo e o leite no fogo. Na sada ela me deseja: Deus
te proteja meu filho! Naquele momento,  um
conforto ouvir essas palavras de uma senhora de idade.
 No horrio das cinco s dez da manh, com as armas no
carro, comea o perigo. Os policiais da Delegacia de Assalto a
Banco conhecem os modelos de automveis
preferidos pelos ladres e sabem que  o momento de peg-los:
- Depois do assalto, com o dinheiro na mo, um abrao.
O trabalho exige sangue-frio. Nem quando tudo d certo

194

a tenso afrouxa. O assalto pe a polcia na rua e assanha os
marginais:
 - Eu, quando pego uma bolada, evaporo. Mudo de casa,
troco o carro, no recebo visita para ver minha TV, geladeira
nova, o conforto da minha famlia. Prefiro
assim do que ter que contratar segurana, como muitos fazem, e
perder a privacidade da famlia.
A notcia chega at na cadeia:
 - P, fulano est com carro zero bala. Est dando
dinheiro.  o Slvio Santos. Deu sorte mas  trouxa, a
corridinha dele  curta. O qu? Um p-de-china
com essa pacoteira? Eu mando enquadrar e um abrao.
 Certa vez, Claudiomiro foi abordado por dois homens
armados que o revistaram e pediram 30 mil dlares. Era ordem
do chefe deles, para deix-lo em paz. Claudiomiro
disse que o dinheiro estava no cofre do banco. Foram at l.
Um dos chantagistas ficou do lado de fora com os revlveres e
o outro aguardou no saguo da agncia.
Claudiomiro foi at o cofre e voltou com um pacote na mo. Deu
trs tiros num deles e mais dois no outro, sem abrir o pacote.
Os mortos no imaginaram que poderia
haver um revlver no cofre.
Claudiomiro no se vangloria da esperteza; agiu a contra-

gosto:

 - Era mais vantagem ter pagado os 30, que eu tinha
levantado 74 no assalto, do que matar os dois no meio de todo
mundo, arriscando levar tiro dos seguranas
ou da polcia que chegou em seguida. S que no posso passar
como vacilo, porque, a,  um bote atrs do outro, e eu tenho
mulher e filho para adiantar.
 Claudiomiro sempre dispunha de 50 mil dlares para o
caso de ser preso. Se a polcia chegava, a primeira pergunta
que ele fazia era se havia possibilidade
de acerto:

195

 - Se eu percebo que o cidado vacila, eu conscientizo
ele: olha, voc ganha 700, 800 reais por ms, paga aluguel,
no d para comprar um brinquedo para o
filho, sustenta a me ou a sogra, vai ganhar o qu, me levando
preso? Para mim, sai mais barato acertar com voc do que
entregar na mo do advogado, que vai me soltar
em outras instncias.
Por isso, dizia que seu dinheiro valia metade.
 Outra vez conseguiu boa soma numa agncia Bradesco.
Alugou um apartamento de trs quartos na Manoel Dutra, no
Bixiga, e mobiliou no gosto da esposa, com
todos os eletrodomsticos:
- No usufru vinte dias no conforto.
 Uma tarde, foi fazer compras no supermercado da praa
14 Bis. Quando saiu, notou a presena de um homem de bon na
banca de jornal, ao lado. Em vez de atravessar
a rua, Claudiomiro virou  direita, na direo da Barata
Ribeiro. No farol, antes de cruzar, olhou para os lados: o
homem de bon havia virado em sua direo. Claudiomiro
no teve dvida:
- Polcia. Farejo de longe.
 Foi para casa distrado, vestiu a bermuda, calou um
chinelo, pegou a mulher, o nen, o carrinho, a sacola com as
mamadeiras em cima do dinheiro, e desceram.
O homem de bon estava no posto de gasolina, em frente. Deve
ter pensado que os pais levavam a criana para passear e
esperou que voltassem, em vo:
- Dobramos a Treze de Maio, parei um txi e um abrao.
Largaram tudo para trs:
 - Televiso, cmera de vdeo, dormitrio de casal e
tudo o mais. At o meu Verona novo, com os documentos
certinhos na garagem. Minha senhora no disse um
ai. No era a primeira vez que abandonava tudo, nem seria a
ltima, mas aquele dia me cortou o corao ver as lgrimas no
rosto dela.

196

Meses mais tarde, Claudiomiro foi transferido e fugiu
da cadeia. Continuou sua caminhada at cair sob o impacto das
balas de uma viatura da Pm que, por acaso,
passava pela porta do banco no momento do assalto. Tinha 35
anos, deixou a mulher grvida e o menino pequeno.

197


                               DEUSDETE E MAN


 Quando cheguei no pavilho Quatro, o sol batia forte
na gaiola do trreo. O Pequeno conversava com um funcionrio
na beira da escada. Perguntei se o elevador
estava funcionando. Respondeu com o erre arrastado na lngua
presa:
- Para variar, no. Doutor, o senhor j viu os corpos?
 Num banheiro do trreo improvisado como necrotrio,
jaziam os corpos de dois rapazes. Um deles, de bermuda, estava
horrivelmente queimado. As bolhas ocupavam
o corpo todo, principalmente o rosto e o trax; algumas haviam
rompido expondo a derma profunda, escura e mida. O outro, de
camiseta do Ba da Felicidade, estava
todo esfaqueado.
 Os corpos eram de Deusdete e Man de Baixo, criados na
mesma vizinhana, amigos inseparveis at os catorze anos,
quando Man de Baixo arranjou emprego num
ferro-velho e saiu da escola. Na mesma poca, o pai de
Deusdete perdeu a vida num trem de subrbio. Orfo, Deusdete
foi trabalhar de dia e estudar  noite. Man
de Baixo envolveu-se com o crime e desinteressou- se pela vida
esforada do amigo.
 Uma noite, Francineide, irm do meio de Deusdete, na
volta da padaria, foi molestada por dois marginais da vila. Um
disse que queria chupar o sexo dela;
ofendida, ela o mandou chupar a me, vagabundo. Apanhou,
chegou em casa com o vestido rasgado e a boca inchada.
 Ao ver a irm naquele estado, Deusdete correu para a
Delegacia. Esperou mais de duas horas para ouvir o escrivo
di-

198

zer que ficaria louco se registrasse todas as queixas de
agresso da vila.
 Uma semana aps o incidente, no nibus, um vizinho o
avisou de que os agressores souberam da ida dele  delegacia e
queriam peg-lo. Deusdete pediu adiantamento
na firma e saiu pela vila atrs de um revlver. No demorou
para encontrar.
 Apesar da arma, mudou de itinerrio. No adiantou,
eles o acharam na volta da escola, sozinho, por uma rua
escura.
- Aonde pensa que vai o estudante dedo-duro?
- No quero briga. Deixa eu ir para casa.
 - Voc vai para a casa da mame, veado, s que antes a
gente vai te fazer uns carinhos, que nem ns fez para a tua
mzinha.
 O primeiro que se aproximou tinha uma barra de ferro
na mo. Abusado, no percebeu que Deusdete havia sacado o
revlver. Tomou dois tiros e caiu morto. O
companheiro saiu correndo com a faca. Deusdete atirou, errou e
seguiu no encalo. Trs, quatro esquinas depois o fugitivo
entrou num bar. Deusdete esperou agachado
atrs do muro de uma casa em frente, at que o inimigo saiu,
olhou ao redor desconfiado e cruzou a rua bem na direo em
que ele se encontrava. Levou as trs ltimas
balas do tambor, para espanto do gordo de bermuda e do barbudo
que jogavam sinuca no alpendre do botequim e mais tarde
testemunharam contra ele, no julgamento.
 Quando Deusdete chegou na Deteno foi acolhido por
Man de Baixo, proprietrio de um xadrez no pavilho Cinco,
cumprindo oito anos e seis meses por roubo
de carga e formao de quadrilha. Com a ajuda do amigo,
Deusdete, condenado a nove anos por homicdio duplo, fez
ambiente com a malandragem. Dava aula na escolinha
do pavilho, escrevia cartas para

199

os menos letrados e batia peties para anexar aos processos
dos companheiros.
 A harmonia, entretanto, foi abalada quando Man de
Baixo conheceu o crack. De nada adiantaram os conselhos do
amigo, tudo o que Man conseguia evaporava
na fumaa das pedras.
Na noite da tragdia, apareceu o Fuinha no guich da cela:
- Man, trouxe umas pedras da melhor para ns fumar.
Deusdete perdeu a pacincia:
 - Chega! Voc no vai fumar comigo aqui dentro. Quer
se matar, foda-se, mas fuma amanh, depois que eu sair!
Fuinha preferiu se retirar:
- Deixa quieto, Man, amanh ns fala.
 Man de Baixo, diminudo na presena de Fuinha, no
disse uma palavra. De madrugada, enquanto o companheiro de
infncia dormia, encheu um tacho com cinco
litros de gua, uma lata de leo, um quilo de sal e acendeu o
fogareiro. Quando a mistura levantou fervura, despejou-a em
cima do outro.
 Deusdete morreu na enfermaria do Pavilho Quatro nas
primeiras horas da manh. Ao meio-dia, os companheiros
revoltados reuniram-se com a Faxina do Cinco,
num "debate", como eles dizem, que envolveu mais de quarenta
pessoas. Resolveram que um grupo aguardaria nas imediaes da
entrada do pavilho e outro bloquearia
a escada no primeiro andar. Quando Man entrou, o grupo de
baixo subiu atrs.
 Seu corpo foi levado para o Quatro num carrinho de
transportar comida. L, um detento o agarrou pelos braos,
outro pelas pernas e o depositaram deitado
de lado, no espao do corredorzinho que sobrou entre Deusdete
e a parede. O brao inerte de Man caiu sobre a cintura do
amigo.

200

                                  AMOR DE ME
- Cadeia  lugar onde o filho sofre e a me no v.
 A noite havia cado. Na sala de consulta, eu louco
para ir embora, entrou um alto, forte, devagarinho, as pernas
abertas e as mos amparando os testculos.
Precisou de dois enfermeiros para subir na maca.
 O rapaz tinha fama de assaltante destemido, ligao
com bicheiros, cicatriz no superclio direito e era
subencarregado da Faxina do pavilho Oito, o dos
reincidentes. Apresentava um abscesso na bolsa escrotal do
tamanho de um pssego grado. A leso, vermelha como fogo,
tinha contedo lquido, flutuante; na parte
central, a pele estava to tensa que chegava a brilhar.
- Olha, precisa lancetar para tirar o pus. Vou te encami-

nhar para o Hospital do Mandaqui.
 - Doutor, faz oito dias que eu estou sofrendo. j me
encaminharam para o Mandaqui trs vezes, mas faltou viatura.
Ontem, depois de eu implorar, no desespero,
acabaram me levando, mas nem desci do camburo porque os PMs
falaram que ia demorar e eles no eram ama-seca de vagabundo.
No tem condies do senhor lancetar
aqui mesmo?
 - O material daqui  precrio. Alm disso, voc no
tem noo da dor que d.  duro de agentar sem anestesia.
Ele esboou um sorriso:
 - Que  isso, doutor, o senhor est falando com um
homem que tem quatro balas no corpo, S no antigo DEIC me pen-

201

duraram mais de vinte vezes. l apanhei de cano de ferro duas
horas e no entreguei o que os homens queriam. Se  pela dor,
j era:  comigo mesmo!
 Sofrimento por sofrimento, pensei, talvez ele tivesse
razo. Esses encaminhamentos para hospitais externos eram
complicados, pois o regulamento exigia escolta
da Polcia Militar, em viaturas nem sempre disponveis, para
evitar fuga ou ataque de quadrilha para resgatar o
prisioneiro. Nas filas dos hospitais pblicos, a
demora acabava de azedar o relacionamento com a Pm. Assisti a
diversas mortes na enfermaria enquanto os doentes aguardavam
transferncia.
 Do nosso lado, o mdico podia enfrentar problemas
legais quando um falso doente, encaminhado por ele para
atendimento externo, fugia. Comigo aconteceu duas
vezes. Numa delas, um ex-mecanico com caquexia associada 
AIDS conseguiu tirar a mo esqulida da algema presa ao leito
e sumiu. Na outra, Romrio, um craqueiro
com tuberculose avanada, pulou o alambrado do Hospital
Central, situado atrs da Deteno, enquanto os guardas
assistiam Brasil versus Alemanha na TV, passou quinze
dias na rua fumando crack e voltou preso, para morrer dois
meses depois na enfermaria.
 Se o doente estava disposto, tudo bem. Na falta de
mdico-cirurgio, mandei chamar o Lula, responsvel pelas
pequenas operaes da enfermaria, assaltante
de banco, operador prtico e personagem de outra histria.
 Quando Lula chegou com o material, distribu quatro
detentos -enfermeiros em volta da maca, nos braos e pernas do
faxina. Com cuidado, levantei o testculo
doente e coloquei um chumao de algodo por baixo. A menor
mobilizao da regio inflamada provocava dor intensa. Chegava
a escorrer suor na fronte do faxina.
Tudo pronto, indiquei o local da inciso.

202

 De luvas, Lula, canhoto, com uma lmina de bisturi
entre o indicador e o dedo mdio, cortou fundo a pele
infiltrada e no mesmo movimento Jogou a lmina na
bandeja e espremeu forte, da periferia para o centro da regio
abscedada. Apertou firme, sem trgua. O pus jorrou amarelo,
grosso.
 A inciso pareceu indolor. A compresso, no entanto,
provocou um urro oriundo das entranhas do faxina. Seu corpo
retesou-se como um arco apoiado na cabea
e nos calcanhares. No fosse a conteno obstinada dos quatro
enfermeiros, a maca teria virado. Lula, impassvel, no aperto.
 O espasmo gutural s terminou quando faltou ar nos
pulmes do faxina:

 - Ai, pelo amor de Deus, larga... Ai, mamezinha...
Vela eu, maezinha querida.
 Lula, sem d, permanente, at a secreo amarela
rarear e o sangue tingir o algodo de bord. Ento, soltou e
espremeu mais trs vezes, bem apertado, para
ter certeza do servio bemfeito. Quando, afinal, largou, o
queixo do ladro tremia feito vara verde. Plido, lavado de
suor, ele continuava obcecado pelo amor filial:
 - Ai, mezinha querida... Ai, minha Nossa Senhora, me
ajuda... Vela o teu filho, mezinha.
Minutos depois, aliviado, o faxina agradeceu, humilde:
 - Graas a Deus, melhorou. Deus abenoe vocs. Deus
abenoe o senhor, doutor. Deus te proteja, Lula.
 Profissional, recolhendo os instrumentos com cara de
poucos amigos, Lula interrompeu:
 - Chega, deixa Ele em paz agora. Muito Deus na boca de
ladro, no presta!
 Em cmera lenta, o doente desceu da maca e saiu de
pernas abertas, capenga pela galeria. Quando a porta fechou,
Pe-

203

drinho, passando um pano ensaboado na maca, comentou em voz
baixa:
 - P, um bandidao assim, assaltante de carro-forte,
subencarregado de Faxina, implorar pela mamezinha desse
jeito!

                                     EDELSO
 De todos os presos que passaram pela enfermaria,
Edelso
era o que tinha mais jeito para medicina. Era o preferido da
malandragem para aplicar injees, fazer curativos e, nas ma
drugadas sofridas, receitar o melhor tratamento sintomtico.
Com a experincia, aprendeu a diagnosticar tuberculose melhor
do que muito mdico. Trazia o doente j com a conduta:
 - Doutor, esse aqui tem febre, dor no peito e sudorese
noturna. Foi receitado soro com vitamina e ampicilina, mas eu
j comecei o esquema trplice.
 Agradvel no trato, dentes preservados, roupa cuidada,
destoava naquele ambiente de homens pobres e corpos marcados
pela violncia.
 Edelso tinha vrias passagens por roubo de automveis.
Veio para a Deteno condenado a oito anos e sete meses,
enquadrado em vrios artigos do Cdigo Penal: receptao,
formao de quadrilha e falsidade ideolgica.
Foi preso porque
assumiu a identidade de um mdico recm-falecido em Mogi
das Cruzes. Com documentos falsos, alugou um sobradinho
numa cidade vizinha e montou consultrio, com placa na porta,
receiturio e nmero de CRM.
 - Eu comprava carro roubado num desmanche de So
Paulo e vendia na fronteira com o Paraguai.
 Para disfarar, o papel de mdico caa como uma luva
para
ele, ex-aluno de um curso de auxiliar de enfermagem:
 - Mdico toda hora com carro novo,  normal.

204

 Fez a mudana para a residncia-consultrio  noite. O
vizinho at ajudou a carregar os mveis. Na manh seguinte,
acordou com a campainha. Olhou pela Janela
do banheiro e viu dois soldados da PM, um alto de bigode ruo
e o outro suado, enxugando a testa com um leno. O ladro
lamentou a sorte:

- Nem bem cheguei e a casa caiu!
 Pensou em fugir pelos fundos a p. No seria a
primeira vez a deixar os pertences para trs. Hesitou,
enquanto a campainha insistia. Por fim, resolveu bancar
o desentendido e desceu com calma, o revlver enfiado no
cinto. Pela janelinha da porta, perguntou o que os policiais
desejavam:
 - Doutor, tem uma criana passando mal no posto de
sade e o mdico no chega. D pra quebrar o galho da gente?
 Quando Edelso chegou no posto, havia vrias pessoas em
volta de uma menina de sete anos que ardia em febre e dor de
garganta, na maca. Gente humilde. Uma
senhora de preto que parecia ser a av explicou que a criana
vinha com dor forte de cabea. Edelso estranhou:

- Criana pequena com cefalia?
 Passou a mo por trs do pescoo da menina e tentou
dobrar-lhe a cabea para encostar o queixo no peito. A criana
gritou de dor:
- Rigidez de nuca!
 O sinal neurolgico foi suficiente para o falso mdico
fazer o diagnstico:
 - Meningite! Precisa levar a menina para o Emlio
Ribas. Aqui no tem condies.
 Neste momento, enquanto Edelso orientava o caso,
chegou o mdico de verdade, assim descrito pelo falsrio:
 - Um tipo esquisito, de peito peludo e chiclete na
boca. Entrou de branco, no falou com ningum, s olhou a
gargan-

206

ta da pacientinha, receitou Keflex de seis em seis horas e
virou as costas.
 Edelso ficou calado, procurando uma desculpa para
escapar dali. O negcio dele era outro e no podia correr
perigo. Quando saiu, o pai da menina veio atrs:
 - Doutor, o senhor acha que  meningite, o outro
mdico disse que  s amigdalite, mas nem examinou a menina. O
que eu fao?
- Se a filha fosse minha, eu levava para o Emlio Ribas.
 Prevaleceu o bom senso paterno. No hospital
confirmaram o diagnstico de meningite bacteriana, internaram
e curaram a criana.

 A fama de Edelso correu e a clnica prosperou. Cobrava
baratinho ou atendia de graa, conforme as posses do cliente.
No dependia da medicina para sobreviver,
ganhava de 2 a 3 mil dlares em cada carro que levava para o
Paraguai:
 - So duras essas viagens, doutor. Tem que rodar tudo
de noite para evitar a fiscalizao, sozinho, que no pode
envolver um amigo ou uma mulher inocente,
numa treta dessas. E se a polcia parar? Furar o cerco, parar
e ir preso, ou entregar tudo na mo deles?
 Um dia a casa caiu, de fato. Um clnico-geral de Mogi
das Cruzes atendeu uma cliente com prescrio dada por Edelso
em nome do mdico falecido e deu parte
na delegacia.
 A carreira de Edelso na enfermaria terminou num final
de semana. A chefia do pavilho Dois transferiu-o para o
pavilho Sete, porque numa batida no xadrez
de um traficante, segundo disseram, seu nome constava na lista
de devedores, com 10 reais de dbito.
 Meses mais tarde, cruzei com ele na Radial. Estava bem
de aparncia, descansado do trabalho com os doentes. Fazia at
planos para quando cantasse a liberdade:

207

 - Vou parar com esse negcio de carro, desmanche,
Paraguai, que  sem futuro. Com a medicina que aprendi com o
senhor, no vejo a hora de montar consultrio
num lugarzinho simples e viver tranqilo cuidando dos meus
pacientes.

208

                                       LULA
 Fui apresentado ao Lula no ambulatrio por causa de um
alemozinho sardento com uma facada na regio gltea. O rapaz,
plido, com uma gua de asas abertas
tatuada nas costas, vinha deitado de bruos na maca, com as
calas abaixadas e a cueca rasgada pela lmina. O golpe tinha
atingido a musculatura profunda mas poupado
os nervos e vasos sangneos mais importantes; bastava lavar e
suturar.
 Com uma fila de doentes por atender, achei que devia
encaminhar o doente para um pronto-socorro, pretenso
imediatamente contra-indicada pelo Edelso:


 - A essa hora, j era, doutor. Vai ficar para amanh.
Por que o senhor no autoriza o Lula?
 Lula era ladro de longa carreira. Chegou na cadeia
com foto escrachada no Fantstico, depois de cair baleado no
saguo da agencia Ita de Santa Ceclia,
num assalto em que morreram dois ladres. Baleados, ele e o
chefe da quadrilha, um rapaz mido chamado Ferrinho, chegaram
no Carandiru. cercados de respeito.
 Bandeco, figura popular do Cinco, que fala feito
metralhadora, diz que nada  to gratificante:
 - Chegar numa cadeia e os companheiros te tratarem com
todo o respeito  a coisa mais bonita na vida de um ladro.
 Menos de um ms depois, Ferrinho, torturado pela
depresso, enforcou-se com um lenol na janela do xadrez. No
bolso da cala, tinha o retrato de um menino
pequeno e de uma loira de boca pintada.

209

 Mal Edelso saiu, Lula entrou, sapato branco,
correntinha de prata com crucifixo no peito desabotoado, e
tinha pressa. Sem me dar muita ateno, observou
o ferimento e aproximou varias vezes os bordos do corte.
 - D para fazer, doutor, no ofendeu nenhum nervo.
Facada na bunda  s para esculachar a vtima.

 Foi nosso primeiro contato. Insisti que o segredo era
anestesiar o ferimento e lav-lo demoradamente com gua e
sabo. Quando terminou, veio me chamar para
dar alta ao ferido. A sutura estava tima, as distncias entre
os pontos perfeita, o sangue escorrido cuidadosamente
retirado.
 No sei quem o treinou - a verdade  que era operador
talentoso. Com instrumentos precrios e fio grosso de algodo,
fazia delicadas suturas de cicatrizes
imperceptveis, drenava abscessos, extraa projteis do corpo
e, habilidosamente, retirava ciscos dos olhos com a ponta de
uma agulha de injeo.
 Uma vez, trouxe-me um paciente com um lipoma gigante
nas costas. Era uma tumorao mole, gordurosa, de quinze
centmetros de dimetro. Queria que eu autorizasse
a exerese. Achei difcil uma cirurgia daquelas sem anestesia
geral. Disse-lhe que eram loucos, ele e o outro. Respondeu-me
que J havia feito operaes maiores,
em locais menos acessiveis.
 Meses depois, encontrei o rapaz do lipoma no ptio do
Sete e ele, sorridente, levantou a camisa para me mostrar a
cicatriz do tumor operado. Estava perfeita,
em forma de Z para aliviar a tenso da pele repuxada sobre o
corte. Perguntei-lhe quem o havia operado:
- Foi o Lula. No ficou bom?
- Como, se eu no autorizei?
- Ele pediu para outro mdico.
 Trabalhamos muitos meses em contato. Ensinei-lhe
princpios de assepsia, noes sobre as linhas de fora da
pele para

210

orient-lo nas incises e emprestei- lhe um atlas de anatomia,
que ele folheou com os olhos brilhando de curiosidade e nunca
mais devolveu. Aprendi a admirar-lhe
a habilidade cirrgica e o prazer que tinha no aprendizado-
Com o tempo, ficamos amigos.
 Num final de ano, notei que seu comportamento se
alterou. O riso espontneo desapareceu; andava agitado e
tenso. Na galeria, olhava desconfiado para trs
e para os lados. No horrio de trabalho, s vezes desaparecia.
Ficou magro e com o rosto marcado.
Uma manh, cruzei com ele no corredor:
- Lula, quero falar com voc, em particular.
 Entramos na sala do centro cirrgico. Ele trancou a
porta e guardou a chave no bolso.
-Voc est fumando crack.
 - Que  isso, doutor? Nem posso, ainda mais operando o
pessoal a.
 - Lula, voc entendeu mal, no  pergunta: estou
afirmando que voc fuma crack, todo dia, e muito.
 Negou de novo, mas eu insisti que no ficava bem para
ns, homens barbados, pais de famlia, brincarmos de enganar
um ao outro.
 - , doutor, comecei fazem ses meses. No comeo era
de vez em quando; passava uma semana sem fumar. De uns tempos
para c,  todo dia.
- Toda hora.
 - A bem dizer verdade,  toda hora. Acordo j na
fissura de ir para o fundo, no Oito, atrs de pedra. Tem vez
que eu falo, est me prejudicando, vou dar
um tempo. Que nada, passa um dia ou dois, estou indo para o
fundo na maior neurose. Gasto uma mdia de 20, 30 contos por
dia nessa desgraa.
- E o dinheiro?

211

-Vem da cirurgia. Aqui nada  de graa, doutor.
 - Mas voc opera as pessoas e depois fuma essa praga:
vai perder a habilidade manual.
 - Desculpa, a o senhor se engana. Eu no fumo crack
depois de operar, eu fumo antes.
 -Voc  louco, irresponsvel. O crack tira o controle
dos movimentos.
 - Doutor, a o senhor est novamente enganado. s
vezes eu tenho que fazer uma sutura grande, difcil. Deso
para o barraco e cachimbo. Subo, injeto o anestsico
e lavo a ferida com gua e sabo, conforme o senhor ensinou.
Lavo sem pressa, chego a passar quinze minutos embaixo da
torneira escovando, espuma alta, no me importo
com o sangue. Seco bem, tudo limpinho, e quando vou operar, ,
maior barato, vejo os vasos brilhando fluorescente. Amarro um
por um, mo firme no porta-agulha, no
deixo escapar nada. S quando a ferida fica seca, sem escorrer
uma gota, as bordas bem aproximadas pelos pontos do
subcutneo,  que eu suturo a pele. Se o senhor
medir a distncia entre o buraco da passada da minha agulha e
a borda do corte, de um lado e do outro da cicatriz, vai ver
que no tem diferena nem de um milmetro,
tanto  a preciso.
 O crack acabou com ele. Dias depois o diretor do
pavilho o demitiu da enfermaria e o transferiu para o Oito. A
permanncia foi curta; privado da clnica
particular, no teve como manter o vcio, contraiu dvidas e
perdeu a moral entre os companheiros.
 Um dia, foi encontrado sem vida no xadrez. Ao lado do
corpo, uma seringa suja de sangue. Overdose, foi a notcia que
correu na cadeia. Achei muito estranho;
o pessoal da enfermaria, que tinha trabalhado anos com ele,
nunca soube que o Lula injetasse na veia.

212

                                 MARG SUELY
 Marg passou trs meses no distrito, numa cela com 32
homens, e ningum abusou dela. Apesar da sainha agarrada, do
busti e do silicone nas coxas, o maior
respeito. Quando veio transfrida para o Carandiru, conheceu
um ladro e se apaixonou. Ele foi franco com ela:
 - Se quiser ser minha,  o seguinte: s minha,
entendeu? Te ponho num barraco, dou conforto, mas no vai
tirar eu, no. Manter mulher de cadeia custa o
olho da cara. Tirou eu, j era.
 O xadrez da Marg tinha um beliche, cortina bege e um
tapete de talagara com dois cisnes e uma casinha, para no
pisar na friagem. Entrando, dava-se de
cara com o come-quieto, um lenol azul pendurado logo, atrs
da porta, para assegurar a privacidade. Na janela do fundo,
uma cortininha xadrez. Recortes de artistas
inundavam as paredes. Sob a janela, um armrio tosco servia de
mesa para o fogareiro. Sobre ele, o bule de caf com o bico
coberto por uma galinha de croch. Ao
lado, a Tv com bombril na antena.
 Cigarro, guloseimas, o baseado da tardinha, a plula
para os seios e o respeito da malandragem, por conta do
ladro. Da parte dela, apenas a fidelidade total.
Sair no corredor, nem pensar, seu lugar era a cela, porta
fechada, come-quieto cerrado e cortina xadrez puxada para
evitar galinhagem e derramamento de sangue.
De vez em quando, um solzinho podia, porm nunca
desacompanhada; trs seguranas do ladro, desciam com ela.

213
 Na parte de cima do beliche morava a ZIzi, travesti
mais velha, de rosto assimtrico devido ao deslizamento do
silicone injetado na regio malar. Era a domstica,
cuidava da cozinha, limpeza, lavar e passar. Nas visitas do
ladro, discreta, recolhia-se.
 Marg se apaixonou porque no comeo ele foi bom para
ela, protetor, exigente, no deixava faltar nada. Quanto a
ela, passava os dias na TV, com as revistas
femininas e o esmalte de unha. As outras morriam de inveja. Um
domingo de visita (no para elas, h muito distantes da
famlia), com sangue nos olhos, o ladro invadiu
o barraco:
-Voc vai aprender a calar essa filha da puta da tua boca!
 E, antes que ela entendesse, acertou-lhe um murro no
queixo com tamanha fora que Marg, em p ao lado do beliche,
perdeu o equilbrio, bateu a cabea no
armrio e com o cotovelo derrubou o bule do ch de erva-doce
para acalmar o nervoso da Zizi. Isso porque a mulher do
ladro, me dos trs filhos dele, na visita,
disse que j sabia de tudo e que s voltaria quando ele
largasse daquele degenerado!
 O incidente estremeceu o relacionamento de Marg com o
ladro. As coisas nunca mais foram como antes. A crise atingiu
o auge quando ela teve uma ferida ntima,
dolorosa e mida. O ladro no se conformou:
- Sem sexo, acabou o luxo, minha filha!
 Dito isto, cortou batom, plula, baseado, reforo na
despensa e, o pior para ela e a Zizi, at o cigarro.
 Quando a ferida arruinou, Marg Suely veio para a
enfermaria. Passou um tempo com a gente. No primeiro dia, o
ladro apareceu e foi compreensivo; depois,
nunca mais, apesar dos sucessivos recados que ela mandava.
 No final de uma tarde de inverno, melhorzinha, Marg
recebeu alta e voltou para o pavilho Cinco. Chegou na hora da

214

contagem. Enfraquecida, subiu a escada com dificuldade. Na
galeria do quarto andar, numa fileira de oito lmpadas apenas
duas teimavam acesas. Marg, mal agasalhada,
seguiu at o fundo, virou  direita e deu de cara com um
funcionrio:
- Aonde pensa que vai?
 - Estou chegando da enfermaria. j falei com o seu
Valdir l embaixo, ele disse que podia subir.
- Qual  o teu xadrez?
- 417-E.
- Vai indo, ainda no tranquei.
 De fato, a porta estava encostada; havia luz, som de
tv e cheiro de alho frito. De dentro vinha o quentinho do
fogareiro, sobre o qual se debruava a Zizi,
entretida na fritura.
- Zizi, olha eu de volta!
 A outra virou-se assustada, a colher borrifando leo
quente na parede, os olhos esbugalhados, desiguais.
 Marg ento percebeu que havia outra personagem na
cena. Na cama, vestindo as meias de l que eram suas, estava
deitada Leidi Dai, aquela putinha polaca
cinco anos mais nova, por quem a malandragem, idiota,
suspirava.
Chocada com a ousadia da intrusa, Marg ordenou:
- Tira a minha meia j e sai da minha cama, sua vaca!
 - Que  isso? Casei com o teu ex-marido. Estou naonde
que me pertence, bofe velha.
 Marg, humilhada, virou-se para Zizi ainda petrificada
com a colher:
- Zizi, cadela traidora! Vou matar vocs duas!
 Atirou-se nos cabelos de Leidi Dai e bateu-lhe a
cabea contra a parede; diversas vezes.
 A gritaria foi infernal. Bisbilhoteiros enfiaram a
cabea atravs dos guichs de suas celas. Zizi aproveitou a
baguna e correu para o xadrez do ladro,
excitadssima:

215

 - Sa de l, a Marg Suely estava dando com a cabea
da Leidi na parede, com toda a fora. Que horror, precisa ver
o sangue! Voc tem que fazer alguma coisa!
Eu, fazer? Fazer o qu? Me meter em briga de mulher?

216

                                     SEU CHICO
 Seu Chico matou o cunhado, tipo -toa; matou um outro,
que ganhou considerao na quadrilha com o objetivo precpuo
de alcagetar todos; e um terceiro que
ele nem conta:
- No merecia viver, doutor.
As mortes no lhe trazem remorsos:
- Se valessem arrependimento, no tinham morrido.
 Seu Chico  pai de duas mocinhas e um filho que deve
estar grande. Foi abandonado pela mulher, ingrata, filha de
famlia que no presta, responsvel pela
entrada dele no mundo do crime, segundo sua opinio. Cumpre
quinze anos de uma pena de 44. Sofre saudades dos filhos mas
se conforma, acha at bom no virem para
no freqentar o ambiente da cadeia.
O corpo no aparenta cinqenta anos:
 - O homem preso precisa fazer exerccio para no
perder a dignidade.
 Desde que o prenderam, a mulher interceptou-lhe a
correspondncia com as crianas, como vingana pela morte do
irmo. Para os filhos, disse que o pai morreu
na penitenciria.
 Parado de braos cruzados, cabea raspada, caveira
tatuada no antebrao direito apoiada em dois punhais, o peso
do corpo uniformemente distribudo sobre
os ps paralelos, sua postura denuncia o passado na marinha
mercante. poca de trabalho duro na casa das mquinas, portos
distantes, brigas de faca e mulheres inesquecveis.

217

 Na coletividade das galerias, do empedernido piolho de
cadeia ao mais reles ladro, seu nome  pronunciado com
entonao respeitosa:
 - Foi seu Chico que falou... Se essa fita parar no
conhecimento do seu Chico, vai ser problema.
 Quando seu Chico  consultado, o ladro chega e
aguarda o convite para a aproximao enquanto ele termina o
que est fazendo, seja o que for. Num dado instante,
dirige o olhar ao recm-chegado:  a senha.
 Quem fala, gesticula,  sempre o ladro; ele se mantm
calado, o olhar perdido num ponto distante ou entretido num
pequeno afazer. Depois, volta-se para
o interlocutor, diz algumas frases na baixa intensidade sonora
das conversas srias entre homens presos e perde o olhar na
direo inicial. Est encerrado o papo.

218

                                 COZINHA GERAL
 Zelo, Flavinho e Capote comandavam a Cozinha Geral
com mo de ferro. Eram trs marginais de dar medo, no tanto
pela enorme folha corrida, mas pelo ar de
revolta que estampavam no rosto. Estavam presos h pelo menos
dez anos e condenados a mais de trinta cada um.
 Entre eles, falavam apenas o essencial. As palavras
eram inteis, substitudas pela agilidade dos olhares que
trocavam nos momentos de deciso. Compartilhavam
o mesmo xadrez e confessavam-se dispostos a entregar a vida
para defender a dos outros dois, caso as circunstncias
exigissem. Ningum ousava desafi-los no comando
dos setenta e poucos cozinheiros.
 Todo o material da Cozinha ficava sob a
responsabilidade dos trs. Um dia, antes do almoo,
desapareceu um faco de cortar carne. Procuraram, e nada. s
duas da tarde, Capote proferiu o ultimato:
 - A partir das cinco horas, vai morrer um cozinheiro
por dia at o faco aparecer!
 Quinze minutos depois, misteriosamente, o faco
despencou de umajanela do pavilho Nove e retornou ao devido
lugar.
 A Cozinha talvez fosse dos mais vivos exemplos de
deteriorao do velho presdio. Era um grande salo com
goteiras, no trreo do pavilho Seis, cheio de
gua empoada nas lacunas entre os azulejos azuis que, em
petio de misria, remen-

219

davam o piso impossvel de enxugar.  direita da entrada e na
parede oposta a ela, alinhavam-se oito panelas de presso, com
capacidade para duzentos litros cada.
Os exaustores encaixados acima das janelas tinham parado de
funcionar h anos, de modo que em franca operao as panelas
descarregavam todo o vapor no ambiente interno.
 Nas horas que precediam as refeies, a fumaa era
tanta que a Cozinha parecia o inferno de Dante. Mal se
conseguia discernir a figura dos homens que circulavam
de botas de borracha e o cabelo coberto por um pano que lhes
caa sobre os ombros,  moda dos soldados da Legio
Estrangeira nos filmes. A fumaa era to densa que,
por segurana, aqueles que se deslocavam com faca na mo,
precisavam faz-lo com a superfcie de corte voltada para
dentro e a ponta para baixo.
 Os paneles achavam-se assentados sobre uma sapata de
cimento construda para deix-los num plano superior ao rs do
cho. Esse amplo degrau em forma de
L estava revestido pelos mesmos azulejos encardidos. No
desnvel entre o degrau e o resto do piso existia um sulco
profundo por onde corria, a cu aberto, um riacho
caudaloso que recolhia a gua desprezada e a conduzia direto
para a abertura do esgoto junto  porta de entrada.
 Nos cantos do salo, encostados s colunas,
estacionavam os carros de madeira com arcabouo metlico e os
tachos usados no transporte da alimentao servida
de cela em cela. Arroz e feijo eram despejados diretamente
dos sacos nas panelas de presso e serviam de base para a
mistura de pedaos de carne com batata e cenoura
cozida, junto com a farinha acrescentada para dar consistncia
ao prato.
 Cozinha  ponto nevrlgico em qualquer presdio. O
diretor de Disciplina diz que num lugar superpovoado como a
Deteno, pior ainda:

220

- Se faltar comida, isso aqui explode em menos de 24
horas.
 Para evitar tragdias, a direo entregava o comando
da Cozinha aos prprios detentos, um dos muitos exemplos de
autogesto para compensar a falta crnica
de funcionrios.
 As sucessivas administraes nunca foram ingenuas a
ponto de imaginar que este sistema evitaria o desvio de
mantimentos da despensa para o mercado negro,
com a inestimvel colaborao de alguns fncionrios, pois
isso ocorre em todas as prises do mundo. O que a direo
pretendeu ao atribuir a responsabilidade de
chefia aos prprios detentos foi criar um mecanismo de
controle sobre a quantidade desviada, de modo a evitar roubos
que comprometessem o abastecimento.
 Por isso, os encarregados de impor ordem ao ambiente e
guardar as facas de corte no podiam ser pessoas quaisquer;
deviam ser homens temidos, respeitados
pela massa, como Zelo, Flavinho e Capote, caso contrrio a
despensa seria pilhada pelos mais audaciosos.
 Zelo praticou mais de duzentos assaltos e matou dois
ex-companheiros de quadrilha;  magro, cabelo curto por igual,
cordial no trato e tem fama de violento
na reao. Flavinho, bandido da zona sul, chegou aos dezoito
anos com trs mortes e um respeitvel currculo de fugas da
Febem; baixo e magro, sua figura no inspira
respeito, a menos que, contrariado, seus olhos negros fixem os
do interlocutor. O terceiro, Capote, que adquiriu fama e
perdeu os dentes da frente por resistir
a sucessivos interrogatrios policiais sem delatar os
companheiros, jura que amadureceu na cadeia e tem remorso de
haver roubado gente humilde. Quando sair, pretende
se regenerar; promete que s encostar o revlver na cabea de
polticos corruptos. Seu maior desejo  um dia assaltar dois
ex-governadores de So Paulo.
221

 Como a marcenaria do pavilho Seis funcionava no mesmo
andar do velho cinema onde fazamos as palestras sobre AIDS, 
distncia diversas vezes observei Zelo,
Flavinho ou Capote conversando com o marceneiro-chefe, seu
Chico, o velho marinheiro que matou o cunhado e os outros dois
que no mereciam viver. A dinmica dessas
conversas secretas respeitava o ritual descrito nas consultas
que a malandragem fazia ao ex-marinheiro: os encarregados da
cozinha aguardavam de seu Chico a permisso
para se aproximar, falavam em voz baixa, ouviam seus conselhos
e retiravam-se. Estava claro que, da marcenaria, seu Chico
comandava a Cozinha Geral.
 Em 1995, a direo da Casa desativou a Cozinha e
contratou uma empresa para fornecer refeies. Estava
inaugurada a poca da quentinha. Segundo a malandragem:
- Duro de encarar, doutor.

222

                                  REENCONTRO
 Numa tarde chuvosa, tocou o telefone na Carceragem do
Oito. Um funcionrio atendeu e trouxe o recado em voz baixa
para o seu Pires, o diretor do pavilho:
- Telefone para o seu Chico,  voz de moa.
 Como o regulamento probe ligaes externas para
detentos, o diretor foi ver quem era:
 - Quem quer falar com o seu Chico? Aqui no pode
atender telefonema de fora!
Do outro lado, ouviu uma voz tmida:
 - Meu senhor, me desculpa, eu tenho vinte anos, uma
irm de dezoito e meu irmo, dezessete. Somos filhos do seu
Chico. A ltima vez que vi meu pai eu tinha
cinco anos, e meu irmo era to pequeno que nem lembra o rosto
dele. A gente pensava que ele tinha morrido. Quando eu soube
que no, reuni com os irmos e o pastor
da igreja sem minha me saber, e decidimos procurar o pai. Foi
muito difcil falar a, mas hoje consegui explicar direitinho
para a telefonista, que ficou com d
da gente e permitiu.
 A voz vinha embargada de medo, O chefe mandou chamar
seu Chico.
 Seu Chico entrou ressabiado na Carceragem. Deu uma
olhada geral; tudo parecia na rotina, os funcionrios e alguns
presos dedicados ao trabalho burocrtico;
seu Pires, de cabelos grisalhos e um lpis atrs da orelha,
lia um relatrio na escrivaninha.

223

 De frente para a janela, de costas para os outros, seu
Chico disse al e ficou mudo, por muito tempo. De onde estava,
seu Pires percebeu as lgrimas nos
olhos do prisioneiro.
 Por vrios dias o diretor do pavilho observou o
comportamento solitrio do outro. Sem entender, os ladres
mantinham respeitosa distncia do lder entristecido.
Dias depois seu Chico o procurou em tom grave:
 - Seu Pires, quero pedir um favor que fao questo de
jamais esquecer.
 Contou o drama daqueles anos todos, a vingana da
mulher por causa da morte do irmo, as cartas devolvidas,
morto para os filhos, e a conversa com a mais
velha.
 - Queria que o senhor me autorizasse a encontrar com
eles l fora, no coreto da Divinia. No quero meus filhos
dentro de uma cadeia.
 Assim o senhor me complica. Imagina se os outros 7 mil
me pedem a mesma coisa. Em todo caso, como  uma situao
especial, depois de tantos anos, vou abrir
uma exceo, mas o senhor no pode ficar mais do que vinte
minutos.
 Na tarde marcada, seu Chico dirigiu-se ao coreto com
dois detentos carregando um tapete vermelho, um vaso de
flores, dois litros de guaran, bolachas, pastis
e uma mesinha com toalha xadrez.
 Tudo arrumado no coreto, o ex-marinheiro, com camisa
de manga comprida para esconder a tatuagem, parou com os
braos cruzados sobre o peito forte e esperou.
 Passaram-se duas horas e as crianas no chegaram.
Quando seu Pires decidiu, enfim, recolh-lo, encontrou-o
sentado, cotovelos apoiados nas coxas e a cabea
afundada nas mos. Os dois homens voltaram ao pavilho sem
trocar palavra.
 Na semana seguinte, no mesmo horrio, novamente a
telefnista: os filhos de seu Chico aguardavam na portaria.
Tan-

tos anos no presdio no impediram que seu Pires se
emocionasse. Foi ele mesmo dar a notcia na marcenaria.
Encontrou o prisioneiro serrando um banco, a serra cantando
de ensurdecer. Desligou-a da tomada:
- Seu Chico, se arruma para ver seus filhos.
 Quando os olhos incrdulos do detento fitaram os dele,
descobriram um homem terno que seu Chico no conhecia. Por sua
vez, os do diretor captaram no rosto
anguloso do ex-marinheiro o olhar da criana que pegou um
balo cado do cu.
 Encontraram-se no coreto adornado s pressas com o
tapete vermelho, a mesa, o lanche e o vaso de flores retiradas
do altar de Nossa Senhora Aparecida, na
capela do pavilho. As duas mocinhas tinham tranas e vestidos
compridos; o menino, terno azul, gravata e uma Bblia.
Abraaram-se e choraram, os quatro, demoradamente.
Repetidas vezes.
 Trinta minutos depois, o encarregado da Divinia
aproximou-se para levar seu Chico de volta para o pavilho.
No teve coragem de interromper o encontro familiar
e retornou da escadinha do coreto. O mesmo fez seu Pires, duas
horas mais tarde.
 Meses depois do reencontro, numa Revista incerta, os
carcereiros encontraram no xadrez de seu Chico um arsenal de
facas, entre elas uma enorme foice improvisada.
A malandragem mais jovem nunca entendeu por que ele no
escondia as armas em outro lugar:
 - O velho era sistemtico, no adotava o mtodo
moderno, tinha que ser do jeito prprio que ele estava
acostumado.
 Como punio seu Chico foi transferido para o
interior. No mesmo movimento, Zelo e Flavinho foram para a
Penitenciria do Estado. Nunca mais os vi, mas
continuei recebendo notcias de seu Chico atravs do Capote,
que continua na Casa esperando cantar a liberdade para se
regenerar e, finalmente, assaltar os ex-governadores.

225

                              Z DA CASA VERDE
Seu nome era Kenedi Baptista dos Santos, porm todos o
conheciam como Z da Casa Verde. As grias, o cantado da fala
paulista, o jeito de parar com o corpo jogado
para trs, a disposio permanente para gozar os companheiros,
tudo nele recendia malandragem.
 Era ladro desde a adolescncia. Na volta dos bailes,
quando a padaria levantava as portas e os empregados traziam
pes para as prateleiras, roubava uma
rosca doce e levava para o pai, que desconhecia a origem
ilegal do presente. Fazia isso apenas para se vingar dele,
homem honesto que brigava para o filho criar
juizo.
 Uma vez, Z e eu conversvamos no ptio do pavilho
Quatro, quando um detento que trabalhava na burocracia trouxe
um papel para assinar. O Z calou a boca,
srio, at o outro sair de perto.
- O que foi, Z?
 - Nunca me dei com traficante,  tudo cara safado.
Eles se envolvem com os polcias e quem anda com polcia
cageta.
 Sua lgica era euclidiana: como ladro, ele entrava
num banco, pegava todos de surpresa e fugia com os malotes. A
polcia que corresse atrs do prejuzo.
Se viesse, bala neles, que ele vinha com o objetivo de levar o
dinheiro e duas famlias o esperavam. J o traficante, no:
 - Tem que ter acesso no viciado, ser dono de uma
bocada. O trfico est aberto 24 por 48,  lugar fixo, com
movimen-

226

to, como um mercado. A polcia fica logo sabendo. Para
funcionar, tem que pagar o porrete deles.  a maior patifaria.
Por isso, Z da Casa Verde era categrico:
 - Lugar de ladro  com ladro. Traficante, que se
entenda com a polcia!
Z era casado com duas mulheres, Valda e Maria Lusa:
 - A Valda tem pele branca como a neve.  de uma
famlia de bem, em Santana, que nunca aceitou o nosso romance
por causa da minha cor.
 Os dois se conheceram num baile, ela ainda virgem,
danando com um rapaz no qual Z no sentiu firmeza. No
domingo seguinte, enquanto o rival disputava uma
partida na vrzea, Z aproximou-se dela, na beirada do campo:
 - Levanta e vem comigo, que eu vou te pedir em
casamento para os teus pais.
-Voc nem me conhece!
 Ele falou dela no baile, da pele alva que contrastava
com o preto da sua e dos filhos misturados que nasceriam
lindos, cada um numa cor. Falou e foi esper-la
no fusca, que havia acabado de equipar com dinheiro roubado.
A espera no foi longa. Ela apareceu na janela do carro:
-Voc falou srio?
- Como nunca na vida.
 Pararam o fusca na porta do sobrado dos pais, em
Santana, ela hesitante em faz-lo entrar, ele tentando
convenc-la da honestidade de seus propsitos. Estavam
nesta conversa quando surgiu o rival na esquina, ainda com o
uniforme de futebol, disposto a cobrar a ofensa. Z no
vacilou, desceu do carro e deu trs tiros na
direo do rapaz. O zagueiro esquerdo saiu correndo, na pressa
perdeu at um p de chuteira.
Z, persuasivo, virou-se para a amada:

227

 - Amanh, s oito, rene teus pais e tuas irms que eu
venho te pedir em casamento. Esquece esse cara, se ele
gostasse de voc, enfrentava o perigo.
 No dia seguinte, s oito, a reao da famlia foi a
pior possvel. Apesar do fusca envenenado e de se apresentar
como trabalhador, filho de uma famlia exemplar,
proprietria de um imvel com escritura lavrada no cartrio da
Casa Verde, o pai da moa disse que preferia a filha morta do
que casada com um negro malandro daqueles.
 Com a persistncia obstinada do Z, os nimos se
exaltaram, o pai referindo-se  cor dele com desrespeito
crescente. Quando foi chamado de negrinho insolente,
Z perdeu a pacincia. Subiu na mesa, puxou o revlver, gritou
que matava o primeiro que reagisse:

queria:

 - Tranquei todo mundo no banheiro e levei o meu amor
comigo, a minha mo preta no algodo da mo dela.
Teve quatro filhos com a Valda. Diz que so como ele

- Cada um numa tonalidade, doutor.
 Viveram na maior felicidade at ele conhecer Maria
Lusa, passista da Imprio da Casa Verde:
 - A bateria pegando pesado e ela danando na frente,
de vestidinho curto e um sorriso que iluminava a quadra
inteira. Parecia uma deusa de bano.
 No carnaval, na concentrao da escola, minutos antes
do desfile, ele de guerreiro xang, Maria Lusa de biquni com
lantejoula, ningum sabe de onde, surgiram
Valda e a irm mais nova do Z, solidria com a cunhada, e se
engalfinharam com a rival. Ele outra vez perdeu a pacincia e
puxou o revlver:
 - Dei uma coronhada na cabea de cada uma, mandei as
trs para casa e sambei sozinho na avenida.

228
 Na vida dupla, teve trs filhos com Maria Lusa.
Depois, foi preso em flagrante num assalto a uma sapataria na
Voluntrios da Ptria, pertinho do Carandiru.
 No primeiro domingo na cadeia, recebeu a visita da
Valda. Sentaram-se de mos dadas num banco forrado com
cobertor, junto  muralha.


s tantas, Z ouviu anunciar na Boca de Ferro:
- Kenedi Baptista dos Santos, dirija-se  entrada do pa-
vilho.

 Sentiu um frio no estmago, s podia ser a Maria
Lusa! Pediu licena  Valda, correu para a sala das
caldeiras, ao lado, e se lambuzou de graxa. Encontrou
a mulata na porta, sorridente de saudades. Beijou-a com
cerimnia para no esbarrar as mos sujas nela e explicou:
 - Meu amor, que bom que voc veio, mas, infelizmente,
no vou poder te receber porque estou trabalhando num
conserto, devido que a caldeira estourou e o
homem quer tudo pronto at o final que acabar a visita.
 - Z, voc est  com aquela vagabunda. Nem na rua tu
nunca trabalhou, vai me convencer que na cadeia, dia de
domingo,  que resolveu regenerar?
 Contra a fora dos fatos no h argumento, pensou ele,
e se rendeu  lgica feminina:
 - Est bem,  verdade, porm voc j veio e agora no
tem mais volta para trs. Hoje ns trs vamos entrar num
entendimento.

 Deu trabalho convenc-la a se encontrar com a outra.
No banco, Valda no achou palavras para exprimir o que sentiu
ao v-lo chegar com Maria Lusa, oferecer-lhe
um lugar ao lado dela e sentar-se entre as duas. Seguiu-se um
longo silncio.
 Finalmente, em voz baixa para evitar escndalo, Valda
virou-se para ele:

229

- Como  que voc traz essa vagabunda aqui?
 - Querida, a Maria Lusa no  vagabunda, trabalha na
tecelagem e cria nossos trs filhos com o maior carinho.
Em seguida, voltando-se para a Maria Lusa:
 -Voc, por sua vez, tambm disse l fora que a Valda
era vagabunda. Da mesma forma, no  verdade, ela 
trabalhadeira, auxiliar de repartio na prefeitura,
e toma conta dos quatro filhos que ns ps no mundo.
- Voc vai decidir agora com qual de ns duas quer ficar
insurgiu-se Maria Lusa, com o que concordou imediatamente a
Valda. Ele ficou desconsolado:
- Assim vocs vo partir meu corao no meio.
 Segundo Z, a harmonia hoje  tanta que aos domingos
as duas passeiam juntas com as sete crianas no parque do
Carmo. Em liberdade, ele vai realizar o velho
sonho de juntar as
duas famlias na mesma casa, na santa paz.

230
                                   NEGUINHO
Neguinho comeou assim:
 - A minha senhora me matou, acho que o amante dela
que chegou bbado e quis bater outra vez na gente. O meu pai
no poderia saber, porque justamente se
encontrava recluso na Penitenciria. Foi onde que teve a
revolta de ns mesmos e cada um viveu o seu lado.
 Eram seis filhos: Neguinho, quatro irms e um irmo
mais novo. Com a priso da me, as meninas foram internadas no
Juizado de Menores e os dois meninos na
Asdrbal Nascimento. Ao contrrio do irmo, mais obediente,
Neguinho ficou pouco tempo no velho prdio do centro de So
Paulo onde recolhiam menores desamparados
e infratores. Precoce, pegou carona num plano de fuga dos mais
velhos e sumiu na rua.
 Com a sabedoria dos seis anos, Neguinho viveu por
conta prpria na cidade. Dormia embaixo das marquises dos
prdios enrolado num cobertorzinho, com jornal
enfiado por dentro da roupa; batia carteira, vendia bala em
saco, chiclete e doce de leite Embar e assaltava de arrasto,
com os companheiros mais grados.
 - Vira e mexe, passava a Recolha e me levava de volta
para a Asdrbal Nascimento. Eu nem ficava triste, aprendia no
quadro-negro da vida.
Um dia descuidavam e ele fugia de novo.
 - E, assim, trilhei meu destino de ladro. Passava um,
todo bonito e simptico, era dia de festa, os outros com seus
brinquedinhos e eu sem nada. Com isso eu tornei-me tipo a
pessoa egosta, porque queria ter mas no poderia e nem teria
capacidade, justamente pela falta da me
e do pai para que acontecesse o dia-a-dia.
 Dos seis aos dezoito anos, somadas as passagens pelo
Juizado, esteve quase onze na priso - um ano e pouco em
liberdade. Foi parar at em Mogi, classificado
na categoria C, os de maior periculosidade. Fugiu de l
tambm. Quando completou quinze anos, o pai saiu da
Penitenciria decidido a reunir a famlia. Pegou uma
filha aqui, outra acol, o filho mais novo que era menino
comportado e foi atrs de Neguinho, no Crime. Encontrou-o numa
mesa de sinuca na rua Guaianases, Boca do
Lixo:
- Chega dessa vida, meu filho, teu pai est de volta.
 Foram morar numa casinha para l da Vila Ema, todos
trabalhando exceto ele, que roubava e trazia mantimentos,
guloseimas e refrigerante  vontade. Um dia,
Jucilia, a irm mais velha, apaixonou-se por um tipo -toa. O
pai, que havia sofrido na cadeia e no queria marginal na
famlia, proibiu o namoro. Uma noite, ao
chegar do trabalho, deu com o namorado da filha estatelado no
sof da sala, com uma garrafa de cerveja pela metade. O sangue
subiu-lhe  cabea:
 - Falou que no queria bandido da porta para dentro da
nossa casa e que da prxima vez punha ele para fora a bofeto.
A repreenso foi mal recebida:
 - Mexeu com o instinto do elemento, que deu dois tiros
no estmago do meu pai.
 Por obra do acaso, neste exato momento Neguinho chegou
em casa, acompanhado:
 - Do meu vinte-e-doisinho, que no desgrudava de mim.
 Viu o pai cado na sala e o elemento ainda com a arma
na
mo, de costas para a porta.

 - S chamei: o que que  isso, rapaz? No que ele se
virou, dei vrios tiros na cabea dele.
Neguinho atribui a reao s circunstncias:
 - Devido s condies que eu vi meu pai, foi aonde que
foi tomada essa atitude forte.
 Para no deixar o corpo no meio da famlia, na sala,
Neguinho o arrastou para o meio da rua e mandou as irms
chamarem a polcia, que chegou logo, e uma
ambulncia, que demorou horas. Voltou para a Febem.
 O pai fez duas operaes e escapou com vida, a irm
esqueceu do namorado, hoje  casada e tem famlia, como as ou-
tras trs, e o irmo trabalha numa firma muito boa. Ele,
continuou a viver seu destino.
 Chegou na Deteno pela primeira vez ao atingir a
maioridade. Numa noite de ensaio, saiu da escola de samba com
quatro amigos num txi e vieram por Cangaba,
cruzaram o mercado da Penha e desceram para a Marginal, quando
uma

232

viatura da polcia deu luz para parar. Contrariando as ordens
dos cinco, o motorista, que nada tinha a ver com a histria,
encostou o carro e se jogou no asfalto
com as mos na cabea. Neguinho e os amigos saram atirando:
 - Nessa da, fui alvejado seis vezes. Pegou dois nas
costas, um na barriga, trs no peito e um de raspo na orelha,
que eu nem conto. Mesmo assim, no fiquei
deficiente nem nada.
 Cumpriu nove meses e ganhou novamente a liberdade,
porque o juiz considerou a reao como legtima defesa.
Afinal, os policiais tambm atiraram e no foram
feridos, ao contrrio:

Eles  que me atingiram em diversos pontos do organismo.

 Na rua, a alegria durou pouco, como sempre. A polcia
cercou a favela, em seu encalo:

233

 - Eu ca, devido que eles tomaram partido da surpresa.
Me algemaram, puseram eu no camburo e levaram para um mato
ermo. L, fizeram eu descer com os braos
para trs, na algema, alegaram que eu matei um primo deles,
que tambm era polcia, sendo que nada ficou provado em juzo
porque a testemunha no me reconheceu,
e, alm disso, eu tinha sado da cadeia fazia duas semanas s.
 Dessa vez o castigo deixou seqela. Tomou dezoito
tiros: nas costas, pernas e braos. Uma bala penetrou atravs
do maxilar superior, passou por trs da rbita
e foi parar no crebro, prximo de outra que entrou direto
pela calota craniana:
 - As duas esto na minha mente at hoje, mas no me
afetam. Graas a Deus, converso normal e penso as idias
certas. O nico que me atingiu foi um que
eles me deram na espinha, onde que eles encostaram a arma,
apertaram e falaram: levanta, vagabundo!
 Neguinho tentou, mas as pernas no obedeceram. Se no
morrer, fica aleijado, disseram.
 - Depois, puseram o 22 na minha mo, e apertaram trs
vezes, como coisa que eu tinha trocado tiro com eles. A,
agarraram, balanaram meu corpo bambo para
l e para c, me jogaram de volta na viatura e vieram
devagarinho. Eu no esvaimento do sangue, com as pernas mortas,
e eles na maior tranqilidade. S quando chegou
nas imediaes da vizinhana do Hospital das Clnicas  que
ligaram a sirene. Hoje eu interpreto que eles agiram meio na
covardia.
 Passou vrios dias na UTI, cheio de soros e drenos
cirrgicos. Nem esperaram a recuperao completa para dar
alta; ficaram com medo de que os companheiros
aparecessem para resgat-lo. Terminou o ps-operatrio no
hospital da Penitenciria.

234

Naquele presdio, de cadeira de rodas, passou cerca de
dez anos, at surgir a oportunidade do semi-aberto. Na
Colnia, cumpriu trs meses e foi solto.
Ficou apenas doze dias em liberdade porque, segundo
alega, a polcia forjou um flagrante de um quilo e meio de
pedra de crack, dez metralhadoras e uma
PT, arma de treze tiros da Taurus:

 - Chegou no Frum, provei que no teria condies de
eu, paraplgico, deficiente, fazer contato com marginal
nenhum, sendo que eu morava na favela e no
possua veculo para me demover. O juiz, no sei por qu,
desconsiderou meus argumentos e me mandou para o distrito.
Fiquei perambulando de uma delegacia para outra,
da 45 para a 90, com escara nas ndegas, sem ter como fazer
curativo, o pus escorrendo na carne morta.
 Conheci Neguinho de cadeira de rodas e sonda vesical,
condenado a 48 anos, o rosto talhado como esttua africana,
olhar de poucos amigos. Tinha as pernas
paralisadas e hipotrficas, a pele descamativa e uma escara
funda na regio gltea, na qual caberiam dois limes galegos,
pelo menos. A ferida expunha a anatomia
dos feixes musculares profundos e uma parte da articulao
coxofemoral.
 Um dos rapazes da enfermaria fazia o curativo dirio.
Com uma pina, cavoucava um chumao de gaze embebido em pomada
de furacin misturada com acar. Mexia
com fora para avivar os brios cicatriciais da leso. No
doia, o local era insensvel.
 Neguinho era respeitado por todos, mesmo pelos
funcionrios. Na hora do curativo, ocasionalmente me chamavam
para ver a leso. Fora isso, nosso relacionamento
no ia alm de boa-tarde e boa-noite. Nunca o surpreendi
descontrado, rindo ou brincando com algum. O rosto crispado
parecia sempre disposto a reivindicar seus
direitos.

235

 Uma tarde, ele vinha de l e eu de c, na galeria; s
ns
dois e a cadeira de rodas rangendo:
 - E a, como vai a escara?
 - Melhorou, est sequinha e mais rasa.
 - Vai sarar.
 - Obrigado. Deus proteja o senhor.
 Parece que esboou um sorriso. Senti o dio fugir-lhe
da
expresso. No que nela tivesse se instalado a tranqilidade,
longe disso; num lampejo, nos olhos pretos como jabuticaba
reluziu um brilho desarmado, fugaz.


                                       MANGA
 Antes de chegar aos presos, as cartas so
abertas. Trs pessoas fazem o servio. Na mesa, um detento
corta com tesoura a
lateral do envelope, um funcionrio esvazia o contedo 
procura de objetos estranhos e outro detento grampeia a parte
aberta. No h curiosidade em l-las; nem
haveria tempo, so mi-
lhares. Em seguida, a correspondncia  separada de acordo com
o pavilho ao qual se destina, para ser distribuda pelo
carteiro de cela em cela.
Uma das lies que aprendi com o funcionrio Waldemar
Gonalves foi ouvir os presos que entregam as cartas:
Para conhecer o andamento da cadeia,  fundamental
falar com eles, doutor.
Manga, um carteiro detido no pavilho Sete, gostava de
conversar comigo - e eu com ele. Era um sergipano alto,
fluente, com um vozeiro, que havia fugido da cidade natal
para escapar da vingana dos irmos de uma moa que alegava
ter perdido a virgindade com ele. Com o tempo, Manga
confiou em mim a ponto de descrever com detalhes o movimento
de droga na cadeia, o que me ajudava na estratgia das
campanhas de preveno  AIDS. Por exemplo, foi ele o primeiro
a dizer:
Doutor, nem precisa insistir com os manos para no injetar na
veia, que o baque j era. Pode correr a cadeia inteira
que o senhor no acha uma seringa para contar a histria.
Agora  a vez do crack. Veio para arrebentar bunda de
malandro.

237

 Manga jurava que tinha vindo parar na Deteno por um
erro judicirio. Anos antes, ao sair da cadeia de Sorocaba,
sem dinheiro, um amigo emprestou-lhe meio
quilo de maconha. Vendia na rua do Estudante, onde morava, na
Dr. Lundi e na Thomaz Gonzaga, no bairro da Liberdade, centro
de So Paulo. Dava para as despesas e
sobrava um pouco:
 - Para comprar roupinha para o nen que ia nascer, uma
pizza no domingo e cuidar da esposa, dar aquele carinho que
toda mulher necessita.
 Ento, entrou em cena a tal de Sonha, uma vizinha com
quem Manga mantinha relacionamento comercial:
 - A Sonha foi pega com doze parangas de fumo
enfurnadas na panela de presso e, para livrar a cara dela,
deu eu. Foi onde que eu levei um bote do DEIC.
 Os policiais invadiram sua casa e encontraram um quilo
de maconha:
 - Tive que entregar tudo e mais uma boa grana para
escapar do flagrante. Tudo bem, s me mandaram deixar quieto
uns dias.
Voltou para casa deprimido, outra vez sem dinheiro:
 - Meu filho tinha acabado de nascer e eu na pior
dureza, chamando mendigo de Excelncia.
 Nesse momento delicado, Genival, um de seus fregueses,
tocou a campainha:
 - , Manga, me vende uma paranga de fumo a, amanh te
dou o dinheiro.
 - No vou te vender paranga nenhuma, que eu vou passar
trs dias parado. Ento,  o seguinte, leva este caroo aqui
para fumar com os malucos no beco da
igreja e esquece do Manga, que eu estou deixando quieto a
pedido dos ho-

mens.

238

 Genival agradeceu e foi embora. Passaram-se algumas
horas e Manga saiu para pensar na vida. Quando virou a rua da
Glria na direo da praa Joo Mendes,
em sua direo veio o guas Turvas:
- Manga, ia na tua casa atrs de uma paranga.
- J era, a ltima eu dei para o Genival.
guas Turvas no gostou da resposta:
 - , chegou esses dias das Alagoas, nem bem entrou na
rea e j est levando uma de traficante e tal.
Manga desconhecia o passado de Genival:
 - Tu nega fumo para mim e vende para aquele pilantra,
que tem mancada, estupro assinado e tudo, vim querer fumar na
nossa bancada, no meio dos ladro!
 Dito isto, guas Turvas tirou um cano da cintura e
desferiu um golpe contra a cabea de Manga. A fora foi tanta
que
o ferro cantou no ar. Agilmente, o sergipano esquivou-se, mas
o cano resvalou-lhe o superclio. Cego de dio e sangue, puxou
a faca e, antes que o adversrio tivesse tempo para atacalo de
novo, cravou-lhe o punhal no peito.
guas Turvas desequilibrou-se, para trs, mas no largou o
cano. Manga, ento, raciocinou:
 - Se eu no der um fim neste maluco, agora, vou perder
o sossego para andar na rua.
 Foram mais trs facadas, bem dadas, duas no abdmen
uma nas costas enquanto o outro caa de bruos, na sarjeta.
 Largou o desafeto numa poa de sangue, no meio da
curiosidade assustada dos transeuntes, e correu para casa.
Pegou a mulher, o filho recm-nascido, trancou
tudo e fugiram para a casa da sogra, na Vila Madalena.
 - A situao s Ia para trs: o acerto com a polcia
tinha me quebrado, depois essa fita de furar o guas, o
moleque pequenininho cheio de necessidade, ainda
mais na casa da

239

sogra que enchia a cabea da filha por causa da vida que eu
levava.
 Para no depender da sogra, resolveu roubar um
toca-fita em Pinheiros com um rapaz que atendia pelo vulgo de
Boca-Larga. O toca-fita estava na perua de uma
floricultura, ao lado do cemitrio da Cardeal Arcoverde. Foi
s abrir a porta, especialidade do amigo, o alarme disparou.
Boca-Larga saiu correndo, Manga tentou
puxar o toca-fita, mas no tinha experincia com esse tipo de
roubo:
 - O alarme buzinava sem parar; eu nervoso com o
tocafita que no saa. A, pega ladro daqui, pega dali,
acabei cercado e tive que pular para dentro do cemitrio.
Sabe onde eu fui cair?
No foi feliz na queda, andava mesmo com azar:
 - Bem no buraco de uma cova aberta. Aquele cemiterio
enorme, e eu pulo o muro justo em cima da cova! Era um
buraco, doutor, o polcia me catou de l, com
a perna sem condio de agentar o peso do corpo.
 No distrito, com dor, Manga deu nome falso. Dois dias
mais tarde, foi identificado e transferido para o presdio do
Hipdromo, onde encontrou um desafeto
vingativo. A fase de azar persistia:
 - O irmo do guas Turvas, cujo vulgo era conhecido
como Zio Vesgo. Ali, fiquei sabendo que o guas no tinha
morrido; embora que ficou com um defeito
no meio da barriga. Batemos boca, o Zio Vesgo e eu e tal, mas
l tem segurana para prevenir desentendimento e ficamos s
no: quando sair na rua, vai ser voc ou
eu! Vai ser mesmo!
 Manga saiu primeiro, voltou ao comrcio de maconha,
retornou  rua dos Estudantes com a mulher e o filho e comprou
um revlver. Uma noite, trombou com o
inimigo na Baixada do Glicrio:

240

 - Zio Vesgo e eu, cara a cara, como daqui naquela
parede l no fundo da galeria, uns dez metros. Pulei para
detrs de um carro parado e dei seis tiros nele.
E ele, seis tiros em mim.
 Doze balas perdidas que quebraram os vidros dos
automveis estacionados. Quando se certificaram de que a
munio havia acabado, partiram para o confronto
fsico. A briga comeou no quarteiro de cima e rolou ladeira
abaixo. Terminou no meio de uma aglomerao, com os dois
exaustos, ensangentados e presos por um Pm
que passava.
 Foram parar no distrito, assinaram porte ilegal de
arma, crime afianvel, e voltaram para a rua.
 - Passado um ms, um truta meu, o Batata, que roubava
comigo, fez um assalto de parceria com o Zio Vesgo. Na
partilha, o Zio deu um chapu no Batata. Quando
o Batata descobriu que tinha tomado um banho na fita, foi l e
deu trs tiros nele; dois na cabea, para ter certeza. O guas
Turvas nunca mais vi.
 Por causa da passagem anterior pela delegacia, Manga
foi acusado da morte de Zio Vesgo. Sem advogado, nem libi
convincente, foi condenado a cumprir nove
anos de cadeia. No se conformava com a falta de sorte:
 - Tanta maconha que eu vendi, assaltos, roubo de loja,
venho preso justamente por um crime que no cometi. A Justia
 cega, doutor.
 Manga foi um dos fugitivos do tnel do pavilho Sete.
Dois anos depois voltou para a Deteno. Num final de tarde
procurou-me para um assunto particular.
Conversamos na sala dos mdicos; o sol entrava pela janela e
projetava uma sombra gradeada em seu rosto. Estendeu-me um
envelope sobrescrito com letra bordada. Na
carta, a mulher dizia estar cansada de sofrer por causa dele e
decidida a ouvir os conselhos da me. Tinha ido para Minas com
as duas crianas, a menor nascida depois
da fuga, para nunca mais voltar.

241

 Enquanto eu lia a carta, ele chorou de soluar. Quando
terminei, fiquei quieto esperando que se acalmasse. Ento, as
lgrimas pararam de correr. Ele enxugou
os olhos, levantou, agradeceu e saiu, antes que eu tivesse
dito uma s palavra de conforto.

242

                                  SEU JEREMIAS
 Seu Jeremias desentendeu-se com um funcionrio e pegou
trinta dias na Isolada. Fui visit-lo com o Waldemar
Gonalves. Pelo guich da cela escura, mal pude
discernir suas feies de negro velho e a carapinha grisalha.
Quando saiu, veio agradecer a visita. Estava magro e tinha os
olhos tristes. Sua figura, no entanto,
transmitia uma fora de carter que lembrava meu pai.
 - Para quem passou um ms na tranca brava, o senhor
at que est bem.
- Tantos anos preso, doutor, a mente aprende a dominar

o corpo.
 Assim comeou nossa amizade. Aprendi muito com ele
sobre a vida na cadeia e fora dela tambm.
 Seu Geremias fugiu da seca na Bahia nos anos 40 e
desembarcou na Estao da Luz, recm-casado; ela com um
lencinho na cabea, morta de frio, e ele com os
pertences do casal na mala de papelo.
 Tiveram dezoito filhos, que lhes deram 32 netos e sete
bisnetos. Homem obstinado, conseguiu manter a famlia com
dignidade; as filhas casaram de vu na igreja,
os meninos jamais pisaram numa delegacia e a esposa, muito
catlica, vem visitlo todos os finais de semana, h vinte
anos, embora nunca tenha concordado com os
erros que ele cometeu:
 - Em casa, se ela descobria um gro de alpiste ganho
sem o suor do meu rosto, saa para dar parte na polcia. Um
custo para segurar, precisavam os filhos
interferir. Por isso, doutor,

243

no  tudo que se pode contar para uma mulher, por mais que o
senhor goste dela. Casamento no  confessionrio.
 Seu Jeremias  daqueles homens que jogaram uma p de
cal sobre o passado. Nunca tive coragem de perguntar-lhe a
respeito da vida no crime; ele tampouco deu
tal liberdade. Apenas uma vez, contou que foi preso em Santos
ao desentocar dez cigarros de maconha do poro de sua
vendinha, para entreglos a dois estivadores.
Falou de passagem e cortou o assunto.
 Apesar dos atropelos gramaticais, sua linguagem 
rica; as frases entonadas com uma ponta de sotaque nordestino
so entremeadas por momentos de silncio
que prendem o flego do interlocutor.  um prazer ouvi-lo. No
fosse analfabeto, seu Jeremias podia escrever um manual de
sobrevivncia:
 - Visto de antigamente, a Deteno agora  um parque
infantil. Quando morre dois ou trs, fica todo mundo
assustado. A, eu falo: vocs no sabem como era
h vinte anos atrs.
 Naquele tempo, nas disputas, morriam quarenta ou
cinqenta s no Oito e Nove. Depois, atravessavam para os
outros pavilhes e matavam mais gente ainda:
 - Quando caam as bocas dos traficantes, por
cagetagem, saa um comboio de vinte ou trinta dando rupa,
matando tudo que achasse pela galeria; se fosse e
o que no fosse. At bicha morria nisso. Isto aqui,  um
barril de plvora!
 Os mortos eram recolhidos na sala de guardar material
de limpeza no trreo do Cinco; necrotrio de emergncia:
 - Ali, a morte irmanava todos. Empilhava um em cima do
outro, at chegar o homem do livro preto para pendurar um
carto no pescoo, anotado os dados do morto.
Isto aqui, acontece coisa que a gente nem gosta de lembrar!
 Experiente e respeitado, nunca o assustaram as
confuses de corredor, o bate-boca num xadrez, nem as brigas
da rua Dez. Para ele, os momentos de tranqilidade
 que so perigosos:

244

- Quando o senhor v a cadeia em silencio, pouco movi-
mento na galeria, muita obedincia, vai acontecer alguma
coisa.  um tnel que esto fazendo, vo morrer dois ou trs;
vai explodir. Todo mundo sabe, mas no pode
bater com a lngua no dente. Isto aqui, tem que ter um olho no
padre, outro na missa!
 Seu Jeremias disse que aprendeu com os mais velhos a
no participar de rodinhas, nem andar com outros presos para
no se envolver em problemas alheios. Para
ele, solido  estratgia de sobrevivencia:
 - Posso morrer de doena, mas assassinado na cadeia,
no. Acabo a conversa com o senhor, vou direto para o xadrez e
fecho a porta. No confio em ningum
e no tenho amigo nenhum; amigo preso, eu no quero; que 
isso! Muitos me conhecem, estou aqui h tantos anos; opa, opa,
vou passando. Na cadeia, tem que andar
sozinho, e Deus. Isto aqui,  pisar em casca de ovo!
 Apesar dos estupros daquele tempo sem visitas ntimas,
ele diz que havia mais respeito. A direo da Casa detinha a
posse dos xadrezes:
 - Eles no queriam saber se j estava cheio, iam pondo
mais trs ou quatro aqui, ali e acol. A, tinha que pedir
licena, tirar o sapato, que o xadrez era
forrado com aquelas mantas Parahyba e perguntar quem estava h
mais tempo na cela. O mais velho mandava ler o regulamento num
papel grudado atrs da porta, e tinha
que obedecer. Isto aqui,  cheio de mistrio!
 Os cdigos eram mais rgidos. Uma vez, um bandido do
pavilho Oito envolveu-se com um homossexual. Num domingo, a
mulher veio visit-lo sem que ele a esperasse,
encontrouo com o amante e armou escndalo:
 -Arranhou toda a cara da bicha, que ficou furiosa e
gritou para ela: vai embora, no precisa mais vim aqui, que eu
Ja banco ele a semana toda!
A malandragem estranhou:

245

 - O que  isso? Tudo ao contrrio, agora  a bicha que
banca para o ladro?
O desfecho no esperou:
 - No dia seguinte, quando foram ver direitinho, o
preto no branco, a bicha comia ele. Os caras pensando que ele
era marido da bicha e ele dando para ela.
Foi fatal, mataram ele e a bicha tambm. Isto aqui,  um lugar
sem d nem piedade!
 Uma vez perguntei se havia lhe acontecido algo de bom
na cadeia. Respondeu que a sensao de sair para a rua, em
liberdade, com a mulher esperando na porta
 indescritvel:
 -  uma felicidade que transborda do peito. O senhor
quer rir, mas  pouco; tem vontade de chorar, mas d vergonha.
Ao contrrio:
 -A coisa mais horrvel da cadeia  duas: o cara rouba
na rua, mata, pinta o diacho e muitos chegam aqui e tm que
virar bicha. A outra,  acabar os seus
dias numa poa de sangue na galeria.
 Num comeo de ano, seu Jeremias foi transferido e
nunca mais o vi. Passou o tempo. Uma manh, cheguei no
hospital Srio-Libans e havia um rapaz me esperando.
Era filho dele. O pai tinha sido libertado e no domingo
seguinte completaria o septuagsimo aniversrio. Como falava
de nossa amizade para a famlia, queriam fazer-lhe
a surpresa de levar-me para visit-lo nessa data.
 Domingo, desci do metr na ltima estao, Itaquera,
encontrei o rapaz e pegamos um nibus que demorou quarenta
minutos at o ponto final. De l, foi quase
meia hora a p por ruas de terra at chegar a uma casinha com
alpendre, abarrotada de filhos e netos. Seu Jeremias estava no
quintal com dois meninos que levantavam
um carramancho de chuchu para ele consertar a cerca, do lado
de um canteiro de dlias. Quando me viu, seus olhos se
emocionaram. Tive vontade de dar um abrao nele,
mas fiquei com vergonha.

246

                          VERONIQUE, A JAPONESA
 Na primeira vez que atendi os presos do Amarelo, como
j contei, um pastor da Assemblia de Deus me pediu para
atender um travesti com dores nas coxas.
 Esse travesti insistia que a chamassem de Veronique.
Teimava, batia o p, mas para a malandragem ela era a
Japonesa, referncia aos olhos puxados de cabocla
mato-grossense. Desde pequena brincava de boneca e vestia
roupas da me. Na infncia, o primeiro arroubo sexual foi por
causa de um homem, como acontece com muitos
meninos que mais tarde sero homossexuais.
 Em Corumb, quando completou onze anos, rf de pai,
comeou a tomar hormnio feminino. Aos treze, debutou num
motel com um senhor que s contratava menores.
Um ano depois, cansada das surras do irmo, fugiu com uma
amiga para Porto Velho. De l, vieram para So Paulo, morar
num cmodo da Barra Funda e fazer ponto na
avenida de acesso  Cidade Universitria.
 Nesta poca, Veronique procurou uma "bombadeira", que
lhe deu um suco de maracuj para acalmar e injetou-lhe um
litro de silicone industrial nas ndegas.
Com o tempo, este silicone, comprado em loja de material para
construo,
infiltrou-se entre as fibras dos msculos e provocou um
processo Inflamatrio crnico,
razo de seu sofrimento no Amarelo. A face posterior das coxas
estava inchada, vermelha e to dolorida que ela mal conseguia
andar. Internei-a na enfermaria.

247

 L, extrovertida, virou vedete. Confortava os aflitos,
brincava e cantava na galeria; todos riam de seu jeito
escandaloso:
 - O ladro precisa da gente neste lugar, doutor, 
muito homem fechado, sem aquela coisa feminina para dar apoio.
Eu escuto, dou conselho, fao carinho,
depois eles me agradam: um mao, um docinho, umajia.
 Dois homens marcaram seu corao: um traficante
ciumento na cadeia e um francs na avenida, que no incio
pensou que ela fosse mulher. Foi casada um ano
com o bandido; com o francs, oito meses, ganhou pulseira de
ouro, vestidos, dinheiro e um colar de prolas que ela
empenhou na Caixa.
 - Teve tambm um turco peludo, pai de trs filhos,
que se apaixonou e quis me matar com trs tiros quando
descobriu que eu estava de caso com um sargento
da Pm.
 Veronique vivia armando confuso com os outros
travestis do Cinco mas, passada a raiva, perdoava as
companheiras:
 - Tem muita competio entre ns, porque uma quer ser
mais do que a outra. Se uma fala que vai para a Itlia, a
amiga que no tem onde cair morta diz que
foi convidada para desfilar no Japo. Se uma compra um frango,
a amiga que no tem onde cair morta at se prostitui para
mostrar que  chique e come frango tambm.
Querem se engrandecer em tudo. Devido a isso que d essas
brigas de rolar no cho e arrancar cabelo. Depois, acalma e
volta tudo na amizade, que a gente no  revoltada
como esses ladro, que matam o amigo. No fundo, a gente 
unida porque uma precisa da outra para sobreviver.
 Contam as ms lnguas que anos atrs no pavilho
Cinco, tarde da noite, a galeria inteira ouviu a ameaa de
Veronique:
 -  tempo de Natal. A Veronique aqui est a fim de
ganhar um mimo de certos ladro, para no contar as
sem-vergonhices que eles pedem para ela fazer neles.
A Ver est muito

248

nervosa. Tem 24 horas para acalmar ela, se no quiser sujar a
reputao de muito malandro!
No dia seguinte, um bisbilhoteiro ficou boquiaberto com a

quantidade de presentes caros espalhada em cima da cama dela.
 Realmente, discrio no era sua maior virtude, e
muitos de seus problemas foram conseqentes  falta deste
requisito, fundamental na cadeia. Uma vez, o
diretor de Vigilncia dava atendimento aos presos em sua sala
no Pavilho Seis, quando Veronique entrou pela porta da
frente, toda afetada:
- Ai, seu Jesus, socorro, o bicho est pegando.
 Falou, cruzando a sala, e saiu pela porta lateral.
Imediatamente, atrs, veio um ladro com a faca no pescoo de
um funcionrio, ameaando o diretor:
- Se fizer alguma coisa, ele morre. Quero bonde para

Avar!

Dias mais tarde seu Jesus, com humor, referia-se ao acon-
tecido:

 - Ela falou, mas no deu tempo de tomar providncia
nenhuma; foi uma alcagetagem relmpago.
 Numa das muitas confuses em que se meteu no Cinco, as
companheiras de xadrez expulsaram-na da cela. juntou seus
pertences e no se fez de rogada:
 -Vou embora mesmo, porque vocs so gentinha. Sem a
Ver aqui para trazer uma guloseima, vo ter que chafurdar na
quentinha, a seco. Eu sou chique, querida
na cadeia, tenho convite para morar em qualquer pavilho.
Vocs, vo mofar no quarto andar do Cinco, suas filhas da zona
leste!
 De fato, passou a noite no xadrez de um malandro do
Sete. O rapaz, todo gentil, cedeu-lhe a cama e dormiu a seus
ps, no cho. Para qu? No dia seguinte,
os faxineiros viram a cena pelo guich e levaram o caso para o
encarregado da Faxina, que expulsou o cavalheiro do pavilho:
249

 - Onde j se viu, ladro de respeito pr a bicha na
cama e dormir no cho! Agora inverteu tudo?
 A maior ousadia de Vronique, entretanto, foi enganar
o diretor de Disciplina, homem que comeou a vida profissional
dcadas atrs abrindo e fechando porta
no pavilho Nove. Correu um boato de que havia um revlver no
Oito. Conversa de arma de fogo na cadeia  sempre levada a
srio, porque se for verdade, coloca a vida
de todos em risco. O diretor de Disciplina trancou o pavilho
e mandou revistar de cela em cela "operao pente-fino" Nada!
Colocou em campo a rede de informantes
e aguardou, impaciente.
 No outro dia, Veronique apareceu na sala dele,
misteriosa feito gata:
 - Seu Lopes, conheo um certo ladro que entrega o
dono do cano para o senhor em troca de um bonde para a
Penitenciria. S que tem o seguinte, ele s d
o mi depois que for transferido; tem medo de morrer se falar
antes.
 Aceita a proposta pelo diretor, Veronique voltou
acompanhada do pretenso delator, um moreninho de cabelo
ondulado, com uma pinta saliente na ponta do queixo.
Ela se aproximou da mesa; ele, arisco, parou na soleira da
porta:
 - Seu Lopes, conta aqui para o bofe se no  verdade
que se ele entregar, o senhor d o bonde dele para a
Penitenciria.  verdade, pode confiar; elaj falou
comigo.
Viu, medroso, no te disse?
 Seu Lopes prometeu e cumpriu. Tera-feira transferiu o
bof e avisou os colegas da Penitenciria para transmitir-lhe
a informao, assim que o rapaz falasse.
Quarta e quinta-feira, e nenhum telefonema. Na sexta, o
diretor de Disciplina acordou irritado e foi direto para a
Penitenciria cobrar a promessa:
 - Qual  meu, est querendo me dar chapu? Eu te
transfiro, e voc, nada?

250

 - Como nada, seu Lopes, mandei os 200 reais do senhor
pela Veronique.
 Mais tarde, seu Lopes comentaria que a vida inteira 
pouco para conhecer uma cadeia. Na hora, porm, enfezou-se,
levou o falso alcageta de volta para a
Deteno e, no intuito de evitar vingana, transferiu
Veronique para o Amarelo, onde fui encontr-la naquela noite,
chorando de dor nas coxas inflamadas.
NEGO-PRETO

 Cheguei no ambulatrio e o Arnaldo no estava. Sem
ele, o atendimento ficava complicado por causa da burocracia
com as fichas mdicas e a liberao de medicamentos.
Perguntei por ele:

Est resolvendo um probleminha na enfermaria e j volta.
 Arnaldo demorou e eu resolvi procur-lo. Encontrei-o
no corredor discutindo com um grupo de doentes. Conversa
tensa; acusavam-no de no entregar a medicao
prescrita. Um preso com o corpo queimado voltou-se para mim:
 - Desculpa, doutor, estamos resolvendo um problema com
o companheiro aqui que est dando mancada.
 Para acalmar os nimos eu disse que o Arnaldo
trabalhava h trs meses na enfermaria e que eu no tinha
queixas dele. Um rapaz franzino, dos mais exaltados
na roda, respondeu:
 -  por isso que ele est tendo a oportunidade de se
defender. Porque j tinha mano dizendo que amanh, quando ele
fosse entregar os remdios no fundo da
galeria, o caminho seria sem volta.
 Nesse momento, veio pela galeria um rapaz escuro e
parou a um metro da rodinha. Sua aproximao foi precedida
pelo silncio dos outros:
 - No acredito que vocs esto debatendo um problema
desses na presena do mdico. Onde ns estamos?

252

 A interferncia dele acabou com a discusso. Um a um,
os debatedores se dispersaram.
 No final do ambulatrio mandei chamar o rapaz que
acabou com a briga. Nego-Preto a seu dispor, disse ele.
Pedi-lhe que interviesse para evitar violncia
contra o Arnaldo. Respondeu que eu podia ficar tranqilo, a
situao j estava resolvida.
 Depois disso, sempre aparecia para conversar, contava
casos da cadeia e falava das preocupaes com a famlia,
principalmente com o filho mais velho, adolescente
sem juzo, que no obedecia  me.
 O passado de Nego-Preto era semelhante ao dos outros,
a infncia nas ruas de terra da periferia, muitos irmos e ms
companhias. Na dcada de 70, o pai esteve
preso por nove anos na Deteno, e quando saiu no era o
mesmo:
- Devido que ficou transtornado.
 A priso de Nego-Preto ocorreu aps uma sucesso de
acontecimentos a partir de um assalto a uma joalheria da Baro
de Itapetininga, no centro de So Paulo:
 - Combinamos de se encontrar os tres na esquina do
assalto. Nove horas, sa da favela e fui catar um carro com o
revlver. O Marlon, meu vizinho de barraco,
passou na casa do Escovo.
 Quando entraram foi rpido. Os balconistas entregaram
tudo o que reluzia e mais o dinheiro do cofre. Os trs saram
sem correr, dobraram a esquina, pegaram
o carro roubado e fugiram na direo de Santana. De l, para o
Parque Edu Chaves. Largaram o Opala na Ferno Dias e entraram
pela favela com o produto do roubo.
 No barraco, mal comeou a partilha, Nego-Preto teve
uma surpresa desagradvel:
 - Nesse intuito, que eu estou de cabisbaixo, olho de
esguelha e, quem diria, , o Escovo est com a mo no
revlver
do cinto! S que estava meio desesperado, olhando para a
direita e para esquerda, onde que eu se aproveitei deste
pequeno descuido e sapequei ele. Questo de sobrevivncia,
se no sapeco, sapecado seria eu.
 Foram trs tiros. Escovo no teve tempo para revidar;
do jeito que estava, ficou. Imediatamente, Nego-Preto voltou a
arma para o peito de Marlon:
- Ele podia estar de piolhagem com o Escovo ou, ento,

nele?

tomar a liberdade de discordar da minha atitude.
 Nem uma, nem outra; Marlon permaneceu esttico, com os
olhos assustados. Ento, Nego-Preto quis saber:
- Por que voc ficou quietinho enquanto eu dei os tiros

 - Porque ele j tinha me ligado, que ia te matar para
dividir a parte de voc.
A resposta deixou Nego-Preto perplexo:
 - P, voc sabia que o cara ia apertar eu e ficar com
todo esses baratos a, sendo que ns trs estamos igual na
fita e se um vai para a cadeia os outros
dois vo junto! Voc podia ter evitado este acontecimento
lastimvel, ter dialogado com ele para ele no tomar uma
atitude feia dessas.
 Nego-Preto diz que s escapou com vida por ser homem
sistemtico:
 - Em hora de partilha eu no mosco.  olho por olho e
dente por dente, que amigo  amigo, e dinheiro  a maldio do
Co.
 Marlon justificou-se dizendo que Escovo vinha de
vrios homicdios e poderia mat-lo caso fosse denunciado.
NegoPreto no aceitou a justificativa:
 - P, parceiro, podia ser temido, o que fosse, meu;
no matou ns. Se voc d um al, ningum ia morrer, porque
ns ia debater. Esse negcio de dar tiro
nos amigos no e do meu feitio.

Diante da argumentao, Marlon fez uma autocrtica:
- P, Nego-Preto, nisso da eu fui um pouco meio frgil.
 - Ento deixa passar despercebido; traio por
crocodilagem  a coisa mais feia,  um Judas quem age assim, 
pessoa que cuspiu na cara de Jesus!
 Carregaram o corpo at um riacho e o caso foi mantido
em segredo:
 - Na favela, as pessoas tm olhos mas no vm, os
ouvidos so surdos e ningum fala.
Alguns dias depois, o corpo apareceu no rio Tiet:
- Bem inchado, doutor, feio, todo decomposto.
Movido por razes de foro ntimo, Nego-Preto foi ao en-
terro:
 - Devido que ns ter sido criado perto, se eu no
fosse ia dar na percepo que eu seria culpado dos
acontecimentos.
 Com o objetivo de afastar suspeita, passou o velrio
inteiro do lado do corpo. Encostado no caixo, conta que as
lembranas voltavam como num filme:
 - Po, parceiro, voc deu mancada, meu. Coisa mais
desagradvel, querer ficar com tudo! No devia de ter feito
isso! Ainda mais que ns era da mesma infncia,
empinava pipa e roubava goiaba na casa da velha. Viu no que
deu o egosmo? Acabou sem nada; da terra, s levars esse
tero branco enrolado na mo.
 Meses depois, Marlon roubou um sobrado, em Pinheiros.
Deu azar, a casa era de um investigador de polcia. Foi preso
e pendurado de cabea para baixo para
contar onde estavam os objetos roubados, a esta altura j
vendidos:
 - Numa boca de fumo na favela da Mimosa, perto da
Ferno Dias, para um elemento que atendia pelo vulgo de Bom
Cabelo.

255

 Para sair do pau-de-arara sem entregar Bom Cabelo que
pertencia a um grupo fortemente armado, Marlon preferiu dar o
nome do autor da morte de Escovo.
 Nego-Preto foi parar no DEIC, onde encontrou o amigo
delator:
- Marlon, voc me deu no assalto tambm, meu?
- No, no assalto no, Nego.
O emprego do aumentativo irritou Nego-Preto:
 - Nego  papagaio de carvoeiro. Voc sabe que eu no
gosto que me tratem assim.

Marlon explicou que no disse por mal, e o outro conti-
nuou:

 - P, mano, mas voc vai me dar logo no homicdio? Era
melhor ter me dado num dos assaltos.
 - Eu te dei no homicdio porque os irmos do Escovo
estavam pensando que era eu que tinha matado ele. De fato, ns
samos juntos da casa dele para o assalto.
Foi quando que eu apareci de volta e ele retornou finado.
Nego-Preto mais uma vez foi magnnimo:
 - P, meu, estou desconsolado! Podia te envolver no
homicdio, mas no  meu feitio. J que voc me deu, vou
confirmar teu depoimento: que matei ele sozinho,
joguei no rio e voc est limpo.
 Na verdade, a benevolncia tambm atendeu a interesses
menos altrusticos; se contasse tudo  polcia, iria responder
ainda pelo roubo do carro e o assalto
 joalheria. Alm disto, tirar Marlon do processo poderia
trazer vantagens futuras:
 - Tenho a cpia de tudo, onde consta que ele me
entregou, mas eu no delatei ele. Se um dia ele cruzar o meu
caminho na cadeia querendo levar uma, vai ser
a minha vez de falar: voc  que vai levar uma, porque est em
dvida comigo!

256

 Mesmo assim, Nego-Preto diz que no costuma vingar-se
desta forma, por causa de seus princpios:
 - Eu no uso dessas artimanhas, para no denegrir a
imagem do sentenciado, onde que vou ver ele ser espancado, ser
tomado, roubado e escurrado. Este no
 o meu ser. O meu feitio  ter olho e no enxergar, ter boca
e calar.
 O juiz no acreditou na histria de que ele matou o
comparsa em legtima defesa. Condenou-o tambm por ocultao
de cadver e, como agravante, julgou frieza
criminosa sua atitude de comparecer ao enterro e postar-se
pensativo diante do caixo. Pegou dezenove anos e seis meses.
 Uma tarde, quando cruzei o ptio do pavilho, ele
conversava srio com um rapaz novinho, de pele mais clara do
que a dele. Era o filho mais velho, que acabava
de chegar  Deteno, condenado a trs anos e dois meses por
assalto a mo armada.

257

                               OLHO POR OLHO
 Charuto entrou com o dedo enterrado numa cebola
cozida. A mo esquerda amparava a outra; nesta, os dedos
estavam dobrados, com exceo do indicador, esticado,
a metade digital introduzida num tnel aberto na cebola
quente, de sair fumaa.
 Sentou-se  minha frente, com cara de dor, e
desembainhou o dedo ofendido. Estava bem inchado; na ltima
falange, logo abaixo da linha de insero da unha,
havia dois cortes profundos, transversais, simtricos em
relao  linha mdia, no meio de um hematoma pulstil.
- Mordida de rato?
- , doutor, atingiu o osso.
 Ratos de vrias raas infestavam o presdio. No
escuro, circulavam nas galerias, corredores e interior das
celas. Na Cozinha Geral, aps a distribuio da
janta, mal os faxinas acabavam de enxugar o cho esburacado, o
exrcito murino invadia o territrio e saqueava a despensa. Ao
clarear o dia, inimigos da luz, escondiam-se
nos esgotos at cair outra noite, inexpugnaveis.
- Foi meia hora atrs.
- Mordida de rato de dia?
 - Estava trabalhando, , doutor, desentupindo aquele
esgoto que entope no pavilho Dois, quando aconteceu o
acidente.
 Charuto tirou a tampa de ferro que cobre a abertura do
esgoto que sempre entope, em frente  fachada do Dois. O
buraco estava at a boca de tranqueira e
comida velha boiando.

258

Desceu naquela gua imunda, at os joelhos, e comeou a
tir-la com um balde. Quando a manilha grossa apareceu,
Charuto enfiou a mo pela lateral, para retirar um
saco plstico que atrapalhava o desentupimento. Neste momento
sentiu uma dor lancinante, assim descrita:
 - Pegou horrvel na ponta do dedo, fina, ardida, e
espalhou como um choque pelo brao; deu at amargor na boca.
 Puxou a mo, no reflexo; veio junto o rato pendurado
no dedo indicador, mordendo fixo. Era preto, enorme:
- Pensei at que fosse um cachorrinho desses de madame.
 No desespero, a mo desenhou um crculo no ar e bateu
o rato contra o cimento, mas a pega estava to firme que no
soltou. Infernizado com a dor que at
choque dava, o rato travado no osso, Charuto levantou o brao
o mais alto que pode e despencou o animal no cho; com toda
fora.
 - S a, com perdo da palavra, foi que o desgraado
largou. Ficou esperneando as patinhas para cima.
- Morreu?
- Que nada, doutor, o bicho  o demnio!
 Foi ento que Charuto, cego de dio, agarrou o inimigo
com as duas mos, segurou-lhe a boca para no levar outra
mordida e vingou-se:
 - Cravei os dentes na mente do infeliz. Mordi duro,
at ele parar de debater. Depois escovei os dentes, e j era.

259

                           PAIXO ARREBATADORA
 Esse tal de Charuto tinha sorriso alvo e dentio
perfeita, raridade no ambiente. Malandro completo no andar,
falar e olhar, assaltante incorrigvel, estava
condenado a dezesseis anos, nesta segunda passagem pela
cadeia.
 Dois anos depois do entrevero com o rato, ele
convenceu o Zoinho, um ladro estrbico internado com sarna
disseminada, a vender o prprio colcho para comprar
crack, depois tapeou o amigo, fumou as pedras sozinho e quando
um funcionrio da enfermaria descobriu a venda, Charuto armou
uma confuso tal que Zoinho no s assumiu
a culpa de tudo, como pegou trinta dias de castigo na Isolada.
 Duas semanas mais tarde, Charuto apareceu no
ambulatrio, com ar cerimonioso, acompanhado de um companheiro
narigudo, felliniano:
 - Doutor, daria para o senhor atender este considerado
meu, que est com uma coceira cabulosa?
 Tratava-se do incauto comprador do colcho infestado
do Zoinho.
 Depois disso, passei tempos sem v-lo. Um dia, Charuto
retornou com muita tosse, febre, dispnia e os olhos
encovados: tuberculose pulmonar com derrame de
lquido pleural  direita do trax.
 rfo de me, Charuto no recebia visitas desde que
chegou  cadeia, desta segunda vez, h quatro anos. Nos
primeiros meses, ainda lia jornal e pedia notcias
da rua, mas logo

260

concluiu que satisfazer a curiosidade trazia mais sofrimento e
alienou-se dos acontecimentos do lado de l da muralha, como
fazem muitos homens sem famlia condenados
a penas longas.
 Dos parentes, no sentia saudades, com exceo do
filho mais velho:
 - O pequenininho eu no quero ver, porque ele est bem
com a av, a me da Rosirene. Agora, o grande eu no sei,
porque ele vive com a Rosane, minha outra
mulher, e ela  fumadora de crack.
 Aps cumprir dez anos, em sua primeira passagem pela
Deteno, Charuto foi posto em liberdade. Ao sair, soube que
Rosane, me de seu primeiro filho, tinha
acabado de ser presa. Um domingo foi visit-la na
penitenciria de Trememb. Levou o menino para ver a me e
cinco gramas de cocana, de presente. No nibus de volta,
com o primognito no colo, foi abordado por uma senhora de
fino trato:

 - Escuta aqui, simpatia, eu tambm sou malandra, sabe,
eu sou malandra. Vim visitar minha irm e vi voc dando um
barato l para a sua mulher.  sua mulher,
no ?  o seguinte, eu trafico. No tem condio de voc
arrumar umas dez gramas para mim? Pode confiar que eu sou do
ramo. Sou do ramo, entendeu? Sou malandra!
 Charuto sentiu firmeza. Tera-feira, pegou um nibus
at o Jabaquara e, de l, o Jardim Mriam:
 - Levei uma cara de farinha. Eu no conhecia aquela
quebrada; o maior jogo duro para achar a casa.
 No quarto dessa senhora, dona Joana, Charuto entregou
a droga e sentou para conversar com seu Machado, um senhor que
morava com ela.
 Foi quando a tentao entrou pela porta dos fundos,
sorrindo, de vestidinho com ala: Rosirene.

261

 - Nega dos lbios finos, nariz empinado, bunda de
escola de samba e eu no esgano, , saindo da cadeia, depois de
tirar dez anos. Naquela hora, pensei com
a minha cabea, preciso comer essa nega de qualquer jeito! No
sei se isso j aconteceu com o senhor, doutor, amor  primeira
vista! Paixo arrebentadora!
 Encantado pela mulata, chamou seu Machado para um
canto:

- E essa mina a?
- Essa mina a, est a.
 - Ento, fala para essa nega que  o seguinte: vou
levar ela para Santos amanh.
 Voltou na quarta-feira, mas no foi preciso viajar to
longe:
 - j samos direto para o Flor da Lapa, a maior festa
e tal, gastei dinheiro que nem gua. Depois, achei que tudo
bem, experimentei a fruta, j era. Apenas
que ela no foi embora.
 Como as condies no lhe permitiam Flor da Lapa toda
noite, alugaram uma maloca num cortio da Dino Bueno, perto da
Rodoviria velha, para viver no maior
amor:
 - Embora que de vez em quando tinha que dar uns murros
nela, que a nega era folgada pra caramba.
 Uma noite, Charuto foi dormir muito louco e acordou
com a gritaria:
- , v se acorda que a casa est pegando fogo!
Eram os vizinhos do cortio:
- Uma tremenda fumaceira, sa a milho de dentro do

quarto.
 Rosirene tinha jogado tudo que era dele, roupas,
chinelo, sapato, em cima da cama do casal e ateado fogo. A
vizinhana ameaava chamar a polcia; e ele sem
saber se apagava o fogo ou acalmava os vizinhos. Se a Pm
chegasse, iria prend-lo no

262

ato; havia acabado de sair da cadeia. A incendiria, do lado
de l da rua, assistia de camarote, cnica, dando risada.
 - P, queimou tudo, at a minha cala de baile! O
maior custo para convencer os vizinhos deixar quieto, a
polcia no ia querer saber.
 Quando acabou o fogo, descalo, Charuto saiu para
tomar ar. A mulata veio atrs. Na Dino Bueno com o Largo
Corao de Jesus ele parou numa fogueira:
- Na maior neurose, querendo pegar ela de quebrada.
 Sentou. Ela tambm, com prudncia, do outro lado, em
frente. Depois de um tempo, Charuto levantou devagar com um
cigarro apagado no canto da boca, pegou
um tio do fogo como se fosse acend-lo e avanou na direo
da Rosirene:

 - Dei umas trinta tiozadas nela. Era fagulha para
todo lado, parecia que ns estava no inferno de Satans!
 Vingado, refugiou-se num bar na famosa esquina da So
Joo com a Ipiranga e tomou vrias para rebater. Mais tarde,
quando voltou para casa, encontrou a maloca
em silncio:
 - A primeira coisa que eu olho na cama queimada  a
nega dormindo, ! Puta vida, vai embora daqui, j. No vou. E,
nessa de vai embora j, no vou, vai,
no vou, ela acabou no fondo, e ns ficamos naquele amor
aconchegado.
 Viveram dois anos juntos. Esqueceu do filho e da
mulher na cadeia de Trememb, por causa dessa paixo.
Amanheciam fumando pedra, escovavam os dentes com
a mesma escova, pediam um comercial no bar e comiam no mesmo
prato, de to bem que se davam:
- Eu roubava, ela se virava.
 Segundo ele, no adiantava: mesmo quando roubava uma
quantia suficiente para passarem alguns dias curtindo, saa de
manh e, quando voltava  tarde, cad
a Rosirene?

263

 - Estava na Estao da Luz se virando. Sabe, elas
viciam e no querem sair dali. Eu no podia fazer nada. Quer
dar?  com ela mesmo. A nica coisa que eu
falava era: s no d para amigo meu, que eu te quebro o
pescoo.
 O destino os desuniu quando ele ficou cado de tanto
crack e ela voltou para a casa da me, com o menino que tinha
nascido.
 Uma noite, trombaram na Boca do Lixo e Rosirene
confessou estar namorando um amigo dele, Mato Grosso, o dono
das pedras, e que os dois tinham planos de mudar
para Ponta Por.

-Veja s, dando para amigo meu e ainda os dois fazendo
plano!
 Hoje, ele reconhece ter perdido a mulher porque no h
harmonia que resista ao crack. Mesmo assim, continuava
decidido a resolver o caso pela via passional.
 - Quando sair da cadeia, vou matar o Mato Grosso. Ela
no, porque o errado  ele, que me conhece e sabe que a mulher
 minha; no tem nada que cantar ela
e levar embora.  eu que ele est tirando, no ela.
 A deciso de poupar Rosirene do castigo fatal, no
entanto,  fruto recente da ponderao, pois quando chegou na
cadeia seu desejo era atra-la para um lugar
ermo, cortar-lhe os ps fora com um machado e justificar:
 - No vou te matar porque ns temos um filho, e no
quero que ele me venha falar que eu matei a me dele. Mais
tarde, ele vai te ver sem p, vai perguntar
por que e voc vai dizer: eu dei para outro cara. E, a, ele
vai saber que o pai dele agiu na razo.
 Sua inteno era fazer uma malvadeza que Rosirene
jamais esquecesse. Afinal, largou Rosane por causa dela. Na
poca, ele gostava da Rosane; a primeira vez
em que esteve preso,

264

pensou que se Rosane o abandonasse, iria enlouquecer. At
ameaou:
- Se voc no me visitar, te furo os olhos.
Ela, sorriu e tranqilizou-o:
 - Quem falou que eu sou mulher de abandonar homem meu
na cadeia?
 Prometeu e cumpriu. Visitou-o, quase dez anos, todo
final de semana, com as sacolas e o menino. At ir presa. Ele
 que a traiu, por causa da Rosirene:
 - Fui cachorro; abandonei a Rosane presa em Trememb;
, maior ingratido!
 O castigo veio a cavalo quando Rosane saiu da cadeia,
antes da data prevista.
 Uma noite, ele dormia tranqilo num hotelzinho, com a
Rosirene, certo de que a outra continuava presa, quando
Rosane, libertada, foi  Boca do Lixo cobrar
a referida ingratido. Perguntou sobre o paradeiro do ingrato
num bar:
- Ele est dormindo com a mulher dele no Copa 70.
- Ali, mulher dele, ? Cachorro!
 Entrou no quarto quebrando tudo; de cara jogou a Tv no
cho e avanou para cima da Rosirene, cujo tamanho era o dobro
do seu. Ligeiro, ele vestiu a roupa
e sumiu. Ficou num botequim, esperando a poeira baixar. Meia
hora depois, apareceu o portugus do hotel:
 - Vai ver o que aquela baixinha aprontou l. Encheu a
cara da tua mulher, espetou um alfineto na bunda dela que
tirou sangue, ainda rasgou e tacou fogo
nas roupas da grandona!
 Charuto tem febre e sudorese noturna; est magro e com
os pulmes afetados. Ri, as recordaes parecem deix-lo
feliz. Apesar da eterna gratido  Rosane,
s pensa na Rosirene:

265
 - Doutor, se eu morrer na cadeia, no vou ficar
sossegado. Tenho que ver aquela mulher de novo. Depois, vou
matar o Mato Grosso, mas a primeira coisa  ver
a Rosirene, s mais uma vez. Ela  linda, doutor! T louco, a
nega me enfeitiou.

266

                                  SEM-CHANCE
 Sem-Chance diz que no era ladro nem nada. Mulato,
franzino, riso aberto, o caula da casa, chegou aos dezenove
anos sem trabalhar. Os pais, na medida do
possvel, faziam todas as vontades dele:
- O maior dengo.
Uma ocasio brigou com a famlia e saiu:
- S de bronca.
 Depois de dois dias, com fome, l na vila mesmo, parou
numa fogueira onde alguns amigos se aqueciam:
 - Eles tambm no eram ladres, mas estavam com o
pensamento de tomar o revlver do vigia da pedreira.
 Sem-Chance foi com eles, no por convico, mas por
no ter para onde ir. S para no ficar ali sozinho, na
fogueira.
 Entraram todos menos ele, que guardou o lado de fora.
Ao perceber o movimento, o vigia entrou em pnico e comeou a
gritar. Um deles atirou e acertou a
cabea do coitado. Apanharam o radinho, a jaqueta de guarda
noturno e o revlver e fugiram.
 Esse crime deu um processo de latrocnio que estragou
a vida dele. Foi condenado: doze anos e oito meses.
 - S para ver que ns no tinha maldade nenhuma,
doutor, ns roubava onde todo mundo conhece ns. Ns  criado
ali.  sem chance.
 Atrs das grades aprendeu o que faltava, e quando
saiu, em 1987:

267

- Comecei a roubar, bem roubado.
 Assaltou firmas, padarias e gente andando na rua.
Especializou-se no "gog", mtodo atravs do qual dava uma
gravata no transeunte, enquanto os parceiros
limpavam a vtima. Conta que nunca matou; chegava dizendo isto
 um assalto e, se a vtima no acreditasse, dava uma
coronhada na cabea para intimidar. No roubava
mulher desacompanhada, s de medo de chegar na cadeia com fama
de estuprador.
 -Voltei para a Deteno em agosto de 9 1, por causa
desse barato de gog e uns cinqenta, cem assaltos, por a.
Peguei mais dezenove anos, que o juiz no
quis saber das atenuantes. Foi sem chance.
 Dessa pena, j cumpriu cinco anos. Desde que chegou,
ningum lhe traz um mao de cigarros. Sobrevive s custas dos
conhecidos. Vende relgios e roupas dos
companheiros endividados; o proprietrio pede cinco, ele
anuncia por sete ou oito. Tudo o que ganha na luta acaba no
cachimbo de crack.
 - Eu tenho uma coisa de bom no carter da minha
pessoa: s fumo no dinheiro! O senhor nunca vai ouvir que o
SemChance comprou um cisco de crack no fiado.
Ando pela galeria de cabea em p, sem rabo preso com
vagabundo nenhum. Aqui dentro, comigo,  no respeito!
Depois que perdeu a me, para a famlia ele no existe mais:
 - Para a sociedade, eu no passo de um reles,
rejeitado que nem cachorro sarnento. Se aqui na cadeia os
manos no tratar eu como considerado, no vou ser
nada para ningum, sou um zero no mundo. Vou perder a
identidade prpria do ser humano.  sem chance.
 Tratei-o de uma tuberculose grave, instalada nos
gnglios linfticos. Tinha nguas volumosas no pescoo e
axilas. Magrinho, quase morreu. Depois de um ms,
j sem febre e com apetite, teve alta da enfermaria. Insisti
com ele sobre a importncia

268

de manter a regularidade do tratamento e que era fundamental
dar um tempo com o crack.
 No pavilho, ele fez exatamente o oposto e voltou
pior, com a doena disseminada nos pulmes, falta de ar ao
mnimo esforo e caquexia. Na recidiva o bacilo
veio agressivo e resistente  medicao. Em poucos dias ficou
fraco, dispnico, cado na cama o dia inteiro. Ainda assim,
sorria quando eu chegava para examin-lo.
 Uma tarde, fui v-lo antes do ambulatrio. A cela
estava invadida por uma luz bonita, alaranjada, reflexo do sol
na mulher pelada da parede. Em coma, encolhido
no catre, pele e osso, ele parecia uma criana. Migalhas de
po espalhavam-se em volta da boca ressecada. Atrs delas, um
batalho de formigas apressadas andava
em ziguezague pelo rosto agnico de Sem-Chance.

269

                                SEU VALDOMIRO
 Seu Valdomiro  um mulato de rosto vincado e cantos
grisalhos na carapinha. Em seu olhar de homem preso, as vezes
brilha uma luz que ilumina o rosto inteiro.
Os setenta anos e as histrias de cadeia ao lado de bandidos
lendrios como Meneghetti, Quinzinho, Sete Dedos, Luz Vermelha
e Promessinha fizeram de seu Valdo um
homem de respeito no presdio.
 Na caminhada, cumpriu pena em diversas unidades. Numa
delas, aps quatro meses de solitria na escurido total,
quebrada s quando abriam o guich da cela
para passar o prato de comida, que ele precisava engolir
depressa para se antecipar ao assanhamento das baratas, seu
Valdo simulou ter perdido o juzo. Para convencer
os carcereiros da insanidade, rasgou uma nota de cinco e comeu
os prprios excrementos:
 - Tive que fazer essa sujeira para sair daquele lugar.
Na solitria daquele tempo, a gente aprendia o limite de um
ser humano.
 Seu Valdo nasceu numa ladeira de terra do Pari, perto
do largo Santo Antnio, neto de uma av racista que
discriminava a me dele, de pele negra:
 - Meu pai, por ser assim de mente fraca nas
influncias, se largou e eu fiquei ao lo dar, com a me e
duas irms pequenas.
 Naquelas circunstncias, a mejuntou os trs filhos e
voltou para a casa da me dela na alameda Glete. A acolhida
foi calorosa:

270

 -A minha av materna, que justamente tinha um puteiro,
recebeu ns de braos abertos.
 A casa dessa av, na zona do baixo meretrcio de So
Paulo, era um predinho de trs andares, no qual trabalhavam
doze mulheres. No fundo ficava a casa deles,
normal.
 - Com o dinheiro que a vov ganhou administrando o
puteirinho, compramos um parque de diverses e, nisso,
comeamos a correr trecho.
 Seu Valdo era grando, j tinha dezesseis anos, tomava
conta do estande de tiro ao alvo e vivia amigado com a Betina,
ex-funcionria do predinho da alameda
Glete.
 Um dia, por traio do destino, o parque pegou fogo e
a famlia voltou para uma pequena chcara da av previdente,
perto da represa de Guarapiranga, na periferia
de So Paulo.
 Seu Valdo foi trabalhar como desentupidor de fossa,
levantou uma casinha e levou vida de trabalhador at que os
acontecimentos mudaram o rumo das coisas.
A mulher foi a causa de tudo, segundo ele:
 - Devido que era muito ciumenta, at dos meus
cachorros. Eu adoro cachorro e nem podia tratar deles direito
que ela enfezava, dizia que eu punha mais ateno
nos bichos do que propriamente na figura dela. Veja que
absurdo, doutor, um ser humano rivalizado com um animal.
 O gnio da esposa era um suplcio. Cimes de outras
mulheres, ento:
-Virgem, Deus o livre!
 Se ele cumprimentava uma vizinha, ela xingava de
mulher da vida em diante, e cada vez que ele se atrasava, eram
quatro horas de falatrio, no mnimo. O gnio
da esposa criava problema com maridos e irmos das moas
ofendidas. Ele s fazia apaziguar; tarefa inglria:

271

 - No tem jeito, doutor, mulher quando engata no cime
 o Co vestido de saia. De noite, o senhor quer dormir para
trabalhar cedo e a peste no pra. O
senhor bebe uma cachaa depois do servio, chega em casa
disfarando na hortel, ela fareja o bafo e pronto! j acha
que estava com outra, que homem tudo no vale
nada. E vai o filho de Deus provar que no!
 Um dia, mudou-se para a vizinhana uma mulata assim
descrita por ele:
 - Maravilhosa, doutor, duas pernas torneadas por Deus
e um rebolado de parar a feira.
 Na rua, quando a mulata vinha de l, seu Valdo,
discretssimo, abaixava a cabea. O comedimento tinha
justificativa:
- Para no atiar a jaguatirica em casa.
 E tambm, admite, para no despertar a ira do marido,
afamado como baiano ciumento, criador de vrios casos por
causa da mulata.
 Um domingo de sol, seu Valdo no porto de casa
estreava o primeiro culos escuros de sua vida, quando passou
a morena requebrante. Distrado, ele nem percebeu
que, atrs dele, Betina chegou na janela para bater o pano de
p:
 - Para qu, doutor! A ona invocou que eu estava de
olho comprido na mulher do baiano. Deu a volta sorrateira,
meiga como quem vai me fazer um carinho, e
foi bsica: zap! Agarrou no meu membro. Veja s o desrespeito!
 Num instante, Betina avaliou a dureza em questo e
concluiu que seu Valdo era um ordinrio sem-vergonha e no
valia o feijo que ela enchia na marmita dele.
 A gritaria atraiu os vizinhos. Seu Valdo no sabia
onde esconder a cara. Por fim, convencido da impossibilidade
de acalmar a esposa, mandou-se para o botequim,
morto de vergonha dos conhecidos.

272

 - A estrupcio ainda veio atrs at a esquina falando
um monte, tudo na voz esganiada.
 No bar ele encontrou o Joca, que lhe pagou um
rabo-de-galo para acalmar e o convidou para uma partida de
sinuca. Experiente no taco e com as mulheres, Joca
aconselhava o companheiro quando chegou o baiano. No tinha
achado bonito o papel de seu Valdo:
- O que voc aprontou com a Cida?
 - Nunca nem olhei para a sua esposa, cidado. At peo
desculpas  sua pessoa, mas o acontecido no  motivo para
ofensa. Minha mulher  ciumenta possessa
e sempre d vexame. A vila inteira reconhece o feitio dela.
 - Tua prpria senhora disse na frente de todo mundo
que voc no tira os olhos da Cida quando passa. Vou te
ensinar a respeitar a mulher do prximo, seu
preto vagabundo!
 O baiano puxou a peixeira. Joca, amigo de verdade, no
gostou da ofensa e puxou o revlver:
 - Ele  preto sim. E por acaso voc  muito branco?
Agora: vagabundo no, que ele tem carteira assinada. Se der um
passo  frente, quem morre  voc, baiano!
 O baiano vinha cego de cimes ou era valente de fato.
Mesmo baleado ainda tentou esfaquear seu Valdo. S no
conseguiu porque este lhe deu uma pancada na
fronte, com a parte grossa do taco de bilhar.
 O baiano morreu no hospital. Joca, que andava
procuradssimo pela polcia, fugiu para o Nordeste. E seu
Valdo:
 - Trouxa, dois dias depois se apresentei na delegacia,
pobre, sem advogado, alegando legtima defesa.
 Dia de visita, um ms mais tarde na Casa de Deteno,
anunciaram o nome de seu Valdo para receber uma pessoa na
entrada do pavilho. Morto de dio, diz ele,
no caminho at a
273

porta decidiu esganar a Betina, aquela mulher possessiva
responsvel pela desgraa que o atingira.
No porto, entretanto, no era Betina quem o aguardava:
 - Era a morena, a piv da tragdia, de vestido
vermelho, olhos trmulos e lbios rtilos. Me abriu um sorriso
to alvo, doutor, que encantou meu corao.
E nesse dia abenoado comeou o nosso amor, que pela vontade
de Deus resiste at hoje.

274

                               O FILHO PRDIGO
  noite Valente no saa sozinho pela vila: tinha medo
de ladro. Filho de lavradores crentes do norte do Paran,
veio para So Paulo morar com um primo
na periferia de Guarulhos. Foi bem at conhecer as pessoas
erradas, cheirar cocana, perder o emprego e se desentender
com o primo. Em seis meses comeou a assaltar
padaria, aougue, pagamento de firma e a matar gente:
 - Tem pessoas que a gente conversa com ele, assim, ou
vai fazer um trabalho junto, mas a gente no gosta dele. Um
esprito com o outro no bate. Para quem
est na vida do crime, matar ele  que nem beber um copo de
gua.
 Um de seus amigos, Salviano, vivia com uma mulher que
havia namorado um Pm. Uma noite, por cimes, Salviano convidou
Valente para matar o policial. Ele diz
que aceitou o convite porque estava mesmo sem fazer nada:
 - Esperamos no ponto do nibus. Era para ele chegar s
dez, apareceu s onze e meia. Demos oito tiros nele e samos
fora.
 Outra vez ele levava a namorada para casa, quando
passou um rapaz e disse um palavro. Valente deixou a moa e
foi atrs do outro:
- Quando alcancei, falei pra ele: , boca-suja!
Foram cinco tiros. Valente era homem de poucas palavras:
 - Muitas pessoas do Crime at debate com a vtima;
comigo no tinha conversa.

275

 Em seguida, perderam a vida dois comerciantes do Alto
da Penha que tentaram reagir ao assalto, um ladro que falou
mal dele para uma vizinha e um outro no
botequim por causa de uma cerveja derramada.
 A stima ocorreu na diviso de 30 mil dlares roubados
em companhia de dois parceiros. Estavam repartindo o dinheiro
quando um deles teve a m idia de ir
ao banheiro:
 - Fiquei esperto, porque olho de ladro cresce mais do
que devia.
 Quando o comparsa saiu do banheiro, trazia a jaqueta
de couro no brao, cobrindo parcialmente a mo direita.
Valente no hesitou:
- Catei o revlver da mesa e dei trs tiros nele. Desperd-
cio, o primeiro acertou bem no meio das vistas.
O outro companheiro se assustou:
- Voc est louco, matou o cara!
- Ele ia atirar em mim.
 Foram at o corpo, levantaram a jaqueta e verificaram
que o morto no tinha nada nas mos, o revlver permanecia na
cinta. Pacincia, o amigo consolou:
 - Morreu por culpa dele prprio: a mesa cheia de
dinheiro e ele aparece assim, por detrs, ainda com a mo
encoberta! Infelizmente, ele vacilou.
 Trs anos nessa vida e Valente resolveu organizar uma
quadrilha para assaltar banco. Viajou para o Rio e comprou uma
metralhadora na Rocinha. No chegou
a utiliz-la, porque dois de seus parceiros foram mortos num
assalto e outro foi embora para o interior. Sobraram ele e
Salviano, co-autor do assassinato do Pm.
 Salviano, nessa poca, apaixonou-se por uma menina de
dezesseis anos e abandonou a ex-namorada do Pm. Com o
amorprprio ferido, a moa foi ao DEIc e denunciou
os dois comparsas.

276

 A polcia chegou enquanto ele dormia. Ainda quis
alcanar a arma, mas no deu tempo. Nunca imaginou ser preso
com tanta facilidade:
 - Sofri dez dias no pau-de-arara, meia hora por dia.
Teve dia que me penduraram duas vezes. Eles queriam bastante
coisa, at o que eu no devia. Por causa
da metralhadora, s de assalto a banco, que eu nem cheguei
cometer, eles queriam que eu assinasse oito. Confessei s o
que eu devia, menos quatro homicdios que
ficaram de fora.
 De incio foi condenado a dezoito anos. Oito meses
depois, no jri seguinte, pegou 112 de uma s vez. A pena
total ficou em 130 anos e nove meses.

 - Eu abati um pouco. Mas no mudei de vida, at piorei
para pior. Fui para o pavilho Nove. L eu queria apresentar
que era bandido perigoso. Chegava no
cara e dizia: voc  de ver? Se , ns vamos trocar agora! A,
se ele no queria trocar, eu falava: ento voc deixa a
televiso, as coisas suas e pode atravessar
para o Cinco, que  o teu lugar. Eu pensava que a minha vida
no tinha mais jeito, j que era para morrer na cadeia, no
custava que fosse hoje. Se tinha que ser
esse o meu destino, que ssse.
 Ento, veio um dia de chuva. Para se abrigar, ele
encostou na parede junto  igreja, no trreo do Nove e, sem
querer, ouviu a pregao do pastor:
 - A Bblia diz em Isaas captulo 9, verso 6, que
Jesus Cristo  o Conselheiro,  o Deus forte, Pai da
Eternidade e Prncipe da Paz. Voc que vive na vida
errada, Deus tem um plano para voc. Venha hoje para Jesus,
que amanh pode ser tarde. No importa se  bandido, quantos
matou, Jesus Cristo faz questo de perdoar
voc com todos os teus pecados, te tirar das trevas e operar
uma obra na sua vida.
 Valente chegou um pouco para dentro. Sentiu que o
Esprito Santo de Deus falava pela boca do pastor:

277

- Quem quer aceitar Jesus? Quem quer levanta a mo!
 As veias do pescoo do pregador saltaram e os olhos
cuspiram fogo. Valente achou que a fisionomia estava
desfigurada pelo Esprito Santo de Nosso Senhor.
Sentiu um punhal frio penetrar-lhe a carne. Levantou o brao:
- Dobra o joelho, irmo!
Valente obedeceu e caiu no choro:
 -Arrependi dos crimes, da raparigagem e das maldades.
Chorei feito nen no colo da me.
 Quando levantou, estava desanuviado. Sentiu o perdo
do Senhor pousar em sua fronte.
 Continuou morando no Nove, mas os companheiros
estranharam a mudana:
 - Tinha uns, mais no esprito entrevado, que
ameaavam: est bom, agora  crente, ento vai morrer e tal,
que ns no suporta bandido arrependido.
 Andava pelas galerias do Nove com o Velho Testamento,
sem maldade no corao, lutando para colocar os companheiros
no caminho da Verdade:
 - De repente, bateu um desassossego na minha mente que
era para eu ir embora do Nove. Que tinha que ser logo. Que ali
no era mais o meu lugar.
 Pediu guarida para os irmos da Assemblia de Deus, no
Cinco, e juntou-se a eles, no quinto andar. Era outro homem:
 - j no usava mais gria nem palavra torta e no
tinha mais perversidade na alma. Estava num plano de Deus, era
Jesus abreviando na minha vida, elegendo
eu para continuar vivo no seu Reino, porque dois dias depois
que eu sa, a Pm invadiu o Nove, com cachorro e metralhadora.

                           APRENDIZ DE FEITICEIRO
 Dois dias depois que o desassossego tirou Valente do
pavilho Nove, reuni os travestis nos fundos do cinema para
uma aula de preveno  AIDs. Era a primeira
sexta-feira de outubro de 1992.
 No final, insisti no perigo da penetrao sexual
desprotegida e perguntei se havia alguma dvida. A meu lado,
um rapaz franzino de Sapopemba, conhecido como
Prola Byington, pernas cruzadas feito mulher e com a mo
desmunhecada, roendo as unhas o tempo todo, fez o seguinte
comentrio:
 - Doutor, faz meia hora que o senhor est explicando
como  que pega e no pega esse vrus. Desculpa, mas isso ns
estamos cansadas de saber. Muitas amigas
nossas j morreram. Ns precisamos de camisinha, no aula! Se
no tem camisinha para a gente obrigar o ladro a usar, de que
adianta essa conversa, doutor?
 Pouco depois apareceu o dr. Pedrosa, diretor-geral do
presdio que, na poca, andava sozinho pela cadeia inteira,
prtica que posteriormente cairia em desuso:
 - Tudo bem, doutor? Na sada, passa na minha sala para
tomar um caf.
 Nesse caf, conversamos sobre distribuio de
preservativos aos detentos, medida que naqueles dias
despertava reaes emocionais entre as autoridades
judicirias,
como a de um promotor de terno cinza e sapato azul-marinho que
me respondeu num debate:

279

 - Se a sociedade no pode entregar um litro de leite
para as crianas da favela, o senhor nunca me convencer a
distribuir camisinha para vagabundo na cadeia.
 O diretor e eu elaboramos uma estratgia para
apresentar o problema pessoalmente a algumas pessoas
influentes do Sistema. Depois, ele me mostrou uma "teresa"
apreendida. Era uma corda de doze metros, feita com tiras de
cobertor cuidadosamente enroladas ao longo de fios de arame, o
que lhe conferia resistncia para suportar
o peso de um homem disposto a escalar a muralha. A teresa
puxou outras histrias de fuga e, quando percebi, j era
meio-dia e meia:
 - Vou correr para o hospital,  tarde. Alm disso,
atrasei o senhor.
 - Por mim no, hoje  sexta-feira, dia deles lavarem
tudo para a visita do fim de semana. A cadeia est na maior
calmaria.
 Cerca de duas horas depois dessa observao, houve um
desentendimento entre dois presos no Pavilho Nove.

280

                                   O LEVANTE
 Naquela tarde, no campo do Nove, enfrentavam-se o
Furaco 2000 e o Burgo Paulista na disputa do campeonato
interno do pavilho. Nos andares, os presos arrumavam
os xadrezes. Tudo calmo, como imaginava o diretor.
 No decorrer do jogo, inesperadamente, como ocorrem os
acontecimentos mais graves nas cadeias, o Barba brigou com o
Coelho na rua Dez do segundo andar do
pavilho, um armado de faca, o outro com um pedao de pau.
Briga de rotina, no fossem as terrveis conseqncias.
 A razo da desavena no foi esclarecida devidamente,
de acordo com o Baiano Comedor, um traficante de cocana scio
de uma pizzaria no Ipiranga, que se
gabava de haver namorado as mulheres mais bonitas do bairro,
testemunha ocular dos fatos:
 - Uns dizem que foi por causa de uma dvida de cinco
maos de cigarro. Tem quem acha que foi uma maconha que gerou
os desentendimentos, mas alguns que estavam
perto at falam que foi discusso de futebol. Tantas teses
defendidas que, como diz o outro, jamais ser encontrada a
moradia da verdade.
 Como Coelho e Barba pertenciam a duas faces rivais
das zonas norte e sul, respectivamente, que h tempos se
estranhavam na rotina do pavilho, no momento
da briga os companheiros alinharam-se em torno dos dois
antagonistas e trocaram ameaas de morte. Na confuso que se
estabeleceu, o pessoal do campo subiu para o
segundo andar e o confronto adquiriu propores mais srias.
281

 Seu Jeremias diz que nessas horas de tenso o desfecho
depende de um equilbrio delicado:
 - Em briga de cadeia, doutor, se a coisa passa de um
certo ponto, desanda, e a s pra depois que morrer uma meia
dzia de uns trs ou quatro.
 Para conter os nimos, os funcionrios recolheram os
presos do campo, medida preventiva que facilita tranc-los
para evitar o pior, se necessrio. Mas no
havia mais condies de obrigar a malandragem exaltada a
entrar nas celas. O conflito era irreversvel.
 A tenso cresceu to depressa que Majestade, um dos
ladres mais respeitados, presidente de Esportes do pavilho,
um dos ltimos a deixar o campo, ao chegar
com as bolas e a rede nem tentou dialogar com os mais novos,
como habitualmente fazia nesses momentos:
 - Parecia feira de peixe, doutor. Quando est assim, 
bobagem querer apaziguar. O sangue ferve e fica todo mundo
desvairado. Subi na minha, mas em vista
das facas que esto passando na escada, bateu no meu pressgio
de que aquilo no vai acabarlegal.
 Quando comeou o corre-corre e os gritos de vai
morrer, mesmo quem nada tinha a ver com os acontecimentos
acautelou-se. Zelito, um negro alto e forte que
mais tarde conheci na enfermaria cego dos dois olhos pelo gs
lacrimognio, tirou a faca do esconderijo:
 - Eu no tinha nada com aquela zica, mas nunca vi um
passa-passa de bicuda e pau como aquele. Vou desentocar a
minha tambm, pensei comigo. No meio daquela
baguna podia sobrar para minha pessoa, perfeitamente.
 Majestade, que havia escapado vivo da rebelio de
1985, convenceu o companheiro de xadrez a se recolher:
-Vamos ficar na nossa, at morrer quem tiver que morrer.

282

 A correria e os gritos disseminaram o tumulto pelos
andares. Cadeia  como panela de presso: quando explode,
impossvel conter.
 Adelmiro, um filho de portugueses atarracado, cujo tio
tinha um desmanche na gua Rasa em sociedade com um delegado,
ao cruzar com um funcionrio que contra
o regulamento trazia as cartas endereadas a ele sem passar
pela censura administrativa, murmurou discreto, para no ser
acusado de traidor pelos companheiros:
- Desce que est embaado, chefo.
 O carcereiro entendeu o recado e desceu rpido para o
ptio interno, onde estavam cerca de dez colegas, impotentes
diante das dimenses do tumulto. Atrs
dele veio um bando de detentos com capuzes do tipo ninja e
comeou a depredar a Carceragem na esperana de destruir os
prprios pronturios criminais.
Os funcionrios de planto contam que nessa hora ocor-

reu a primeira baixa no grupo da zona norte e que a esta se
seguiram outras de ambos os lados, em retaliao. Mais tarde,
a Pm afirmou ter encontrado mortos ao invadir
o pavilho. Na verso dos presos, ningum morreu no acerto de
contas.
 Outra divergncia envolve a sada dos funcionrios do
pavilho amotinado. H quem diga que a pequena equipe de
planto, para no correr o risco de cair refm,
abandonou o pavilho e trancou a porta de fora. Os carcereiros
envolvidos afirmam que a Pm, alertada pelos guardas da
muralha, j estava no presdio e deu ordem
para que eles sassem.
 De qualquer modo, com a ausncia dos guardas, o
pavilho caiu nas mos dos rebelados. Logo o Nove, onde vai
parar principalmente a garotada presa pela primeira
vez. Gente sem experincia de cadeia, como o Nardo, um
ladrozinho principiante que aderiu porque, por coincidncia,
tinha to-

283

mado um baque de cocana no xadrez quando comeou o alvoroo:
 - A cadeia caiu no nosso poder. Digo nosso porque,
naquela circunstncia, ns est tudo envolvido. A protestamos
contra a nossa melhoria, que o ambiente
j no vinha do melhor, muitos manos querendo transferncia,
cara com a Colnia assinada, pena vencida, as visitas um
pinguinho s, e j era.
  verdade, h tempos os funcionrios alertavam que o
ambiente no Nove deixava a desejar, mas fazer o qu? Num
pavilho daqueles, na poca com 2 mil homens
espremidos feito sardinha, fases mais tensas aconteciam
periodicamente. Como adivinhar o momento da exploso?
 Excludos os mais sensatos, que se trancaram nos
xadrezes, os outros armaram um berreiro infernal, faca, pau,
cano de ferro e quebra-quebra, correndo descontrolados,
contagiando a massa com a excitao, feito estouro de boiada.
 Naquele momento, Santo, o rapaz sem a orelha direita
que montava o equipamento nas palestras no cinema, cumprindo
dezoito anos de uma pena que acabaria
em fevereiro do ano seguinte, olhou pela janela do xadrez e
viu o peloto de Choque enfileirado na porta de fora do
pavilho, de mscara ninja cobrindo o rosto,
escudo, metralhadora e a cachorrada.
 Nos andares, agitados como formigas antes do temporal,
os detentos queimavam e destruam o que estivesse ao alcance.
Alguns aproveitavam velhas rixas para
saquear xadrezes alheios, provocando retaliao por parte dos
saqueados.
 Mais tarde o irracionalismo da turba teria
conseqncias desastrosas, como observou rra Meu, um faxina
de pescoo longo como os de Modigliani e sotaque
italianado caracterstico do bairro da Mooca, preso num
caminho de lenha que trazia maconha de Pernambuco para um
armazm da Vila Matilde:

 - rra, meu, a bem dizer verdade, bagunamos mesmo,
normal. Nessa, que uns imbecil se apossaram de umas latonas de
leo da Faxina e derramaram tudo na escada
para a polcia escorregar. Digo imbecil porque so muito
burros os caras, meu. Mais tarde a armadilha se voltaria
contra ns prprios.
 Enquanto isso, oficiais da Polcia Militar,
acompanhados de autoridades judicirias, assumiam o comando da
cadeia. O diretor ainda tentou convenc-los a
deix-lo dialogar com os prisioneiros. De fato, chegou at a
porta que d acesso ao ptio externo do Nove, mas, antes que
pudesse entrar, a Pm em formao militar
atrs dele disparou porto adentro. S podem contar o que se
passou da em diante, como diz o dr. Pedrosa:
- A Pm, os presos e Deus.
 Ouvi apenas os presos. Segundo eles, tudo aconteceu
como est relatado a seguir.

                                    O ATAQUE
 Recolhido em seu xadrez, Majestade, corintiano
fantico desde criana, como o tio que o levava para assistir
aos treinos no Parque So Jorge, escutou a Pm
anunciar do trreo:
- Entra todo mundo no xadrez que ns vamos invadir.
 Segundo os relatos, os presos obedeceram, pois, como
dzem,  tradio na cadeia:
 - A gente pode ser tudo ignorante, ladro, malandro,
mas burro no. Ningum gosta de morrer. Quando a Pm invade,
todo mundo corre para o xadrez, que os homens
vm de coturno, cachorro e calado nas armas. No tem condio
de encarar eles na galeria com faca e pedao de pau.
 No terceiro andar, ao ouvir o aviso para sair da
galeria, Dad, um ladro de Carapicuba que sobreviveu a seis
tiros de um justiceiro contratado pelos comerciantes
do bairro, nico desencaminhado numa famlia de crentes
praticantes e que na vspera havia recebido uma carta da me
pedindo-lhe que no deixasse de ler na Bblia
o Salmo 9 1, teve uma impresso falsa:
 - Estava meio sinistro. Vinha uma p de polcia de
mscara, s com os olhos de fora, metralhadora, latido de
cachorro e um helicptero abaixando bem baixinho,
com um cano para fora. j entraram no andar de baixo atirando,
mas eu, idiota, achei que era bala de festim.
 Dad correu para sua cela, onde encontrou mais treze
pessoas tentando se esconder dos invasores, como ele. Achou um
canto atrs de um pequeno muro junto
 pia e se agachou.

286

 No esperou muito nessa posio incmoda. O Choque
chegou depressa no terceiro andar. Pelos gritos, ento,
percebeu que as balas no eram inofensivas como
havia imaginado:

 - Vocs no me chamaram? No pediram a morte? E  s
barulho de rajada. Os infelizes que moscaram para se esconder
foram os primeiros a cair. Era tiro seco
e grito de pelo amor de Deus! Ns quietinhos no xadrez, eu
feito avestruz, sem coragem para levantar a cabea de trs da
pilastrinha da pia.
A morte correu pela galeria e chegou na porta de sua cela:
 - Um polcia abriu o guichezinho da porta, enfiou a
metralhadora e gritou: Surpresa, chegou o diabo para carregar
vocs para o inferno! Deu duas rajadas
para l e para c. Encheu o barraco de fumaa, maior cheiro
de plvora. S fui perceber que estava vivo quando senti um
quente pingando nas costas. Era sangue,
na hora at pensei que fosse meu. Olhei para os parceiros,
tudo esfumaado, furado de bala, pondo sangue pela boca.
Morreram onze, escapei s eu, com um tiro de
raspo no pescoo, e um companheiro da Cohab de Itaquera, ,
ileso, maior sorte.
 No segundo andar, Jac, um dos faxineiros do Nove,
baixinho de fala gil, traficante de cocana que se orgulhava
de fazer negocios por telefone, sem sequer
tocar na droga, escapou por pouco:
 - Foi o maior panico, todo mundo correu para o xadrez.
Eles vinham intencionados de matar a Faxina inteira. Assim que
apareceram no segundo andar, um Pm
gritou: Vamos dar fim nesses filhos da puta da Faxina!
 Por no conhecer a cadeia, entretanto, os soldados
pegaram a galeria no sentido oposto ao das celas dos
faxineiros. Sorte de Jac e azar do carteiro, que
foi o primeiro a morrer; justamente ele, sobrevivente daquele
caso em que os carcereiros de um distrito da capital trancaram
mais de cinqenta homens

287

numa cela apertada, matando dezoito por asfixia. Depois do
carteiro, vieram os outros da mesma ala.
 Em seu xadrez, Majestade, vendo confirmada a
premonio, sentou-se num banquinho com os cotovelos apoiados
nos joelhos e a cabea grisalha entre as mos,
o olhar na direo dos ps. O companheiro, apavorado, tremia
no canto da cama. Quando a porta da cela foi aberta, Majestade
permaneceu esttico, de cabea baixa.
Pelo canto dos olhos viu apenas o coturno do policial e
esperou o tiro de misericrdia na nuca:
 - Depois de uma eternidade, ele perguntou se a gente
estava na baguna. Expliquei que eu no era criana, sem
levantar os olhos do cho, que ns s mexia
com esporte, que ele podia ver as bolas espalhadas no xadrez.
O Pm ficou quieto, eu esperando o tiro. A o coturno deu
meia-volta na direo da galeria e eu ouvi
o companheiro caindo no choro descontrolado. Continuei feito
esttua.
 Os vizinhos de cela de Majestade no tiveram a mesma
sorte. Entre eles, o centro-avante do Furaco 2000, que
momentos antes da rebelio estava radiante com
os cinco gols marcados contra Marco, goleiro do Burgo
Paulista (que tambm encontrou a morte), e com a perspectiva
da liberdade na tera-feira seguinte.
 No quinto andar, num xadrez com nove pessoas, morreram
sete, inclusive dois irmos cariocas, presos uma semana antes
aps assaltar um motorista na Castelo
Branco, para voltar ao Rio e assistir ao casamento de uma
prima:
- Morreu um sentado na cama e o outro no apavoro.
 Nesse xadrez, Salrio Mnimo, um ladro condenado pelo
latrocnio de dois policiais em Itapevi, conseguiu sobreviver
graas  baixa estatura. No meio do
tiroteio, encolheu-se num canto e puxou para cima do seu o
corpo enorme de Rambo, o primeiro a cair morto na cela.

288

 Passava das trs da tarde quando a Pm invadiu o
pavilho Nove. O ataque foi desfechado com preciso miltar:
rpido e letal. A violncia da ao no deu
chance para defesa. Embora tenha sobrado para todos, as baixas
mais pesadas ocorreram no terceiro e no quinto andar.
 Cerca de trinta minutos depois de ordenada a invaso,
nas galerias cheias de fumaa ouviram-se gritos de "Pra, pelo
amor de Deus! No  para matar! j chega,
acabou! Acabou!".
Uma depois da outra, as metralhadoras silenciaram.

289

                                   O RESCALDO
Quando os tiros calaram, caiu um silncio de morte na galeria.

 Atrs do murinho, Dad s pensava no desgosto da me
com a morte dele e no arrependimento por no ter lido o Salmo
91. Minutos depois, escutou passos de
coturno:
- Quem est vivo, levanta, tira a roupa e sai pelado!
Ergueram-se o Itaquera e ele:
 - Ainda tentei reavivar um companheiro que eu conhecia
da rua, mas ele j estava de olho virado. Sa para a galeria.
Maior esgano, , um corredor polons
de Pm: corre, corre! Levei paulada nas costas e pontap nas
pernas.
 Quando chegou na gaiola, antes da escada, um policial
soltou um pastor preto que pulou no pescoo do ladro ferido.
Dad deu uma finta no animal e escapou
para a escada, mas levou um chute que veio no sabe de onde,
desequilibrou-se nos degraus lambuzados de leo, caiu e bateu
a cabea. O pastor veio em cima:
 - O tombo causou um branco na mente. Foi at bom,
porque na hora nem senti as mordidas do cachorro nas pernas e
no testculo.
Acordou com o cassetete do Pm:
- Levanta, vagabundo, mo na cabea!
 Como Dad, os demais sobreviventes tiraram a roupa e
correram no meio da pancadaria, escada abaixo, escorregando no
leo e no sangue derramado, com os cachorros
no encalo.

290

 Jac, o traficante por telefone, diz que no houve
espao para altrusmo:
 - Sa do xadrez e o cachorro veio atrs. Quando ia me
alcanar, desviei por trs de um companheiro mais gordo, de
modo que ele ficou entre a fera e eu. Infelizmente
para ele, coitado, que tomou uma mordida no brao, que nem
rodando o animal no ar ele largava. No tive condies de
socorrer o rapaz, porque ali era cada um por
si e Deus por quem Ele julgava merecedor.
 Majestade controlou os nervos, a cabea entre as mos,
at ouvir a ordem de descer:
 - Sa desabalado, para escapar da pancadaria. A pressa
foi to nervosa que, , esqueci de tirar a roupa.
 Desceu as escadas de bermuda e a inseparvel camisa do
Corinthians. Quando chegou no ptio interno, havia um Pm com a
metralhadora apontada para os que desciam.
Entre as pernas do policial jazia um homem morto, com sangue
escorrendo pela boca. Era o Santo, que nos ajudava no cinema.
Apesar do tempo de cadeia, Majestade tomou um choque
ao ver o corpo do amigo:
 - Quando vi o Santo ali, feito trofu no meio das
pernas do Pm com a metranca, meu raciocnio paralisou.
Ao v-lo de roupa, o policial soltou a trava da arma:
- , corintiano mosca-de-boi, est vestido por qu?
 Ao ouvir o som do destrave, Majestade e todos os que
estavam perto jogaram-se no cho, um por cima dos outros. Ele
diz que nunca tirou a roupa mais depressa:
- Mergulhei de peito no cho e j levantei pelado.
 Os policiais dispuseram a massa em fila no ptio
interno do pavilho e ordenaram que todos sentassem com os
braos cruzados sob as coxas e a cabea entre
os joelhos. Quem levan-
tasse o olhar para ver o que se passava, tomava cacetada e
mordida dos pastores alemes.
 Ficaram horas sentados no ptio, pelados, em silncio,
com a Pm e os cachorros excitados em volta.
 Quietinho, preocupado apenas em preservar a vida,
Chico Helipolis, ladro da favela de mesmo nome, perdeu a
corrente de ouro e a santa protetora que ganhou
da madrinha na primeira comunho:
 - O Pm abaixou do meu lado: v se  bom fazer isso com
os outros, seu vagabundo, e arrancou a correntinha do meu
pescoo. Justamente eu que s roubei firma,
banco e manso e nunca me sujei por coisa mida.
 L pelas dez da noite a Pm tomou posio na escada e
nas galerias e comeou a recolher os presos. Subiram os
cinqenta ou sessenta da primeira fila. Minutos
depois, mais tiros, gritos e latidos.
 No ptio, com medo das balas, os homens procuravam se
arrastar, discretamente, para as filas de trs.
 Gaguinho, um apontador de jogo do bicho e vendedor de
maconha que trabalhava na copa dos funcionrios, descreveu
assim o caminho de volta:
 - Na subida da escada, tem uma coisa interessante:
estava lavado de sangue, um monte de cadver espalhado. No
podia parar a fila, os polcias mandavam correr
e ameaavam: se algum me espirrar sangue, vai morrer! Tinha
que correr descalo naquela sangueira, sem levantar os ps
para no sujar os elementos, que eles queriam
achar pretexto pra matar.
 A averso dos policiais pelo sangue derramado custou a
vida de vrios desastrados, como explicou Isaas, um ladro
que perdeu o movimento do brao esquerdo
por overdose de crack e anos depois morreu de tuberculose na
enfermaria:

292
 - Tudo alucinante, na velocidade, e ainda mandava ns
gritar: Viva o Choque! Viva o Choque! Um tiozinho que vinha,
em vez de pisar num finado estendido na
passagem, desviou para o lado do polcia encostado na parede,
s que pisou na poa de sangue e espirrou na cala do cidado.
O polcia no teve dvida: parou a escada
na hora e pou, pou, dois tiros, na frente de todo mundo.
 Atirou, puxou o corpo de lado e gritou para um preso
de culos que vinha em seguida na fila:
 - Voc a, carrega esse cadver l para baixo! Nesse
momento, a mente do finado deve ter entrado em pane, porque
ele caiu no choro e disse que no tinha
coragem. Ah! Voc no vai, ? Deu um tiro seco, que s no foi
 queima-roupa porque o rapaz estava pelado, como todos ns.
Numa frao de segundo, j virou para
a fila: No pra! no pra!
 Os homens foram distribudos ao acaso nos xadrezes. Em
cada um, colocavam o mximo possvel, trancavam e lotavam o
seguinte, at prenderem todos.
 Os corpos tiveram que ser carregados para o trreo
pelos prprios presos. Jac, o baixinho que traficava por
telefone, foi um dos carregadores.
 - Chegaram para mim e mais quatro: Vocs; a, podem
catar os cadveres da galeria do segundo andar e levar pra
Escola, l embaixo! A gente pegava nas pernas
e nos braos e descia. Tudo depressa, com os polcias
apavorando.
 A essa altura, embora os acontecimentos j lhe
tivessem anestesiado o medo da morte, Jac se preocupou por
estar descalo, com os ps esfolados do futebol:
 - Tanto Hiv na cadeia, se escapar vivo vou acabar
pegando AIDs. Foi quando um PM mandou a gente empilhar direito
os corpos, na Escola, que estava a
maior baguna de brao e perna, as cabeas cada uma para um
lado. Nisso que ele est falan-

293

do, algum se mexeu na pilha. Ele foi dar uma coronhada de
metralhadora no cara e se distraiu, aonde que eu me aproveitei
e deitei num cantinho, no meio dos falecidos.
 Ficou imvel na brecha entre os corpos, com a
respirao quase presa, at que os quatro entraram com o
ltimo cadver. O Pm se dirigiu a eles:
 - Terminou? Eles responderam que sim. R, r, r,
rajou os quatro. Caram duro por cima dos prprios
companheiros que a gente tinha carregado.
 Enquanto o medo da AIDS salvava a vida de Jac, um
oficial da Pm dava ordem para Dad descer os corpos do
terceiro andar:

 S na gaiola do terceiro tinha uns trinta cadveres
amontoados. A pilha tinha quase dois metros de altura.
Descemos eles para o carro do IML estacionado
na entrada. j estavam at rijos, com uns arrombos no peito.
 Quando Dad e os companheiros acabaram, o tenente
mandou cham-lo:

no ?
- Vem c, vagabundo, voc est em latrocnio de polcia,

- Eu, no senhor, vim preso de laranja.
- Voc matou polcia, sim, no me engana!
 - Nunca matei ningum, senhor, minha pena  pouquinha,
trs anos s. Ca de laranja.
 - Ento, antes que eu me arrependa, sobe com essa fila
a. Sai da minha presena, que voc vai pegar o maior boi
porque tem a cara do meu filho mais velho!
 Mais tarde o ladro de Carapicuba deu graas a Deus
pela semelhana fsica com o primognito do militar:
 - Eu tirei a noo de que o filho dele me salvou a
vida, depois de ver que os demais carregadores sumiram para
sempre.

294

 Com os presos trancados, os carros da polcia e do imi
transportaram os mortos at tarde da noite. Nas celas o
ambiente era trgico, diz Dad:
 - No conseguimos dormir dentro do barraco. Uma,
porque ns ficamos perturbadssimos, e, outra, que o cheiro de
carnia era forte; o cho estava de sangue
at o rodap. S no dia seguinte  que limpamos tudo, e eu
arranjei uma Bblia.
 No livro sagrado, Dad finalmente leu o Salmo 91
recomendado pela me na vspera, e diz que chorou feito
criana com o trecho:
 - Mil cairo a teu lado e dez mil  tua direita, mas
tu no sers atingido; nada chegar a tua tenda.
 No dia 2 de outubro de 1992, morreram 111 homens no
pavilho Nove, segundo a verso oficial. Os presos afirmam que
foram mais de duzentos e cinqenta, contados
os que saram feridos e nunca retornaram. Nos nmeros oficiais
no h referncia a feridos. No houve mortes entre os
policiais militares.

295



CRDITOS FOTOGRFICOS
Todas asfotos so da dcada de 90

Base Aerofotogrametria e Projetos S/A: p. 7

CADERNO-COR 1 Acervo Waldemar Gonalves: 39 Bob
Wolfenson: 23; 24 Drauzio Varella: 1; 2; 3; 4; 5; 6; 7; 8; 9;
10; 11; 13; 14; 15; 16; 17; 18; 19; 20; 21;
22; 25; 26; 28; 29; 30; 31; 33; 35; 36 Joo Wainer: 12; 27; 40
Rachel Guedes: 32; 34

CADERNO P&B

Agncia Estado: 19 (Luiz Prado) Andr Brando: 4; 7; 8; 9; 10;
11; 12; 16; 18 Comisso Teotnio Vilela: 56 (Carlos Csar
Grama) Drauzio Varella: 2; 3; 6; 17; 20;
21; 23; 25; 26; 29; 30; 31; 32; 33; 34; 36 Folha Imagem: 5
(Juvenal Pereira); 14 (Marlene Bergamo); 15 (Niels i 22
(Matuiti Mayezo); 27 (Eduardo Knapp);
 Andreas)1
 28 (Jorge Arajo); 35 (Eder Chiodetto); 38 (Flvio
 Florido); 39 (Flvio Florido); 40 (Carlos Goldgrub);
 54 (Lalo de Almeida); 55 (Jorge Arajo); 57 (Luiz
 Carlos Murauskas)
Rachel Guedes: 1; 13; 24; 37; 41

297

          Material Retirado do Site Oficial de DRAUZIO VARELLA
                                  Brbara
No Amarelo

Conheci Brbara gripada, de cala justa e um n na blusa acima do umbigo. Tinha um
brinco s, uma borboleta colorida tatuada no pescoo e um morango na ndega
esquerda,     parcialmente      escondido      pela      calcinha   de       renda.

Foi no lugar mais lgubre do Carandiru: o Amarelo, galeria escura de paredes midas,
com vinte celas de cada lado do corredor central, no ltimo andar do Pavilho Cinco.
Para l vo os marcados para morrer, gente que desrespeitou as leis do crime:
estupradores, delatores, uma multido de craqueiros insolventes e ladres que
ludibriaram comparsas ou deitaram na cama da mulher de algum companheiro preso.

No Amarelo, as celas tm dois metros e pouco de largura por trs metros de comprimento
e ficam trancadas as vinte e quatro horas do dia. O visitante que vem pela galeria no
tem acesso visual ao interior. A porta de entrada  de ferro macio, com um pequeno
guich central fechado por dentro. Atravs dele, a malandragem esgueira a cabea para
bisbilhotar, trocar uma idia cara a cara com o vizinho e passar mercadoria pelo fio de
barbante.

A pintura encardida das celas exibe as manchas das cabeas que nela encostaram. No
alto da parede oposta  porta, meia dzia de grades grossas constitui o nico acesso ao
mundo exterior. A paisagem so as janelas das outras trs faces que completam o
quadriltero   interno   do    pavilho    e   um    pedao    de      cu    no   alto.

Naquela poca, cumpriam pena no Amarelo quase seiscentos homens para l
transferidos por livre e espontnea vontade. Sete, oito, doze, s vezes, num espao
restrito, nublado de fumaa de cigarro. Ociosos, sentados no cho durante o dia e
deitados em colchonetes de espuma  noite; um corpo para l, outro para c, invertidos,
a cabea de cada um voltada para os ps do companheiro, porque dois malandros jamais
dormem         com      os      rostos    virados      um      para      o      outro.

Sol, apenas aos sbados, das oito ao meio dia. Nesse dia, o pavilho inteiro amanhece
fechado para que eles possam descer ao ptio sem risco. Mesmo assim, muitos abrem
mo desse direito, preferem continuar trancados. So homens precavidos, empenhados
em             sair            com             vida            da              cadeia.

s segundas-feiras, com o auxlio do enfermeiro voluntrio Paulo Preto, homem livre
como eu, e do Faustino, um preso do Amarelo, eu atendia os habitantes do setor.
Quando chegvamos ao quinto andar, um funcionrio abria as duas portas que do
acesso  galeria central e nos trancava l dentro.  noite, para sair, gritvamos para ele
trazer as chaves.



                                 Fim do Livro
Esta obra esta digitalizada e pode ser redistribuida desde que
mantendo as INFORMAES deste documento, como autor, fotocopia,
etc.

Tenha em mente que esta obra foi digitalizada sem o consentimento
de Drauzio Varella, caso queira contribuir para o autor compre o Livro
Original.

Se este livro no estivesse digitalizado vo teria que Ter pego em
uma biblioteca ( Se tiver ) ou comprando o original, por este objetivo
que ele foi distribuido a voc.


Vamos comear a Digitalizar nossos Livros, a cada livro digitalizado 
 uma fonte de ajuda para muitos, Digitalizar um livro  facil use pelo
metodo de IMAGEM que fica muito mais facil para quem vai digitalizar,
  o metodo mais demorado e trabalhoso  o OCR que Digitaliza cada
       letra e apos voc tem que arrumar cada palavra errada.

Se todos ficassemos dizendo que "Os Scanners que temos disponiveis
       por preos acessiveis so muito lentos para Digitalizar"
NUNCA TERIAMOS UM LIVRO DIGITALIZADO E ISTO NO  VERDADE
     O que precisamos  TER MOTIVAO e FORA DE VONTADE

   Veja um exemplo: Nos sites ADULTOS esto disponiveis diversas
imagens de mulheres e cenas improprias para menores que na maioria
Foram Digitalizadas por SCANERS BARATOS e LENTOS, como podemos
   dizer que eles demoram para digitalizar se existe tantas fotos de
 revistas adultas brasileiras digitalizadas? Sera que foram as proprias
  revistas que cederam as imagens, que nem mesmo em seus SITES
                      OFICIAIS disponibilizam??
                              Creio que no.
   A Partir deste exemplo voc pode perceber que precisamos  de
           MOTIVAO, FORA DE VONTADE E INCENTIVO.

                                 FIM

                             Conhea:
                          http://elinks.up.to
